Andre D. Wagner para The New York Times
Andre D. Wagner para The New York Times

Estrela do rock, Patti Smith lança seu terceiro livro

Year of the Monkey (O Ano do Macaco, em tradução livre) é uma viagem grotesca pelos seus sonhos e por sua vida ao completar 70 anos

Maureen Dowd, The New York Times

17 de outubro de 2019 | 06h00

PARIS - Quanto mais Patti Smith critica asperamente, seus fãs franceses a amam. À multidão que assistia ao seu show, ela disse que deveria demonstrar um apreço maior por seu combatido presidente porque, pelo menos, ele se preocupa com o meio ambiente. Houve algumas vaias ao nome de Macron, mas Patti não concorda com isto. “Vocês deveriam ter Trump como presidente”, afirmou aos seus fãs parisienses. “Aí saberiam o que é acordar todos os dias com um presidente que não ...” e aqui ela falou uns palavrões.

Patti está emocionada pelo fato de estar na terra dos seus heróis literários, Genet, Baudelaire e Rimbaud. Aos 16 anos, quando trabalhava em uma fábrica onde não havia sindicatos trabalhistas inspecionando guidões de triciclo, experiência que imortalizou na sua música protopunk Piss Factory, furtou um livro sobre Rimbaud, que elegeu seu namorado imaginário porque achava que não era suficientemente atraente para conseguir um de verdade. (Seu pai a alertara a seguir uma carreira porque não arranjaria um marido.)

Jimmy Iovine, que produziu o seu maior sucesso, em 1977, Because the Night, uma colaboração com Bruce Springsteen, diz que aos 72 anos ela tem ainda muita lenha para queimar. “Patti é uma mulher mágica, absolutamente mágica”, afirma. “O que falta hoje na música é tudo o que ela trouxe como voz para o mundo desde que explodiu nos palcos quando jovem contemporânea de Dylan”.

“A verdadeira mulher da Renascença”, como a define Iovine, também publicou um livro, Year of the Monkey (O Ano do Macaco, em tradução livre), uma viagem picaresca pelos seus sonhos e por sua vida ao completar 70 anos, que fala em flashes de “vertigem de arrependimento” enquanto lembra de todos os seus amores e contemporâneos do rock que já se foram. Ela acredita que quando as pessoas que nos são próximas morrem, nós absorvemos o que mais admiramos nelas. “É como se elas deixassem um pequeno presente”, afirma.

Quanto a envelhecer, escreve: “Setenta. Não passa de um simples número, que indica que já passou uma porcentagem significativa da areia prevista para cada um de nós em um timer desses para cozinhar um ovo, só que a porcaria do ovo é você. Os grãos caem e eu sinto cada vez mais a falta dos mortos”.

Patti Smith escreve que vê sua imagem refletida na superfície da torradeira. “Eu parecia jovem e velha ao mesmo tempo”, No seu livro, ela mescla ficção e realidade, evoca personagens falsos e reais. Escreve de maneira pungente sobre a sua “sensação de que todos se foram”, e conta de suas viagens para encontrar com sua antiga paixão, Sam Shepard, quando ele travava uma batalha mortal contra a doença de Lou Gehrig (esclerose lateral amiotrófica). Ela dormia no sofá e o ajudou a editar os seus dois últimos livros.

Perguntei por que se separaram. “Bom, ele era casado e tinha um filho, foi triste, mas foi a coisa certa a fazer”. Ficou surpresa quando Shepard se tornou um grande ator em Hollywood? “Não”, responde, “Ela tinha um grande magnetismo”. Observei que Robert Mapplethorpe tinha carisma, também. “Bom, Robert era totalmente diferente. Era muito tímido. Eu o conheci quando ele tinha 20 anos e nós dois éramos dois seres invisíveis”.

Seus livros de memórias anteriores foram Just Kids, suas luminosas recordações do seu romance com Mapplethorpe em Nova York, nos anos 60, e “M Train”, sobre o período depois de voltar a Nova York. Saíra de Detroit quando estava tendo um colapso nervoso, chocando o mundo musical e ofendendo algumas feministas. 

Mudou-se para uma cidade ao norte de Detroit para casar com o músico Fred Smith, conhecido como Sonic, e passou 16 anos ali, criando seus dois filhos, escrevendo romances nunca publicados. Fizeram um álbum juntos, Dream of Life. O casal vivia de maneira simples. “Era 1979 e o que eu via no meu futuro era uma série de excursões, shows, entrevistas, vídeos, carros de luxo”, lembra. “Não estava fazendo arte. Não estava escrevendo”.

Pergunto sobre as críticas feministas a respeito de sua semiaposentadoria. “Pois é, elas conseguiram realmente me aborrecer, como se eu tivesse quebrado algum elo”, afirma. “Deixei a minha carreira, por assim dizer, fama e fortuna. Mas o que fiz com isto, foi me salvar como trabalhadora, como escritora e como ser humano que estava evoluindo”. Falamos um pouco mais dos homens que ela amou, todos se foram, e ela de repente sorria, radiante, e disse: “Tive alguns namorados legais”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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