Dalia Kamissy para The New York Times
Dalia Kamissy para The New York Times

Partidos do Líbano patrocinam casamentos para reforçar elo com jovens

Minorias religiosas e étnicas consideram matrimônio essencial para a sua sobrevivência a longo prazo

Ben Hubbard, The New York Times

21 de setembro de 2019 | 06h00

BKERKE, LÍBANO - Um trecho de música clássica se espalhou pelo ambiente quando a noiva pisou no tapete vermelho, tomou o braço do noivo de smoking e caminhou pelo corredor enquanto os parentes aplaudiam em volta. A noiva seguinte fez o mesmo. E a outra. E a outra. E a seguinte.

Assim que os casais - 34 naquele dia - tomaram os seus lugares, o patriarca da Igreja Maronita celebrou a missa e os declarou marido e mulher respectivamente. Era o quarto casamento coletivo do Líbano em três semanas, um fenômeno que vem crescendo no Oriente Médio. Recentemente, a Turquia patrocinou uma cerimônia para dois mil casais.

Em uma região em que o casamento continua sendo extremamente valorizado, mas as pressões econômicas e dispendiosas celebrações desestimularam muitos casais, entraram em cena poderosos benfeitores. A política, a e a complicada demografia do Líbano são os principais fatores.

Os partidos políticos patrocinam casamentos para os seus jovens integrantes a fim de reforçar a sua lealdade. Minorias religiosas e étnicas consideram o casamento e a procriação essenciais para a sua sobrevivência a longo prazo. Grupos armados estimulam os seus combatentes a se casar de maneira que seus filhos, por sua vez, possam tornar-se os combatentes do futuro.

“Eles cuidam de tudo, que Deus os abençoe”, disse Roni, Abu Zeid, 35, um soldado que se casou na cerimônia de casamento de massa maronita, realizada em Bkerke, uma cidade próxima do litoral mediterrâneo. O seu casamento foi patrocinado pela Liga Maronita, uma ONG associada à Igreja.

Segundo Fadi Gerges, representante da liga, é natural que as minorias encorajem a sua juventude a procriar em um país em que a demografia afeta o poder. “Quando um grupo étnico se sente ameaçado, ele procura a união”, afirmou. “Quando percebe que o outro lado cresce, pensa que seria o caso de colocar uma pedra para impedir um deslizamento”.

O casamento coletivo deste ano foi o 10º em 11 anos, elevando o número de casais unidos em matrimônio a 274. Até o momento, estas uniões resultaram em apenas três divórcios e mais de 100 crianças. Os casais precisam ser aceitos na cerimônia grupal da liga. Pelo menos um membro do casal deve ser maronita, e o noivo deve ter uma casa e um emprego. Os casais aceitos recebem o terno para o noivo, o vestido para a noiva, convites, flores, fotografia, tudo gratuito, US$ 2 mil em dinheiro e a bênção do patriarca - um dom enorme para o fiel.

Na mesma semana do casamento grupal em Bkerke, 19 casais se reuniram em um resort em Jiyeh, um balneário ao sul de Beirute, para outro casamento em massa organizado pelo grupo de voluntários Oásis da Esperança, ligado ao Movimento Amal, um partido político xiita. Fatima Qabalan, uma das organizadoras, disse que o movimento uniu oficialmente cerca de 300 casais em 12 cerimônias em massa ao longo dos anos. Também ajudou os casais a montar sua casa, deu mobília e eletrodomésticos.

Enquanto os garçons distribuíam travessas de carne grelhada, arroz e peixe, representantes do partido discursavam. Um deles enfatizou a importância de ter filhos para a “resistência”, ou a luta contra Israel. Um conjunto de músicos invadiram o local, tocando tambores, cantando e agitando bastões vermelhos. Então os casais avançaram no meio da multidão, os noivos de terno preto e gravata, e as noivas de vestido branco com véu. À sua passagem, os parentes tiravam fotos.

Ali Ala’ideen, um noivo de cabelo preto brilhante, contou que ele e a esposa não podiam pagar uma lua de mel, mas que agradecia por ter casado. “Não fosse um casamento em grupo”, afirmou, “nós não teríamos condições de fazer isto”. Depois do jantar, houve queima de fogos, dança, e então os casais partiram para começar sua vida juntos.

Um noivo, Abdullah Dbouk, 26, disse que se apaixonou pela esposa enquanto estava hospitalizado por causa de uma apendicite. Ela era uma das enfermeiras. O casal conversou pelo Facebook durante meses antes de noivar, mas não tinha o dinheiro para uma grande festa de casamento. 

Por isso, os dois pediram ao Movimento Amal se podiam participar do casamento em massa. “Foi o destino”, disse a esposa, Nour Awarkeh, 20. “Agradeço a Deus pela apendicite!”, falou o noivo. Hwaida Saad contribuiu para a reportagem./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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