Natalia Mantini/The New York Times
Natalia Mantini/The New York Times
Ruth La Ferla, The New York Times - Life/Style

16 de fevereiro de 2021 | 05h00

Aos nove anos, Jerome Lamaar tinha aprendido como ouvir os desejos do coração. "Eu tinha esperança de conseguir os bonecos Power Ranger Vira Cabeça. Nunca disse isso a ninguém, mas eu queria muito ter aqueles brinquedos. Ficava no meu quarto pensando em como me sentiria quando os ganhasse", disse Lamaar, estilista de 35 anos criado em Nova York.

Ele havia, em sua frase new age, "lançado seu sonho no universo". E, conforme contou, o universo o atendeu. "No dia seguinte, meu pai me deu os bonecos. Foi então que percebi que havia algo naquilo".

Ele não poderia ter nomeado isso na época, mas agora diz que estava se manifestando, conseguindo recompensas materiais e psíquicas por meio da pura força da mente.

Em parte pensamento mágico, em parte luta por algo que está escasso, a prática que ele descreveu, variante antiga do eterno pensamento positivo – ou pelo menos é assim que ele a descreve –, voltou a estar no centro das discussões.

A manifestação fica ao lado de vários sistemas de crenças – astrologia, tarô, o paganismo e seus primos metafísicos –, tendo sido ressuscitada por uma geração jovem em nome do bem-estar. "Para a Geração Z em particular, pode ser uma forma de autossuficiência. É uma maneira de dar sentido às coisas num momento em que nada faz sentido", afirmou Lucie Greene, escritora e analista de tendências de Nova York.

É especialmente significativa para aquelas tribos de adolescentes e pessoas com 20 e poucos anos, cujas esperanças foram destruídas ou achatadas por um mal-estar social e econômico imposto pela pandemia, continuou ela. Em um clima tão tenso, "é catártico sentir que você tem algum controle sobre seu destino".

A lei da atração

Esse fenômeno renascido é rechaçado por alguns setores como nada mais do que uma moda da quarentena, como "assar pão, tingir camisetas ou aprender as danças do TikTok", como Rebecca Jennings se expressou em uma postagem recente no site de notícias Vox. "'Cale-se, estou me manifestando' está entre os memes definidores de 2020", disse.

Seus praticantes, em contraste, veem isso como um mecanismo de enfrentamento, uma alternativa legítima que a religião organizada ou a psicoterapia nem sempre conseguem oferecer. A "lei da atração", crença de que suas experiências têm uma correlação direta com seus pensamentos, é um aspecto da prática espiritual de Princess Asata Louden. Outros incluem fazer um diário e praticar meditação, que Louden, dançarina de 24 anos e estudante de pós-graduação da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, gosta de executar à luz de velas ou perto de uma janela aberta.

Muitos de seus contemporâneos pregam um evangelho semelhante de autorrealização no YouTube, no TikTok e em outras plataformas sociais. Hoje em dia, a internet está cheia desse tipo de slogan e de autoafirmação: "Recebendo bênçãos do universo" ou "Não há competição quando você está se manifestando em sua pista".

Marta Langston, de 18 anos, estudante do ensino médio no norte da Califórnia, compartilha seu credo no TikTok e no Instagram: "Você ficaria surpreso ao ver quantas pessoas da minha idade que conheci estão usando ativamente a 'lei da atração'. Realmente, acho que nossa geração está aqui para levar essa ideia para o centro das conversas – nós a vemos como parte de um novo iluminismo".

Esse conceito tem um toque elevado. Mas, para alguns de seus adeptos mais jovens, a manifestação é apenas a mais recente extensão de um romance com os totens espalhafatosos dos que nasceram no início do milênio. Entre eles está O Segredo (recentemente atualizado como O Maior Segredo, publicado em novembro), bíblia de autoajuda extremamente popular de 2006, de uma geração mais velha, e uma marca em si mesma, que atraiu os leitores com uma garantia manhosa, afirmando que a manifestação "é exatamente como fazer um pedido de um catálogo". Como escreve a autora, Rhonda Byrne: "Você precisa saber que o que deseja já é seu desde o momento em que pede".

Força – ou atalho?

A lei da atração também está contaminada por uma corrente subjacente de racismo, suficientemente óbvia para ter gerado um meme próprio: "Talvez você tenha se manifestado. Talvez seja o privilégio branco".

A manifestação "parece merecida e suja", escreveu Ruth Anne Stearns em um post no Medium.com, afirmando que sua promessa de riqueza e abundância está baseada na "vantagem real de quem vive neste corpo branco, neste tempo e neste lugar, com recursos imensos que a maior parte do mundo não possui".

"A manifestação acarreta uma repreensão implícita aos membros de comunidades empobrecidas ou desprivilegiadas", explicou Denise Fournier, psicoterapeuta em Miami, na Flórida. Sutil ou não, a mensagem é insidiosa. "A questão é: 'Por que você não está manifestando uma viagem a Tulum? Por que não estamos te vendo no Instagram? Você não deve manifestar bem.' Isso é problemático", destacou.

Alguns acham isso egoísta ou simplesmente irrealista. "Pode ser uma forma de contornar o trabalho legítimo da terapia, que leva em consideração a ideia de responsabilidade, de disciplina, e o impacto das escolhas nas outras pessoas. O que torna a manifestação tão atraente é que as pessoas querem acreditar que podem fechar os olhos, desejar uma mansão gigante e que o fato de ter os cristais certos pode fazer isso acontecer. Mas simplesmente não funciona assim", disse Fournier.

Gabriele Oettingen, acadêmica e professora de Psicologia da Universidade de Nova York, ressalta esse ponto. "Os sonhadores nem sempre são realizadores. O prazeroso ato de sonhar esgota nossa energia para realizar o árduo trabalho de enfrentar os desafios da vida real", escreveu ela no livro Rethinking Positive Thinking: Inside the New Science of Motivation (Repensando o pensamento positivo: por dentro da nova ciência da motivação, em tradução literal), estudo das fontes e dos perigos do otimismo não examinado.

Uma rede de segurança emocional

"A manifestação dá esperança às pessoas, algo que faltou durante a pandemia. A autorreclusão prolongada nos forçou a pensar um pouco mais no que queremos fazer da vida", afirmou Elise Gill, de 30 anos, produtora de cinema de uma agência de publicidade em Londres.

Para Carlos Garbiras, corretor de seguros de 36 anos de Sonoma County, na Califórnia, que cresceu na Colômbia durante um período politicamente turbulento, a prática oferece uma rede de segurança emocional: "Como imigrante, fui criado para imaginar o mundo como um lugar perigoso. Cresci desconfiado, vendo o mal mesmo quando ele não estava necessariamente lá. A manifestação pede que você faça o oposto. Penso nela como uma correção".

No entanto, a prática da manifestação permanece suspeita e associada à autoabsorção juvenil. "É tudo sobre mim", observou Fournier, que trata de diversos jovens de 15, 16 e 17 anos no consultório. Ela aponta para "uma cultura de ser especial": usar a espiritualidade para criar essa ideia de ser excepcional, supremamente dotado. "O pensamento é: 'Como posso usar minha espiritualidade para servir a mim mesmo?'"

Essas reservas ainda não afastaram os crentes mais fervorosos, alguns dos quais têm se projetado conceitualmente em um espaço de vida cobiçado ou em um destino há muito sonhado.

"Estou sentada agora, manifestando o apartamento que quero no centro de Los Angeles. Tenho muita fé em que isso vai acontecer", disse Louden. Você pode culpá-la? Afinal, acrescentou calmamente a estudante: "Manifestei o lugar em que estou morando agora."

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