'Passamos 48 dias juntos e então o exército nos separou por 49 dias'

'Passamos 48 dias juntos e então o exército nos separou por 49 dias'

Entre uma pandemia e o treinamento militar, um tanto pode acontecer para tornar um amor jovem em algo sem cobranças

Patricia Liu, The New York Times - Life/Style

02 de setembro de 2020 | 05h00

Meu namorado recentemente parou de falar comigo por sete semanas. Quarenta e nove dias consecutivos sem ligações, mensagens de texto ou conversas cara a cara. Na era dos stories do Instagram e da comunicação instantânea, é estranho estar completamente fora de contato com alguém que você ama.

Ainda mais estranho: antes daqueles 49 dias de silêncio, ele e eu tínhamos compartilhado 48 dias seguidos de conversa constante, tendo passado quase todos os momentos de vigília e sono a poucos metros um do outro em quarentena. No final disso, ainda ansiávamos pela companhia um do outro.

Portanto, não, não foi a claustrofobia ou os confrontos que nos separaram. Foi o serviço militar. Ele teve que frequentar a Escola de Candidatos a Oficiais da Marinha na Virgínia, enquanto eu tive que ficar em Oklahoma. 

Assim que ele chegou a Quantico, os instrutores de treinamento confiscaram seu telefone e jogaram seus pertences na chuva enquanto gritavam insultos e ordens, parando apenas para chutar para o lado sua bolsa cheia de nossos cartões de aniversario e fotos juntos. Ou pelo menos eu imaginava. Na verdade, eu não sabia porque ele não podia me dizer.

Meses antes, quando ainda éramos estudantes universitários em tempo integral, percebi o quão pouco eu sabia em relação a militares, muito menos sobre ser uma namorada de militar. Na noite do nosso quinto encontro, ele me disse que havia assinado um contrato mais cedo naquele dia com os fuzileiros navais para dedicar seus últimos dois verões antes da formatura para treinamento e os primeiros quatro anos após a formatura para servir como oficial.

Meu primeiro pensamento: “Ainda estaremos lutando em guerras daqui a quatro anos?” O segundo: “Ele e eu ainda estaremos juntos?”

À medida que nosso relacionamento se aprofundou, comecei a compreender o jargão militar e seu estilo de vida. Fiz exercícios de barra enquanto o via correr com botas. Eu li poesia enquanto ele estudava os valores fundamentais dos fuzileiros navais. Escutei, horrorizada, enquanto ele descrevia o Quigley, um teste de resiliência que exigia que os candidatos nadassem submersos e atirassem, passando por canos e arame farpado, além de lidar com cobras e lama ao longo do caminho.

Eu também tive pesadelos em que ele iria para a batalha e uma bandeira do país voltaria de lá. Ele nem tinha começado o treinamento ainda. Éramos estudantes universitários, protegidos e privilegiados de muitas maneiras. Ainda assim, eu acordava chorando. Eu não conseguia nem imaginar perdê-lo por sete semanas para a escola de candidatos a oficiais - um pouco exagerado, eu admito, quando as pessoas em todo o país já estão lidando com longas separações, remanejamentos ou coisas piores.

Hesitamos em dizer aos amigos o quanto estávamos envolvidos para que eles não nos desmotivassem a seguir em frente. Considerando o que veio a seguir, eles poderiam estar certos. 

Depois de apenas três meses de namoro, fomos morar juntos, embora não pelos motivos que os casais jovens costumam fazer isso. À medida que a pandemia se espalhava pelos Estados Unidos, os alunos foram orientados a deixar o campus e não voltar. Ele e eu decidimos ficar juntos em quarentena na casa onde passei minha infância em Oklahoma - com a aprovação de nossas famílias - e eu estava secretamente feliz pela pandemia ter permitido que isso acontecesse.

Para as semanas de separação que se aproximavam, preparamos um plano. Não poderíamos nos visitar, pois o novo coronavírus havia tornado isso impossível. Qualquer comunicação eletrônica seria interrompida, pois ele não ficaria com seu telefone ou laptop. O que nos restava eram os correios. Resolvi escrever-lhe cartas, uma para cada dia em que ficaríamos separados, 49 no total.

No dia da partida do seu voo, fomos para o aeroporto antes mesmo de o sol nascer, todas as lojas estavam fechadas e as estradas vazias. No terminal, nós nos beijamos, puxando nossas máscaras por um momento. Em seguida, ele passou pelas filas de segurança, parando por um instante após o scanner corporal para um último aceno. Antes mesmo do amanhecer, ele se foi.

Naquela noite, escrevi minha primeira carta para ele. Fazia anos que eu não escrevia o tipo de carta que você lacra em um envelope e envia com um selo. Mas há uma coisa que eu sei agora: se você quiser se apaixonar por alguém de novo, tente escrever cartas para ele sobre como você se apaixonou em primeiro lugar.

