Gilles Sabrié para The New York Times
Gilles Sabrié para The New York Times

Boom no consumo chinês de pepinos do mar esgota estoques naturais

O aumento da demanda de pepinos do mar provocou o quase esgotamento de suas reservas naturais e favoreceu a criação da indústria florescente da aquacultura

Steven Lee Myers, The New York Times

16 de janeiro de 2020 | 06h00

ILHA DE GUANGLU, CHINA - Pepinos do mar são como frangos, disse Cong Xuanzhi. Estes animais, explicou, primos das estrelas e dos ouriços do mar, costumam parar nas mesas da China de hoje. “Alguns são criados em fazendas marinhas”. Cong estava na frente de um longo edifício de blocos de concreto em forma de cilindro que continha 54 pequenos tanques cheios de pepinos do mar. “E alguns estão livres”.

A transformação econômica da China tirou milhões de pessoas da pobreza e também estimulou um apetite voraz por petiscos. Na China, os pepinos do mar são muito apreciados há séculos por seu valor nutricional e por sua textura. Além disso, acredita-se que tenham propriedades medicinais, e que tratem várias doenças da artrite à impotência.

Em seu estado natural, entretanto, eles se tornaram uma raridade. Em poucas décadas, a demanda esgotou os estoques marinhos da espécie local. Por isso as autoridades recorreram à aquacultura - e alguns animais são criados em fazendas ou piscinas especiais, enquanto outros continuam no mar em um ambiente semelhante ao seu habitat na natureza. Estes são considerados livres.

Toda esta iniciativa alimenta um boom que reformulou a economia local na Península de Liaodong. Foi criada toda uma rede de piscinas em áreas invadidas pelas marés, que são tão vastas a ponto de serem visíveis nos mapas dos satélites. As piscinas de água do oceano são povoadas por filhotes de pepinos do mar que, em um ano crescem o suficiente para serem consumidos.

No interior, encontram-se os enormes viveiros da espécie destinados às piscinas. “Os moradores dependem  disto”, disse Liu Aiqing, que marcava o peso dos animais retirados de uma piscina próxima pelos mergulhadores. Anteriormente, ela trabalhava em uma fábrica.

Na China, os pepinos do mar tornaram-se o produto mais valioso das fazendas marinhas, que representa um faturamento superior a US$ 8 bilhões ao ano, disse Bao Pengyun, biólogo marinho cuja pesquisa na Universidade Dalian Ocean contribuiu para o desenvolvimento desta indústria na China.

Eles são benéficos também para o ambiente, porque se alimentam das rochas e da areia onde vivem, purificando a água que os cerca. Sua extinção seria devastadora para toda a cadeia alimentar. As homenagens ao pepino do mar são numerosas na cidade portuária de Dalian e arredores. Os restaurantes têm estátuas dedicadas a ele. Há até um resort em que constitui o tema, com hotéis e um museu.

Segundo algumas estimativas, 70% das espécies comestíveis deste animal que existentes no mundo todo estão sendo superexploradas - desde o Pacífico Sul ao Mediterrâneo e ao Golfo do México. Os pepinos do mar selvagens têm espinhos maiores e mais brancos. Os que vivem em águas mais frias crescem mais lentamente, durante três anos em geral em lugar de um, o que os torna mais nutritivos.

Os selvagens custam também duas ou três vezes mais. Os mais caros - secos - podem custar quase US$ 1 mil o quilograma. Os céticos, e são muitos, consideram os pepinos do mar sem sabor e sua textura como a de cartilagem ou borracha. Quando tirados do mar vivos, ligeiramente escaldados e mergulhados em um tempero feito com alho, coentro e óleo de pimenta, têm um ligeiro gosto de cartilagem borrachenta. Bom, não são tão ruins assim. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
China [Ásia]culináriagastronomia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.