Tim Gruber para The New York Times
Tim Gruber para The New York Times

Pequena cidade americana perdoa um mentiroso jornalista alemão

Repórter da revista 'Der Spiegel' inventou informações sobre a cidade de Fergus Falls

Matt Furber e Mitch Smith, The New York Times

23 de janeiro de 2019 | 06h00

FERGUS FALLS,  MINNESOTA - No ano passado, Claas Relotius, que passou algumas semanas como repórter em Fergus Falls para uma das mais respeitadas publicações da Europa, poderia ter escrito um artigo referindo-se a muitos moradores que têm amigos de outro partido, ou aos esforços para atrair antigo fato de uma cidade de aproximadamente 14 mil almas preserva um forte cenário artístico. Mas não escreveu. Ele poderia ter descrito os marcos locais, como a gigantesca estátua de Otto the Otter (a lontra). Ou a imensas pradarias ao redor da cidade. Mas não escreveu.

Em vez disso, Relotius inventou uma ficção escarnecedora. Para as veneradas páginas da revista alemã Der Spiegel, Relotius retratou Fergus Falls como um lugar racista, retrógrado, cujos moradores apoiaram cegamente o presidente Donald Trump, e raramente se aventuram além dos limites da cidade. Inventou também alguns personagens, tabuletas de trânsito e enredos de teor racista.

Por mais de um ano, os moradores de Fergus Falls exasperados debateram o que poderia ter acontecido, mas em geral evitaram chamar a atenção de fora para seu retrato nada elogiável. Tudo poderia ter morrido ali, para a história, salvo que Relotius foi desmascarado em dezembro por sua própria publicação como um fraudador em série, que inventava as fontes, criava citações e passou anos enganando o público nos seus artigos.

Quando foi denunciado, até o fato de que o seu retrato de Fergus Falls era falso foi revelado, assim como os esforços de algumas pessoas da cidade preocupadas em documentar o que ele entendeu errado. Logo, a cidade se encontrou no meio de um furor internacional que não pedira para desencadear. O embaixador americano na Alemanha acusou Der Spiegel de negligência no jornalismo profissional. Veículos de informação nacionais e internacionais visitaram a cidade.

“Só penso na falsa impressão que isso deu às pessoas na Alemanha”, disse Mary Lou Bates, 85, enquanto tomava café com uma amiga no Viking Café, um dos vários lugares da cidade que Relotius descreveu descuidadamente em seu artigo de março de 2017. Mas a senhora Bates disse que não é uma pessoa que costuma guardar rancor. “Quando a história é retratada, e surge a história verdadeira, a gente pode esquecer. Eu sou a favor do perdão”, disse.

E não é a única. Embora os moradores de Fergus Falls tenham ficado revoltados com o tratamento que lhes foi dispensado - o bastante para preparem um artigo refutando ponto por ponto o de Relotius - muitos deles também se mostraram dispostos a aceitar um pedido de desculpas, a colocar as coisas em seus devidos lugares e seguir adiante.  Outro repórter de Der Spiegel, que visitou Minnesota em dezembro para levantar os erros cometidos por Relotius, sugeriu que Fergus Falls poderia ser “a cidade mais misericordiosa do Hemisfério Oeste”.

Como o artigo foi publicado somente em alemão, o seu público leitor em Minnesota foi limitado. E inicialmente alguns na cidade disseram que a população sentia o desejo de dar a Relotius o benefício da dúvida. Talvez tivesse lido uma tradução imprecisa, ou talvez o repórter tenha cometido honestamente alguns enganos.

A falsificação do artigo incluiu desde coisas rotineiros (uma floresta que não existe e um jogo de futebol americano da Super Bowl que não aconteceu) até detalhes pessoais devastadores (o prefeito da cidade foi descrito falsamente como uma pessoa obcecada por armas, um homem romanticamente infeliz que nunca havia visto o oceano).

Como muitos moradores seguiram em frente com suas vidas, Michele Anderson, que trabalha para uma ONG local de artes com uma amiga, continuou trabalhando em uma verificação detalhada do artigo que publicaram, com o título “Jornalista de Der Spiegel mexeu com a cidadezinha errada.”

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