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Nick Athanas/The New York Times
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Estudo sugere que alguns pássaros voam sob cores falsas para atrair fêmeas

Microestruturas elaboradas das penas permitem que os machos intensifiquem suas cores fazendo com que pareçam ser melhores parceiros do que outros

Emily Anthes, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 05h00

Os machos da família Thraupidae, como o da espécie Pipira-de-máscara, foram feitos para serem notados. Muitas espécies desses pequenos pássaros têm penas pretas com alguns salpicos de cores chamativas – como amarelo eletrizante, laranja da cor dos cones de trânsito e um escarlate quase neon.

Para isso, eles gastam tempo e energia em busca de plantas metabolizantes que contêm pigmentos de cores que entram nas penas. Um macho vibrantemente colorido assim envia um “sinal honesto”, sobre o qual muitos cientistas especulam: de que ele está alertando as fêmeas por perto que tem uma boa dieta, boa saúde e vale a pena acasalar com ele.

Mas, segundo um recente estudo, alguns pássaros podem ser acusados de propaganda falsa. Os machos têm microestruturas nas suas penas que intensificam suas cores, de acordo com artigo publicado pelos pesquisadores na revista Scientific Reports. Essas microestruturas, como filtros do Instagram, fazem os machos aparentarem ser mais atrativos do que realmente são.

“Muitos pássaros machos são coloridos não porque o são de verdade, mas porque procuram ser os escolhidos”, disse Dakota MCoy, estudante de doutorado da Harvard University que realizou a pesquisa.

O estudo é uma importante contribuição para um debate persistente sobre como e porque as penas de cores brilhantes evoluíram nos pássaros, disse Geoffrrey Hill, ornitólogo e ecologista evolucionista na Alburn University.

“Cientistas passaram os últimos 150 anos, desde Darwin e Wallace, procurando compreender esses ornamentos nos animais e especialmente as cores dos pássaros”, disse ele. “E este enfoque original vai nos ajudar”.

Espécies como o Pipira-de-máscara e o Pipira-vermelha, como muitos outros pássaros, em parte devem as suas tonalidades vermelha, amarela e laranja a um grupo de pigmentos chamados carotenoides, que não são produzidos automaticamente e precisam ser buscados na floresta.

A metabolização dos pigmentos demanda processos fisiológicos que um pássaro não consegue falsear. Para usar os pigmentos, os pássaros “precisam ser saudáveis no nível celular”, disse Hill.

Os pesquisadores descobriram, por exemplo, que muitos pássaros com cores vívidas e níveis mais altos de carotenoide, têm uma função metabólica melhor do que seus camaradas mais apagados. Como resultado, as penas coloridas pelo carotenoide com frequência são consideradas um sinal honesto – ou seja, elas comunicam verdadeiramente a boa condição fisiológica de um pássaro.

“Por esta teoria, um pássaro com penas vermelhas brilhantes está basicamente gritando, ‘veja como sou saudável. Meu sistema imunológico está funcionando’ ou ‘meu metabolismo é bom’, ou ‘sou tão saudável que posso investir pigmentos nas minhas penas’”, disse McCoy. “O estudo é nossa tentativa de dizer, bem, isso é verdade? Ou os machos encontraram uma maneira astuta de enganar um pouquinho no jogo da vida?”.

Para a pesquisa, McCoy e seus colegas estudaram 20 espécimes da família Thraupidae da coleção de ornitologia do Harvard Museum of Comparative Zoology.

As fêmeas, em geral, são muito mais apagadas do que os machos, uma observação que os pesquisadores confirmaram com um espectrofotômetro, que mede quanto de luz é refletido na superfície. Os machos, descobriram, têm cores pretas mais fortes e cores mais saturadas do que as fêmeas.

E ficaram surpresos, então, quando extraíram parte dos pigmentos de carotenóide de cada espécime. Apesar das suas óbvias diferenças em aparências, machos e fêmeas tinham volumes e tipos de pigmentos de carotenoide aparentemente similares.

“Fiquei chocada”, disse McCoy.

Mas a diferença chave surgiu quando colocaram as penas sob um microscópio potente. As penas das fêmeas eram relativamente simples, com filamentos cilíndricos, conhecidos como barbas, surgindo da haste central das penas. Filamentos menores e mais finos, conhecidos como bárbulas, se projetavam de cada uma das barbas.

As penas dos pássaros machos, porém, tinham microestruturas muito mais elaboradas, com barbas e bárbulas anormalmente planas, amplas ou elípticas ou se projetando em ângulos curiosos.

Os pesquisadores então usaram software de modelagem óptica para simular como a luz interagia com essas estruturas incomuns. As microestruturas tinham efeitos ópticos significativos, eles descobriram.

As barbas mais amplas e mais ovulares comuns em machos, por exemplo, ajudavam a focar a luz que atinge a pena. “Agem como uma lente e significa que mais luz está interagindo com o pigmento dentro da pena”, disse McCoy. Juntas, as várias microestruturas faziam o preto parecer mais escuro e as cores mais ricas e mais saturadas.

“É um trabalho fascinante sobre essa área da plumagem tão pouco estudada”, afirmou Richard Prum, ornitólogo e biólogo na Yale University. “Muito poucas pessoas vêm se aprofundando e analisando o assunto nesta escala, o que é algo realmente fascinante”.

Embora os dados ainda sejam escassos, algumas pesquisas sugerem que as características microestruturais das penas não estão ligadas à condição presente de um pássaro individual.

“O que faz funcionar a lógica da 'propaganda honesta' é que ela não é apenas uma característica em si, mas que a aparência ou suas qualidades perceptíveis estão relacionadas com alguma outra medida de qualidade e condição de saúde”, disse Prum. Mas não existe nenhuma razão clara para “as bárbulas neste ou naquele ângulo” serem ligadas à qualidade de um pássaro individual”, disse ele.

O que significa que as microestruturas podem ter evoluído como uma “maneira barata” para os machos melhorarem sua aparência, disse McCoy. “Mas como todas as coisas na ciência, necessitamos de mais pesquisas cuidadosas para estarmos seguros de que é verdade”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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