Dmitry Kostyukov / The New York Times
Dmitry Kostyukov / The New York Times

Do coração de Paris a galpão na periferia: a nova casa do Partido Socialista Francês

Desde 2017, a sigla vem sofrendo uma série de derrotas eleitorais tão desastrosas que faz duvidar de sua sobrevivência

Norimitsu Onishi, The New York Times

22 de janeiro de 2020 | 06h00

IVRY-SUR-SEINE, FRANÇA – Durante dezenas de anos, a sede do Partido Socialista Francês permaneceu no coração de Paris – nas proximidades das maiores escolas da nação; dos museus Orsay e Louvre; da Assembleia Nacional, e, do outro lado do Sena, do Palácio do Eliseu.

Hoje, sua nova casa, em uma fábrica de produtos farmacêuticos reestruturada, compartilha um bloco com um comerciante de ferro velho e um atacadista de bebidas, logo atrás da rede dos trens suburbanos que atende a “banlieue”, a periferia, de Ivry-sur-Seine. Um baluarte do partido queixou-se de que o seu “GPS não conseguiu localizar a rua”.

Desde 2017, o Partido Socialista vem sofrendo uma série de derrotas eleitorais tão desastrosas que faz duvidar de sua sobrevivência. O beneficiário desta situação foi o presidente Emmanuel Macron, ex-banqueiro de investimentos que criou seu próprio partido de centro. Os partidos dominantes da França são hoje La République em Marche, de Macron, e o Agrupamento Nacional de extrema direita de Marine Le Pen.

Os otimistas consideraram a mudança do partido do Sétimo Arrondissement de Paris, um ano atrás, em razão de problemas financeiros, não uma derrota, mas uma chance de renascer – uma oportunidade para afastar a ideia de que a agremiação liberal não tem contato com a classe trabalhadora.

Sua nova casa em Ivry-sur-Seine, um subúrbio de operários no leste da capital, que continua um reduto do partido Comunista Francês, representou esta aspiração, afirmam os seus integrantes.

“O símbolo que nós procurávamos era podermos dizer que estamos, mais uma vez, entre aqueles que somos chamados a representar”, disse Olivier Faure, secretário-geral do partido. Durante o mandato do presidente socialista, François Hollande, de 2012 a 2017, ocorreu um rompimento entre o partido e seus membros trabalhadores, explicou Faure, 51. A base tradicional do partido se “sentiu traída” pelas medidas de Hollande favoráveis à empresa privada. 

A pressão do partido em questões liberais do ponto de vista social, como o casamento homoafetivo, o tornou mais conhecido como a opção dos “bobos” urbanos, boêmios e burgueses.

O futuro pareceu sem limites quando o partido se mudou para a sua antiga sede – no nº. 10 da Rue de Solférino, no Sétimo Arrondissement – meses antes de os socialistas chegarem à presidência pela primeira vez, com François Mitterrand, em 1981. Na época, a localização tinha uma mensagem diferente: “Mostrar que a esquerda estava pronta para governar”, lembrou Faure.

Como partido devotado à defesa da classe trabalhadora, o endereço em um dos bairros mais ricos da capital soava dissonante. A venda do local a uma construtora francesa proporcionou uma entrada de cerca de 46 milhões de euros, cerca de US$ 51 milhões, que usou para pagar dívidas e adquirir sua nova sede por 7 milhões de euros.

Os socialistas de toda a Europa – Alemanha, Itália e até mesmo na Grã-Bretanha – estão em crise. “Eles não se deram conta das consequências da globalização”, afirmou o historiador Alain Bergounioux, especialista em socialismo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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