Fabio Bucciarelli/The New York Times
Fabio Bucciarelli/The New York Times

O próximo alvo do bispo campeão de tiro: sua oitava Olimpíadas

Giovanni Pellielo é um bispo, ordenado, e um dos competidores mais condecorados da história do seu esporte

John Henderson/The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2021 | 05h00

VERCELLI, Itália - Basta sentar ao lado de Giovanni Pellielo por algum tempo e as histórias começam a brotar. Histórias sobre os seus triunfos e a asma que chegou a ameaçar a sua vida e uma fé católica tão profunda que, certa vez, ele construiu uma igreja na sua casa. Os relatos de suas visitas ao Vaticano, onde o papa o tranquilizou assegurando-o de que a sua devoção ao tiro e a Igreja poderiam coexistir, e quando visitou uma prisão na Sicília e um assassino condenado elogiou a precisão do seu tiro.

Pellielo conta as histórias em uma entrevista no escritório de seu campo de tiro, cercado pelas fotos dele tiradas ao redor do mundo, medalhas penduradas no pescoço. Pellielo, conhecido como Johnny, espera conquistar mais uma, competindo em seus oitavos Jogos Olímpicos, aos 51 anos.

Muitos atletas são inspirados pelos treinadores, pelos pais e até mesmo por Deus. E há Pellielo. Ele diz que foi inspirado pessoalmente pelo papa João Paulo II.

Eles se encontraram em Roma há 21 anos. Pellielo havia conquistado havia pouco a sua primeira medalha olímpica, e lutava com dúvidas a respeito de como harmonizar sua fé e sua paixão. O papa tranquilizou Pellielo, contou, e desde então, ele se dedicou a ambas.

Foi ordenado bispo. Ele celebra a missa e reza cinco vezes por dia na igreja que construiu na sua casa, a pouca distância do seu campo de tiro, que tem o seu nome. Foi ali que o seu estilo de vida monástico o transformou em um dos atiradores mais condecorados do mundo, vencedor de quatro medalhas olímpicas e dezenas de outras pelo mundo e em campeonatos europeus.

Nas próximas semanas ele poderá fazer parte da equipe olímpica.

“Há dois tipos de esportistas”, disse Pellielo em uma entrevista em italiano, em abril. “O primeiro tipo deve satisfazer às próprias necessidades: ‘Eu quero a medalha, Preciso da medalha’. Não faço parte deste grupo.

“O segundo tipo é formado pelas pessoas que amam o esporte. Eu adoro”.

E acrescentou: “O fogo que queima dentro de você é o amor. E o amor nunca se esvai. É por isso que ainda estou aqui, aos 51 anos, porque me sinto continuamente estimulado por este amor, por este fogo que nunca se apaga”.

Pellielo é um dos atiradores mais competitivos da história, e deve parte da longevidade ao esporte que escolheu quando menino, e que, ao contrário de muitas disciplinas olímpicas, permite carreiras mais longas do que a média. Somente quatro outros atiradores apareceram em oito Olimpíadas, e nenhum deles ganhou mais de três medalhas. Considerando que as 30 medalhas olímpicas da Itália no tiro ‘trap’ e ‘skeet’ são as mais numerosas de qualquer outro país, e que há 24 mil atiradores registrados no país, Pellielo é incontestavelmente o ‘top gun’ de uma nação de atiradores.

Os atiradores de ‘trap’ são atiradores de elite capazes de despedaçar um disco de cerâmica de 10 centímetros de diâmetro voando a 120 km/h. A precisão e a consistência são suas marcas: Pellielo bateu o recorde mundial de 125 alvos em 125 tiros em eventos da Copa do Mundo.

Sua coleção de medalhas olímpicas inclui um bronze nas Olimpíadas de Sydney e pratas de Atenas, Pequim e Rio. No Brasil, cinco anos atrás, perdeu o ouro na final por morte súbita.

“Ele é como Maradona”, disse Carlo Alberto Tolettini, um ex-atirador competitivo e atualmente executivo da Beretta, a fornecedora de rifles de tiro. “Eu sou um pouco parcial porque cresci olhando para ele como um herói”.

Os maiores obstáculos de Pellielo vêm de longe, antes de ele começar a colecionar medalhas. A asma ameaçou a sua vida quando ele tinha três meses de idade, contou, e o castigou até os 17 anos. Às vezes, sua situação era tão grave que o seu médico disse que ele não poderia fazer exercícios ao ar livre, e até hoje, sofre de visão dupla.

Impedido de praticar a maioria dos esportes quando menino - usou uma máscara de oxigênio até os 10 anos - logo encontrou um que não exigia cárdio: o tiro. Os pais de Pellielo eram produtores de arroz em Vercelli, uma cidade de 46 mil habitantes, a cerca de 50 quilômetros de Milão, e é a maior produtora de arroz  da Europa. Mas sua mãe e seus 11 irmãos eram também caçadores, atiravam em faisões e coelhos na região de Vercelli, no Piemonte. Quando menino, Pellielo ia muitas vezes com eles em suas viagens.

“Gostei imediatamente daquilo”, disse. “Parecia uma atividade estática. Não precisava correr. Podia ficar só em um lugar”.

Seus pais divorciaram quando ele tinha 7 anos, e frequentemente ficava sozinho enquanto a mãe trabalhava nos campos. Esse conforto no isolamento mais tarde se tornou uma vantagem nas competições.

“Estar só me ajudou a crescer na solidão do campo de tiro”, afirmou. “Você está sempre sozinho com os seus fones de ouvido. Ficar lá de pé era natural para mim. Era normal. Não tinha medo de ficar sozinho.”

Quão natural? Ele atirou em um alvo aos 18 anos e foi com a sua primeira equipe olímpica aos 22 em Barcelona. Ganhou o primeiro campeonato mundial aos 25 e a sua primeira medalha de bronze olímpica aos 30, nos Jogos de Sydney, em 2000.

Naquele ano, sua vida mudou de outras maneiras. Pellielo tornou-se um ativo participante na Igreja Católica aos 7 anos, servindo o sacerdote na missa. Mais tarde, o seu interesse cresceu na busca de uma carreira, e começou a estudar teologia aos 25. Mas a sua busca religiosa se chocou com a dedicação exigida para continuar sendo um atirador de elite internacional. Quando Pellielo foi a Roma para uma audiência com o papa João Paulo II, em 2000, pediu a sua orientação.

“Disse a ele que tinha vocação religiosa”, disse Pelielo, que nunca se casou. “Mas também mostrei a ele que tinha algumas dificuldades com a instituição da Igreja. Por exemplo, alguém que pratica um esporte precisa deixar o esporte para seguir a vocação religiosa. As regras eram muito rigorosas. Então, eu teria de deixar o esporte e não me sentia disposto a fazer isto. Conversei com o papa a respeito disso e ele me disse: 'Vá em frente'”.

A sua fama se estende das Dolomites à Sicília. Durante uma visita a uma prisão em Palermo, certa vez, um condenado, assassino, o reconheceu e disse: “Você é um atirador melhor do que eu”.

Desde que ganhou a medalha de prata no Rio, acrescentou mais dois campeonatos da equipe europeia mista e um décimo título italiano à sua coleção. O seu maior concorrente para o solitário lugar olímpico da Itália no tiro para homens deste ano é o seu companheiro de equipe, Mauro De Filippis, que é o número 1 do mundo.

Se Pellielo não conseguir, já tem outra meta: as Olimpíadas de Paris em 2024. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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