Escrevi a respeito do nosso primeiro beijo no outono em New England, em meio às abundantes pilhas de folhas que vasculhamos, escolhendo nossas favoritas e dando um ao outro a mais colorida. Escrevi sobre a vez em que ele escalou uma parede de mais de dois metros para nos colocar para dentro do observatório de nossa escola durante a primeira nevasca da temporada.

Escrevi acerca da vez em que vimos minha colega de quarto em uma peça de teatro, como andamos e conversamos por horas após o cair das cortinas. No decorrer da conversa, de alguma forma confundi um trombone com um triângulo e descobri que, embora ele brincasse sobre a maioria das coisas, ele estava falando sério quanto a se juntar aos fuzileiros navais.

Durante a terceira semana de nossa separação, que incluiu o dia em que completamos seis meses de relacionamento, um vaso de delfínios - minha flor favorita - apareceu na minha porta. Chegou com uma carta de amor pré-escrita dele. Mesmo sabendo que outra pessoa fez a entrega, as flores pareciam uma presença física dele no meu quarto.

Poucos dias depois, uma caixa de livros chegou - incluindo The Road to Character de David Brooks, A Geração Superficial: o Que a Internet Está Fazendo Com Os Nossos Cérebros de Nicholas Carr e Na natureza selvagem de Jon Krakauer, entre outros. Um bilhete que acompanha a caixa explicava que esses livros o moldaram na pessoa que ele é hoje e eu deveria lê-los se quisesse me sentir mais perto dele. Sua família os havia enviado a seu pedido, o que ele fez antes de partir. 

No mesmo dia em que chegou o pacote, apareceu um e-mail dele, também pré-agendado, com explicações de porque cada livro tinha significado para ele: “Leia isto se quer ler sobre alguém que, de uma forma estranha, encontrou tudo que estava procurando na vida. Eu penso nisso de forma um pouco diferente agora, depois de ter conhecido você. "

Peguei um e comecei a ler. Depois de cinco páginas, um pedaço de papel caiu. “Patty, eu te amo”, dizia. À medida que lia cada livro, encontrava bilhetes de amor escondidos por toda parte, cada virada de página trazendo a possibilidade de carinho e surpresa.

Mais e-mails pré-agendados dele chegariam uma vez por semana, todas as quartas-feiras. Embora eu apreciasse e relesse suas palavras, a solidão e a insegurança surgiram. Cinco semanas se passaram sem qualquer comunicação em tempo real. Ao abrir meu coração todas as noites, tornei-me cada vez mais consciente de que suas palavras haviam sido programadas com antecedência. Seus sentimentos haviam mudado? Ele havia mudado? Eu não fazia ideia.

Tudo o que eu podia fazer era continuar escrevendo cartas todas as noites, e eu fiz isso. Aprofundei-me na história de nosso relacionamento, desde os primeiros dias até nossa quarentena, de nosso amor jovem e nervoso às brigas que parecíamos começar e resolver no espaço de um domingo. Quando não consegui pensar em uma lembrança, comecei a escrever acerca do futuro: o cachorrinho que adotaríamos, os filhos que teríamos, os quatro anos que provavelmente passaríamos separados e o promissor longo período posterior em que estaríamos juntos.

Fiquei preocupada em ficar sem o que dizer. Éramos jovens e apaixonados, mas e se isso não bastasse? Nós estávamos namorando há apenas seis meses.

Enquanto minha maior luta era superar minha preocupação, ele fazia flexões até desmaiar, vomitar ou quebrar alguma coisa. Ele estava dando o primeiro passo na longa jornada de compreensão de como ser responsável pelas vidas de outros militares - e, se necessário, como contar a um ente querido sobre a morte de um colega soldado. Ele estava aprendendo a entender a gravidade do que significaria fazer aquele sacrifício sozinho.

Ainda assim, eu não conseguia impedir minha mente de às vezes traduzir seu silêncio em raiva, ou pior, apatia. Apesar de seus bilhetes de amor, e-mails e surpresas, eu queria perguntar: "Você ainda me ama?". Continuei a escrever. Na carta 35, eu sabia que poderia aguentar até a 49.

Duas semanas depois, quando ele finalmente se formou e pode então me ligar pela primeira vez - uma conversa de horas em que ele contou tudo o que havia passado - eu descobriria que ele não tinha recebido a maioria das minhas cartas. Mas eu não me importei. Para mim, era mais sobre a disciplina da escrita, apesar das minhas dúvidas.

Essas sete semanas de separação se tornaram um exercício de colocar tudo em risco. Escrevi 49 cartas, extravasando meu afetoinseguranças esperanças, nunca esperando uma única resposta. O amor, para mim, tornou-se um exercício de fazer isso de qualquer maneira. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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