'Esqueça o pedido chique. Vamos só casar e pronto'

'Esqueça o pedido chique. Vamos só casar e pronto'

Um pedido de casamento todo planejado muitas vezes é considerado um passo essencial para a união do casal. Mas muitos que já moram juntos e racham as contas acham que é desnecessário

Suzannah Weiss, The New York Times - Life/Style

04 de janeiro de 2021 | 05h00

Hana LaRock, escritora freelancer de 29 anos que mora em Jersey City, Nova Jersey, e seu marido sabiam desde os primeiros anos de seu relacionamento que eles acabariam se casando. Eles estavam morando juntos, compartilhando as contas bancárias e planejando seu futuro em comum. Mas, como ele se sentia pressionado a encenar o pedido de casamento perfeito, as coisas eram sempre adiadas. No seu aniversário de seis anos de relação, ela disse a ele: “Vamos resolver isso de uma vez por todas”, e eles ficaram noivos. Não foi necessário nenhum pedido.

O pedido muitas vezes é considerado um passo essencial para o casamento, já que existe desde a Roma Antiga. Mas muitos casais hoje acham que é obsoleto ou supérfluo. Alguns dispensam o anel de noivado também. “Comecei a achar que todo aquele negócio de anel era bobo e superficial”, disse Margaret MacQuarrie, profissional de marketing e comunicação de 57 anos que mora em Nova Scotia, Canadá. Ela decidiu se casar depois de uma conversa com o marido, George Bauer, profissional de marketing aposentado.

Ela também acha que é sexista e antiquada a noção de usar anel para significar que ela “tem dono”. Os pedidos de casamento heterossexuais tradicionais, em que os homens perguntam e as mulheres respondem, muitas vezes parecem pouco igualitários, disse Ellen Lamont, professora associada de sociologia da Universidade Estadual Appalachian.

Entre 2010 e 2015, ela entrevistou 105 pessoas com idades entre 25 e 40 anos na área da baía de São Francisco sobre seus relacionamentos para seu mais livro recente The Mating Game: How Gender Still Shapes How We Date [algo como “O jogo do acasalamento: como o gênero ainda configura a maneira como namoramos”, em tradução livre].

A pesquisa de Lamont revelou que muitas pessoas decidiram se casar durante conversas com seus parceiros e parceiras, e não por causa de pedidos. As pessoas LGBTQ, em particular, expressaram uma visão dos pedidos como algo excessivamente relacionado ao gênero e preferiram transformar o casamento numa decisão conjunta.

“As pessoas diziam: ‘Não quero reproduzir as normas heterossexuais no meu relacionamento – essas normas são inventadas, têm gênero e não são coisas que eu quero’”, disse ela. Foi assim que Alex Adams, crítico literário de 38 anos que mora em Jarrow, na Inglaterra, se sentiu quando decidiu se casar com sua parceira, Hannah Burman, psicóloga clínica. “Era importante enfatizar nossa diversidade, para que não fosse engolida pela grande instituição heterossexual”, disse ele.

“E, além disso, simplesmente não estamos interessados nas armadilhas e rituais do romance hétero. Além de parecer meio cafona para nós, todas as implicações de poder desse tipo de relação são nojentas”. Andy Bandyopadhyay, 31 anos, executivo de uma consultoria de serviços financeiros sem fins lucrativos em Nova York, que se identifica como homem transgênero bissexual e é casado com um homem, também rejeitou o pedido e outras tradições do casamento.

“Não me via naquela narrativa da ‘noiva de vestido branco e caminhando até o altar da igreja para me casar’”, disse ele. Outros casais consideram os pedidos excessivamente performáticos, o que pode ser especialmente verdadeiro no caso daqueles pedidos extravagantes nas redes sociais.

Samantha Bellinger, planejadora de casamentos de North Hero, Vermont, diz que viu menos pedidos desde o começo da pandemia de coronavírus, e os que ela observou nas redes sociais estão menores e mais íntimos. Às vezes, é por razões puramente logísticas que o casamento surge na conversa, antes mesmo de alguém ter a chance de fazer o pedido.

