Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Partidos 'vaga-lumes' mantêm fachada de eleição real no Camboja

Tecnicamente, o país não é um estado de partido único. Mas o partido do primeiro-ministro Hun Sen é o único em que a maioria dos eleitores já ouviu falar

Julia Wallace, The New York Times

18 Julho 2018 | 15h15

PHNOM PENH, CAMBOJA - Chegou a época das eleições no Camboja, e os vaga-lumes estão voando. Os cambojanos usam este termo - “ampil ampik”, na língua khmer - referindo-se aos partidos políticos pouco conhecidos que surgem repentinamente pouco antes de uma eleição, e depois voltam para a escuridão de onde saíram.

Vinte partidos, alguns com apenas alguns meses de vida, concorrerão no pleito deste mês. Mas a maioria dos eleitores só ouve falar de um: o Partido Popular do Camboja, liderado por Hun Sen, um primeiro-ministro autoritário.

Hun Sen não enfrenta nenhuma oposição desde novembro, quando o Partido para o Resgate Nacional do Camboja - que quase ganhou as eleições em 2013 - foi dissolvido por um tribunal cujos membros são leais ao primeiro-ministro. Numerosos grupos de defesa dos direitos humanos declararam que as eleições de 29 de julho não serão legítimas.

Em resposta, o governo aponta para obscuras entidades, como o Partido da Dharmacracia, o Partido da Vontade Khmer e o Partido da Nova Luz (cuja plataforma é promover “as maravilhas naturais, linguísticas e alfabéticas do Camboja”).

“Se existe apenas um partido político, não se poderá chamar (sistema) ‘multipartidário’, mas nós temos 20 partidos políticos”, afirmou Dim Sovannarom, um porta-voz do Comitê Nacional Eleitoral.

Hun Sen, que está no poder desde 1985, teme evidentemente que os cambojanos o vejam de maneira diferente. Em maio, ele advertiu  que os termos “vaga-lumes” e “espíritos sem corpo”, outra figura de linguagem às vezes aplicada aos partidos menores, estão proibidos.

“Vinte partidos concorrerão nas eleições”, afirmou em um discurso. “Isto não é brincadeira”; Alguns “vaga-lumes” são liderados por rostos conhecidos, como Nhek Bun Chhay do Partido Nacional Unido Khmer, um antigo chefe militar que passou nove meses na prisão, acusado em um caso de drogas, antes de ser abruptamente solto em maio.

Outros políticos de formação recente aparentemente surgiram do nada, como a mulher que afirma que um espírito mágico a instruiu a ingressar na política.

“A introdução de novos partidos, na maioria menores e insignificantes, destina-se especificamente a manter a fachada da disputa eleitoral”, afirmou Lee Morgenbesser, um professor da Griffith University da Austrália. Ele disse que a preservação das armadilhas da democracia eleitoral ajuda o Camboja a evitar sanções e a continuar recebendo ajuda externa.


Os líderes do Partido para o Resgate Nacional do Camboja, CNRP na sigla em inglês, foram presos ou exilados.

O governo declarou que instigar o povo a não votar será considerado ilegal.

Pothitey Sawathey, que recentemente regressou ao Camboja depois de liderar no exterior o Partido da Dharmacracia, disse que foi inspirada a ingressar na política depois de uma série de milagres realizados por um espírito que ela chamou de Preah In. Seu trabalho político envolve principalmente a distribuição de cápsulas de óleo de peixe e vitaminas nas áreas rurais.

Pothitey afirmou: “Ainda acredito que há um espírito em mim que me guia.”

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