Tracy Nguyen para The New York Times
Tracy Nguyen para The New York Times

Pele nua substitui tela na arte de Donna Huanca

Para seu primeiro grande show nos Estados Unidos, Huanca atualiza a tradição da arte corporal

Jori Finkel, The New York Times

18 de agosto de 2019 | 06h00

LOS ANGELES - Pela primeira vez na sua história, a galeria no térreo da Marciano Art Foundation pareceu os bastidores de um desfile de moda. De um cabideiro, peças de roupa excêntricas e apliques para cabelo pendiam enquanto uma modelo recebia retoques na maquiagem.

Mas, quando essas oito modelos - uma mistura de mulheres cisgênero e artistas trans de diferentes raças - caminharam por uma ilha de areia branca para posar ao lado de coloridas esculturas de aço, seus movimentos foram lentos, sem nenhum carão típico das passarelas. E elas usavam pintura corporal em vez de roupas: formas azuis semelhantes a um biquíni para uma, formas verdes semelhantes a polainas em outra. O único vestuário discernível eram as peças transparentes de vinil e plástico moldado usadas para esquentar.

Trata-se de uma abordagem original da artista Donna Huanca, de Berlim, para a obra de Yves Klein, que começou a encharcar de tinta azul claro modelos nuas a partir do fim dos anos 1950. É também um novo uso para um espaço que, antes da Marciano, foi um auditório de 2.400 assentos destinado aos homens integrantes do Rito Escocês da maçonaria.

“No auditório maçom, as mulheres só eram aceitas em determinadas ocasiões”, disse Donna, 38 anos, enquanto preparava sua nova instalação, Obsidian Ladder. “Isso dá uma sensação de grande poder ao ocuparmos nosso espaço nessa arquitetura com marcas do feminino e modelos que representam o amplo espectro da feminilidade.”

Ela instalou nove de suas esculturas de aço e uma grande tela fotográfica no espaço, tornando-o menos imponente com o uso de cortinas e luz forte. O ar é tomado por uma trilha sonora de ruídos naturais como o estalar do fogo e o correr da água, além de um odor pungente de madeira queimada.

As modelos aparecem em duplas na exposição todos os sábados. O programa ficará em cartaz até 1º de dezembro. A curadora independente Cecilia Fajardo-Hill enxerga em Donna um elo com uma geração anterior de artistas latino-americanas interessadas no corpo feminino, incluindo Cecilia Vicuña, Ana Mendieta e María Evelia Marmolejo.

“Ela pertence à tradição da arte corporal, mostrando como o corpo, sujeito de tanta violência política, é um espaço criativo que pode ser retomado pelos artistas", disse ela. Mas, em um certo sentido, pedir às mulheres que fiquem nuas diante de desconhecidos não seria uma forma de exploração?

“Essa é uma reação natural, pois as mulheres foram expostas na arte, exploradas pelos artistas por muito tempo", disse Donna. “Mas essas modelos estão totalmente no controle. Têm o direito de fazer pausas ou interromper a apresentação quando quiserem. Pago a todas um salário acima do oferecido para modelos vivos. Quero que sejam colaboradoras".

Uma das modelos, Iiia Anxelin Eleuia Xochipilli, que se descreve como performer de ascendência Apache, disse: “Acho ótimo que ela trabalhe com modelos de diferentes corpos, trans, cisgênero e não binárias. Nenhum homem é permitido, nem mesmo entre a equipe de segurança". Donna disse que as seguranças foram treinadas para seguir cada modelo. “São performances que despertam as mais variadas reações nas pessoas, do choro à masturbação", disse ela.

Olivia Marciano, diretora artística da instituição e filha do cofundador Maurice Marciano, acrescentou que a obra de Donna lhe pareceu “meditativa", e não sexual. Depois de ver uma instalação parecida de Donna em Viena, ela a convidou para a Marciano, oferecendo-lhe a oportunidade de sua primeira grande exposição de museu nos Estados Unidos.

Donna cresceu em Chicago com os pais, imigrantes bolivianos: o pai trabalhava como professor de idiomas e a mãe como agente de viagens. Ela passava os verões na Bolívia até a família se mudar para Houston quando ela tinha 15 anos. No passado, a artista fez pintura corporal à mão, acordando às cinco horas da manhã para criar um novo par de pinturas corporais todos os dias. Nessa exposição, ela usa máquinas de spray. Algumas modelos trazem pinturas que correspondem às esculturas das quais ficam próximas.

Donna gosta de incluir em suas obras materiais naturais como açafrão-da-terra e café moído. Dessa vez, ela polvilhou os ombros das modelos com o açafrão. Para os apliques de cabelo, ela começou usando pelos de cavalo, mas mudou para as fibras sintéticas dois anos atrás. “Recebi um aplique com pedaços de pele ainda grudados e pensei, ‘Nunca mais’”, disse ela. “Era uma prática cruel e abusiva.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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