Omer Messinger/EPA, via Shutterstock.
Omer Messinger/EPA, via Shutterstock.

Partidos verdes europeus trazem esperanças para o centro do continente

Mudança climática passou praticamente para o primeiro plano das preocupações dos eleitores da Europa

Katrin Bennhold, The New York Times

19 de julho de 2019 | 06h00

BERLIM - Quando os manifestantes com coletes amarelos foram para as barricadas na França, rebelando-se contra um imposto sobre a gasolina, que afetaria principalmente os que tinham menos condições de pagá-lo, Annalena Baerbock ficou observando do outro lado da fronteira.

Líder dos Verdes da Alemanha, Annalena viu o seu partido fortalecer-se no ano passado. Mas ela sabe que para que os Verdes possam tornar-se uma força mais significativa, terão de convencer os eleitores de que a política do clima não é uma causa elitista, mas comum, que se preocupa ao mesmo tempo com a solução dos seus problemas econômicos.

“A lição da França é que não podemos salvar o clima em detrimento da justiça social”, afirmou Annalena, que tem 38 anos, quase a mesma idade do seu partido. “As duas coisas precisam caminhar lado a lado”. Este é o momento dos "partidos verdes" na Europa, ou pelo menos deveria ser.

Eles agora superam em geral os conservadores da chanceler Angela Merkel nas pesquisas e deverão tornar-se parte do novo governo alemão. Nas últimas eleições europeias, os Verdes avançaram significativamente em outras partes do continente também, obtendo 63 das 751 cadeiras no Parlamento Europeu, ou um aumento de cerca de 47%. Um grupo de partidos de protesto outrora radicais, que lutavam apenas pelo problema isolado do meio ambiente, destacou-se como o único beneficiário de rompimentos sísmicos na política da Europa dos últimos anos.

A mudança climática passou praticamente para o primeiro plano das preocupações dos eleitores da Europa. O colapso dos partidos da social democracia tradicional abriu espaço no centro esquerda. Uma geração de eleitores mais jovens votou a favor de novas alianças, e outros, por um antídoto aos nacionalistas populistas da extrema direita.

Pelo menos, os Verdes estão de cada lado da linha divisória da recente guerra cultural que se trava na Europa. Como a imigração já não domina o noticiário, a mudança climática tornou-se um novo fronte na batalha entre os liberais preocupados com o ambiente, e os populistas.

Os Verdes fortalecidos enquanto nova esperança do centro político da Europa, tornaram-se os inimigos dos populistas da extrema direita e de outros que consideram as suas políticas como parte de um programa elitista que prejudica as pessoas comuns. (Marine Le Pen, a líder da União Nacional da França, se enfurece com a “psicose do clima”.) Na Alemanha, onde os Verdes cresceram para mais 20% nas últimas eleições ao Parlamento Europeu, os seus cartazes de campanha atacaram explicitamente a extrema direita: “O ódio não é alternativa para a Alemanha”.

Os Verdes da Grã-Bretanha ganharam impressionantes 12% dos votos, terminando em quarto lugar na frente dos conservadores que estão no governo, não apenas promovendo o meio ambiente - mas também opondo-se ao Brexit. Até na França, abalada durante meses pelos protestos dos Coletes Amarelos contra um aumento do imposto sobre a gasolina que acabou sendo cancelado, os Verdes receberam 13,5%.

Com o aumento do número dos seus legisladores no Parlamente Europeu, os Verdes terão aproximadamente a mesma influência na assembleia de 751 cadeiras dos populistas de extrema direita, liderados por Matteo Salvini da Itália. Mas nesta batalha as cidades acabaram contrapostas às áreas rurais, assim como os países mais ricos e mais liberais do norte e do oeste da Europa em relação aos seus congêneres mais pobres do sul e do leste.

Na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha, comumente conhecida como AfD, acusa o partido de Baerbock de ser elitista - e hipócrita. “As pessoas que votam nos Verdes podem se permitir isto”, afirmou Karsten Hilse, parlamentar da AfD. “Eles querem comprar a tranquilidade da própria consciência, porque são os que prejudicam mais o meio ambiente”.

Estas acusações funcionam perfeitamente entre os eleitores da extrema direita: durante muito tempo, os eleitores Verdes realmente pertenciam às classes mais ricas do país. Mas os Verdes conseguiram um apoio muito maior. Não só foram os preferidos entre todos os eleitores europeus abaixo dos 60 anos, como pela primeira vez isto aconteceu também entre os eleitores desempregados.

No entanto, permanece a acusação de pertencerem a uma classe privilegiada, segundo Annalena. Os protestos na França foram uma oportunidade crucial de aprendizado, ela disse. O imposto sobre o combustível, vendido em termos políticos como uma medida para salvar o clima, foi considerado injusto. “Em suma, é aí que está o nosso protesto”, disse. “Nós estudamos os Coletes Verdes com muita cautela para não cairmos na mesma armadilha”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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