Emon Hassan para The New York Times
Emon Hassan para The New York Times

Peças teatrais apostam em histórias sobre viciados em recuperação

“A estrutura convencional das histórias ocidentais - começo, meio, fim - não é muito adequada para as pessoas viciadas porque a recuperação não tem um ponto final concreto”, diz autor de peça sobre o tema

Jesse McKinley, The New York Times

03 de novembro de 2019 | 06h00

Não se pode agitar uma garrafa vazia em um teatro americano sem esbarrar em uma história clássica sobre os perigos da bebida e de outros maus hábitos. Temos Mary Tyrone esfregando o chão no meio do nevoeiro da morfina em Longa jornada noite adentro; George e Martha brigando por causa do filho e da bebida em Quem tem medo de Virginia Wolf; e os moradores de Skid Row em The Iceman Cometh, sempre prometendo parar de beber - sim, mas não hoje.

Mas com as overdoses chegando a níveis preocupantes, e como a recuperação deixou de ser um segredo comentado à boca pequena, surgiu uma nova onda de peças teatrais que tratam da realidade da reabilitação e dos desafios da sobriedade, frequentemente  escritas por dramaturgos que já enfrentaram pessoalmente estes problemas. Sua missão, afirmam os escritores, é em parte acabar com o estigma destas lutas íntimas.

“Adoro os bêbados: eu mesma sou uma, certo?” disse a autora Catya McMullen, 32, que está sóbria há 16 anos. “Ocorre que eles são pessoas que sentem as coisas profundamente”. Catya escreveu Georgia Mertching Is Dead, sobre três mulheres, protagonistas de pouco mais de 30 anos, que se tornam amigas tentando largar o vício ainda adolescentes, história que reflete a própria vida da autora.

Na peça autobiográfica de Sean Daniels, The White Chip, o problema do dramaturgo é o álcool, que lhe custou um importante emprego no teatro em 2011, depois de aparecer bêbado em vários eventos. “Eu só tentava processar o que estava acontecendo comigo, como um exercício para sair dessa coisa”, disse Daniels, 46, que está sóbrio há oito anos.

Entretanto, o tema da recuperação comporta alguns desafios dramáticos. “A estrutura convencional das histórias ocidentais - começo, meio, fim - não é muito adequada para as histórias de gente viciada porque a recuperação, em particular, não tem um ponto final concreto”, disse Duncan Macmillan, autor da peça People, Places & Things de 2015, sobre uma jovem atriz que tenta abandonar uma série de vícios.

“É algo com que você convive todos os dias, todas as horas, pelo resto da sua vida”. McMillan, que não quis revelar se ele mesmo estava em recuperação, acrescentou que “os viciados e as pessoas em recuperação não têm sido tratados adequadamente na televisão, no cinema e no teatro”.

Ele contou que o elenco discutiu a peça em centros de recuperação e a apresentou a viciados e terapeutas durante a sua criação e produção em Londres. A pergunta não formulada que paira sobre muitas destas obras é: será que os viciados conseguem vencer os seus vícios? Na maioria das peças sobre recuperação, eles conseguem, mas a ameaça de uma recaída faz parte de I Was Most Alive With You, de Craig Lucas, sobre um pai e um filho em recuperação.

Lucas, 68, está sóbrio há 15 anos, e afirmou que o bêbado ou o viciado em drogas desastroso podem ser personagens fascinantes. Mas acrescentou que a vida depois de sóbrio, e o teatro, têm muito a oferecer também. Os personagens de I Was Most Alive, afirmou, lidam com a impotência e precisam “aprender a viver com o que a vida oferece”. “Qualquer que seja a pedra no caminho”, disse, “você terá de abraçá-la”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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