Samuel Aranda para The New York Times
Samuel Aranda para The New York Times

Partido de extrema-direita da Espanha projeta alcance nacional

Após vitórias nas eleições regionais, sigla busca crescimento nas eleições

Raphael Minder, The New York Times

21 de fevereiro de 2019 | 06h00

EL EJIDO, ESPANHA - Espremida entre as montanhas do Mar Mediterrâneo, a província de Almería, no sul da Espanha, já foi o cenário dos filmes de faroeste que transformaram Clint Eastwood num astro. Agora, quilômetros de reluzentes estufas de plástico se estendem até o horizonte, incubando os tomates, pimentas e outros produtos que transformaram esta região, antes muito pobre, em um centro agrícola.

Mas a semente mais importante que tem crescido na costa do sul da Espanha é a do Vox, primeiro partido espanhol de extrema-direita desde o fim da ditadura de Franco, em 1975. Com a decisão do primeiro-ministro Pedro Sánchez de convocar novas eleições, tomada no dia 15 de fevereiro, o Vox terá agora a oportunidade de testar seu poder de sedução num palco nacional. 

Sua entrada acabaria com um tabu para a Espanha, que até o momento resistiu à atração do nacionalismo de extrema-direita observado em boa parte da Europa. Em eleições regionais realizadas em dezembro na Andaluzia, onde fica Almería, o Vox recebeu 11% dos votos. Em El Ejido, município local com cerca de 90 mil habitantes, o partido foi vitorioso com quase 30% dos votos.

De acordo com seus defensores, o que anima o Vox é o desejo de retomar e defender o nacionalismo espanhol diante de supostas ameaças à integridade do país. Para o Vox, isso inclui a imigração, embora essa região dependa muito da mão de obra sazonal, e as ambições de independência da Catalunha, vista como uma tentativa desta rica região do nordeste da Espanha de dar as costas aos espanhóis mais pobres do sul.

“A imigração ilegal é um problema para toda a Espanha", disse Juan Francisco Rojas, presidente do Vox em Almería, onde cerca de 14 mil imigrantes chegaram da África no ano passado enquanto o governo populista da Itália fechava suas fronteiras. Ainda que boa parte do país seja favorável a uma política dura em relação à secessão catalã, a Espanha tem sido tolerante no que tange o assunto da imigração.

Mas a ascensão do partido num país que viveu um longo capítulo ditatorial sob o governo de Francisco Franco deixou muitos perturbados. O fundador do Vox, Santiago Abascal, tem companhia na Europa, e juntou-se à nacionalista francesa Marine Le Pen na campanha presidencial dela em 2017.

“Se observarmos Trump nos Estados Unidos ou Bolsonaro no Brasil, vemos que as pessoas querem agora políticos duros o suficiente para cumprir o que prometem", disse Juan Carlos Perez Carreño, proprietário de uma frota de caminhões-frigoríficos que transportam a colheita das estufas, referindo-se a Jair Bolsonaro, presidente brasileiro de extrema-direita. O Vox não assumiu oficialmente a simbologia fascista frequentemente usada por grupos muito menores na Espanha, que se tornaram mais visíveis conforme a disputa em torno da Catalunha segue sem solução.

Em vez disso, o Vox propôs abolir uma “lei de memória histórica” de 2007, que prevê a remoção de símbolos franquistas dos espaços públicos. O partido se considera defensor dos valores católicos e diz que fecharia as mesquitas suspeitas de envolvimento em pregações radicais. Em vez de rechaçar o Vox, os partidos conservadores já estabelecidos da Espanha indicaram sua disposição em formar uma parceria se necessário.

Pepe Moreno, 67 anos, que transformou seu lar num museu para sua coleção de carros antigos, diz que sempre votou no Partido Popular, mas pensou em mudar para o Vox, principalmente por causa de sua preocupação com a corrupção. Mas a imigração também estava entre seus motivos. “Não vejo problema em permitir a entrada de alguns imigrantes", disse ele, “mas sou contra uma política de portas abertas, que significa que ninguém consegue nem mesmo saber quem está entrando na Espanha".

Muitos imigrantes vivem fora da cidade, perto das estufas, em vilarejos menores como Las Norias de Dazas, que foi “tomado pelos mouros", comentou Fernando Fuentes, dono de um bar. “Sou o proprietário do último estabelecimento espanhol” da sua rua, alegou Fuentes, que mantém uma bandeira da época de Franco no quarto dos fundos.

Sentado com outros membros da comunidade muçulmana local e jantando cuscuz numa mesquita, Issam Mehdaj, que distribui água aos lares locais, não parecia preocupado com a ascensão do Vox. “Não importa o que diga o Vox ou qualquer outro partido", disse ele, dando de ombros, “as pessoas precisam de nós aqui para trabalhar".

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