Eric Feferberg/Agence França-Presse
Eric Feferberg/Agence França-Presse

Patrimônios abandonados estão espalhados por toda a França 

Mais de 80 catedrais dividem orçamento entre U$$ 20 e U$$ 30 milhões. Cerca de 4% dos edifícios pertencem ao governo, como é o caso de Notre-Dame

Adam Nossiter, The New York Times

26 de abril de 2019 | 06h00

PARIS - A catedral de Notre-Dame sofreu abandonada por anos e teve dificuldade para conseguir os milhões necessários para a sua reforma antes de ser destruída pelo fogo. Mas a França está repleta de dezenas de milhares de monumentos históricos em situação de risco. A lista de desastres e quase desastres envolvendo incêndios nos monumentos históricos do país, nos 25 anos mais recentes, é longa e inclui o incêndio do parlamento da Bretanha, edifício do século 17, em 1994.

“Cuidamos do nosso patrimônio com o mínimo", avaliou o historiador da arte Alexandre Gady, da Sorbonne. “Simplesmente não há dinheiro suficiente”. Essencialmente, o governo francês desistiu de esperar o melhor. O país gasta cerca de US$ 360 milhões ao ano com esses monumentos, conhecidos coletivamente na França como patrimoine (patrimônio).

Algo entre US$ 20 milhões e US$ 30 milhões do orçamento dos monumentos é dividido entre as 86 catedrais, rendendo meros US$ 260.000 a US$ 400.000 para cada. Cerca de metade do dinheiro é destinado a governos locais, para ser gasta em edifícios sob sua administração, que representam cerca da metade do total. A maioria dos edifícios restantes está sob controle de proprietários, que recebem uma isenção fiscal considerável em troca das obras de restauração. Apenas cerca de 4% dos edifícios pertencem ao governo, como é o caso de Notre-Dame.

Quem visita a França tem a oportunidade de conhecer igrejas em vilarejos com incríveis afrescos do século 14, atualmente inacessíveis porque não há dinheiro para a contratação de um segurança. Ou a igreja que é abandonada com as portas abertas, deserta, expondo seus tesouros de valor incalculável.

A situação do financiamento da manutenção dos monumentos é tão desesperada que, no ano passado, o governo do presidente Emmanuel Macron lançou uma loteria para captar recursos, sob apoio de uma celebridade da TV, Stephane Bern, cujo programa de história fez muito para conscientizar o público da importância dos monumentos que formam o patrimônio do país.

Bern captou quase US$ 50 milhões no ano passado para a proteção de dúzias de sítios considerados em situação de alto risco. “Faz anos que estou lutando para dizer que temos de proteger esse patrimônio", disse Bern. “Tudo depende dos seres humanos, e sua situação é muito frágil”.

Não há na França uma tradição de doações particulares, mas isso pode estar em transformação. Em menos de uma semana, quase US$ 1 bilhão foi captado para Notre-Dame, de acordo com Guillaume Poitrinal, da Fondation du Patrimoine, fundação de caridade que coordena doações para edifícios históricos da França. Antes do incêndio de 15 de abril, o orçamento disponível para a reforma de Notre-Dame era de apenas US$ 170 milhões.

Com recursos limitados e pouca ajuda do ministério da cultura, que supervisiona Notre-Dame e as demais catedrais, a situação de falta de dinheiro para a manutenção do patrimônio da França era bem conhecida. Um relatório apresentado ao parlamento da França no segundo semestre do ano passado indicou que “os recursos destinados a edifícios históricos não permitem que cuidemos da sua manutenção nem da sua promoção". 

A situação não é fruto da indiferença dos franceses. “Estamos em um país onde as pessoas são extremamente ligadas ao seu patrimônio", relacionou Alain de la Bretesche, presidente da Fédération Patrimoine Environnement. 

Confrontado com demandas concorrentes pelos seus recursos, o governo teve outras prioridades nos 50 anos mais recentes . Sob o governo de Charles de Gaulle, por exemplo, cerca de um terço do orçamento do ministério da cultura era dedicado aos monumentos históricos do país, fatia atualmente reduzida para 11%.

Não está claro se o estado vai mudar isso - ou se isso é sequer possível. Antes do incêndio, Macron “fez um grande discurso a respeito do patrimoine, mas não houve muita mudança no orçamento", disse de la Bretesche. Para ele, o incêndio servirá como um terrível catalisador de conscientização. “Na França, temos a tendência de despertar diante de acontecimentos desse tipo, em vez de cuidar continuamente da manutenção dos edifícios".

Outros concordam. “As pessoas ficaram completamente devastadas quando viram o que tinha ocorrido", afirmou Poitrinal, da Fondation du Patrimoine. “Elas disseram: ‘Temos de fazer alguma coisa’. Assim, em questão de poucas horas, vimos o surgimento de dúzias de plataformas de doações na internet”. E continuou: “Ficamos realmente muito impressionados. As pessoas estão se dando conta da fragilidade do patrimoine". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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