Goran Tomasevic/Reuters
Goran Tomasevic/Reuters

Partidos governistas sofrem revés na América Latina

Em toda a região, há um movimento que busca a boa governança

Azam Ahmed e Ernesto Londoño, The New York Times

11 Julho 2018 | 10h00

CIDADE DO MÉXICO - As eleições presidenciais do México, que levaram à ruína o partido que governou o país por mais de 70 anos, marcaram a mais recente derrota dos partidos governistas em toda a América Latina. As eleições realizadas recentemente na região provocaram perdas decisivas para os partidos de todas as tendências políticas no governo.

No entanto, embora a corrupção, a violência e a desigualdade venham castigando a região, nenhuma ideologia ou problemática explica a rejeição das políticas vigentes. O que ocorreu, segundo os analistas, foi que os eleitores buscaram simplesmente novas opções.

Alguns países, como o México, orientaram-se para a esquerda, outros, como Colômbia e Chile, para a direita. Frequentemente, a ação se dá na direção oposta à do partido governista, mas nem sempre, como na Costa Rica e no Equador.

As nações latino-americanas, onde houve um crescimento da classe média nos últimos 20 anos, estão exigindo mais de seus líderes.

“Acho que há uma tendência a considerar a América Latina em termos de uma cisão direita-esquerda”, disse Cynthia J. Arnson, diretora do programa latino-americano do Centro Internacional Woodrow Wilson para Acadêmicos. “Acredito que a divisão se dá mais claramente a respeito da boa governança”.

Uma sensação geral de frustração com os partidos governistas ficou evidente nas últimas eleições no Chile e na Colômbia, onde os eleitores preferiram candidatos mais conservadores para substituir os presidentes Michelle Bachelet e Juan Manuel Santos, respectivamente.

Rejeição semelhante da política situacionista faz com que as próximas eleições presidenciais no Brasil sejam as mais imprevisíveis e polarizadas da história recente. O presidente Michel Temer, que registra uma popularidade muito baixa, decidiu não concorrer. Ao mesmo tempo, os partidos que brigaram pela presidência nos anos passados não encontram líderes viáveis para disputar o pleito de outubro.

Com isso, o parlamentar Jair Bolsonaro, de extrema direita, tornou-se um candidato com possibilidade de competir. Ele subiu nas pesquisas de opinião prometendo agir para conter a corrupção e a violência.

Nas eleições presidenciais mexicanas de 1º de julho, Andrés Manuel López Obrador, um esquerdista regrado, se impôs na contramão da guinada política para a direita da América Latina, que vem acontecendo nos últimos quatro anos.

A derrota foi particularmente aguda para o Partido Revolucionário Institucional governista, que terminou em um distante terceiro lugar também nas disputas no Congresso.

López Obrador conseguiu capitalizar a revolta dos eleitores contra a corrupção e a desigualdade, atribuídas por alguns ao fracasso de políticas favoráveis ao mercado que não conseguiram elevar a renda da maioria dos cidadãos.

“Eles tentaram manter a esquerda fora do jogo por 30 anos a fim de aplicar um modelo tecnocrático, e não atenderam às reivindicações sociais”, afirmou Daniel Zovatto, diretor do Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral.

Os líderes esquerdistas da velha guarda da região ficaram eufóricos com os resultados das eleições. O presidente da Bolívia, Evo Morales, disse em um comunicado que tinha a certeza de que a “vitória decisiva (de Obrador) escreverá uma nova página na história de dignidade e soberania na América Latina”.

Contudo, considerar López Obrador um modelo da esquerda latino-americana nos moldes de Hugo Chávez talvez seja enganoso. Como prefeito da Cidade do México no início dos anos 2000, Obrador trabalhou intimamente com o setor privado e deixou o cargo com uma taxa de aprovação de 80%. E embora suas medidas estejam voltadas para o bem-estar social, ele prometeu respeitar a economia de mercado.

Segundo Marta Lagos, diretora da agência encarregada das pesquisas de opinião, Latinobarómetro, seria um erro considerar a vitória de Obrador um endosso das políticas de esquerda. Ao contrário, segundo ela, isso mostra claramente o quão escassa é hoje a fé dos latino-americanos na democracia, nos partidos e nas instituições tradicionais.

“Na América Latina, a democracia não chegou a se consolidar”, afirmou Marta Lagos. “Há sempre uma busca desesperada por alguém que prometa agir da maneira correta, e as pessoas elegem líderes que aparecem agitando uma varinha de condão”. / Elisabeth Malkin e Kirk Semple contribuíram para a reportagem.

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