Amanda Kedaigle, cientista de 30 anos que mora em Boston que trabalha no Broad Institute do MIT e Harvard, começou a conversar sobre casamento com seu agora marido, Eric Kedaigle, engenheiro de computação, quando soube que precisava de uma cirurgia dentária cara, que seria melhor coberta pelo plano de saúde dele. “Fizemos as contas e percebemos que, legitimamente, preferiríamos gastar dinheiro num casamento do que numa cirurgia que ficaria milhares de dólares mais barata depois que nos casássemos”, disse ela.

Da mesma forma, Jedrzej Kostecki, desenvolvedor web de 42 anos que mora em Varsóvia, Polônia, e sua esposa, Katarzyna Kostecka, gerente de projeto numa agência de tradução, decidiram se casar quando ela estava grávida de sua filha, para que pudessem criá-la como casal.

Casamentos sem pedidos também são comuns em casais mais velhos ou que já haviam se casado, pessoas que estão mais interessadas em planos realistas do que em gestos românticos. Para essas pessoas, disse Marissa Nelson, terapeuta de casais em Washington, D.C., “tem menos a ver com o pedido e mais com o compromisso e a certeza de que alguém quer passar a vida com você”.

Para Cassandra Phoenix, 50 anos, representante de atendimento ao cliente de um provedor de cuidados de saúde em Madison, Wisconsin, a decisão de se casar pela segunda vez foi uma conversa contínua, já que ela e o marido tinham opiniões ambivalentes a respeito. No começo, ele relutou, pois estava cansado do primeiro casamento, o que ela entendia. Mas depois ele mudou de ideia, e ela concordou.

Mesmo quando acontece um pedido, ambas as partes geralmente desempenham um papel no planejamento. Karen Hopper Usher, jornalista de 36 anos de Cadillac, Michigan, começou a conversar com seu parceiro sobre casamento desde cedo, porque o tempo estava passando e ela queria ter filhos, e a ideia de esperar que ele a pedisse em casamento era muito desesperadora. Então, juntos, eles encomendaram um anel, escolheram uma data e começaram a planejar o casamento, antes que ele fizesse o pedido formal. Histórias como a de Hopper Usher parecem ser mais a norma do que a exceção.

Numa pesquisa de 2017 do site de casamento The Knot, apenas 35% das noivas disseram que seus pedidos haviam sido surpresas. E Lamont disse que as 22 propostas que ela analisou para seu livro eram mais para mostrar para os outros. A maioria das pessoas casadas com quem ela conversou haviam discutido o casamento com seus parceiros antes do noivado, às vezes até estabelecendo cronogramas e escolhendo anéis.

Apenas 3 das 19 mulheres casadas ou noivas esperaram que seus parceiros fizessem o pedido sem uma conversa anterior, disse ela. Muitos botaram pressão sobre seus parceiros, com 8 delas dando ultimatos. Apesar da tradição de os homens proporem os noivados, Nelson também descobriu que nos relacionamentos heterossexuais muitas vezes são as mulheres que falam primeiro em casamento, e depois seus parceiros planejam os pedidos.

Bellinger concordou com esse cenário. “A tendência geral é que o casal decida que quer se casar e só aí um dos parceiros elabora um plano de pedido romântico”, disse ela. “O pedido raramente é uma surpresa – a data e o momento podem ser uma surpresa, mas em geral é algo esperado”.

Nelson acredita que as conversas conjuntas sobre casamento são importantes e ela as incentiva a começá-las desde cedo, para garantir que os objetivos de ambos os parceiros para o relacionamento sejam compatíveis. Ela sugere que os casais discutam como encaram seu casamento em termos de criação dos filhos, finanças e divisão das tarefas domésticas.

“Você tem que conversar sobre isso. Não é só uma questão de ‘você quer se casar comigo? Eu quero me casar também’. A questão é: ‘qual é o nosso ponto de ruptura? Quais são as coisas que absolutamente não aceitaríamos?’”, disse ela. Se os casais optam por não fazer um pedido de casamento, Nelson os incentiva a encontrar sua própria maneira de celebrar sua escolha de se casar.

“Não precisa ser um pedido, pode ser algo simbólico, para afirmar seu compromisso com a próxima etapa e celebrar o amor que eles têm um pelo outro”, disse ela. “O que quer que seja bom para o casal, para que cada um se sinta valorizado, amado e querido”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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