Matthew Abbott para The New York Times
Matthew Abbott para The New York Times

Líderes de pequenas cidades tentam convencer população da mudança climática

Ausência de liderança nacional pressiona ainda mais os prefeitos e as câmaras regionais a procurarem soluções por conta própria

Damien Cave, The New York Times

16 de outubro de 2019 | 06h00

BUCASIA BEACH, AUSTRÁLIA - O prefeito Greg Williamson pisou nos galhos mortos e chutou a areia. A prefeitura havia plantado árvores perto da orla para proteger a comunidade balneária no norte da Austrália dos efeitos da mudança climática, mas alguém as derrubara, aparentemente para ter uma vista melhor.

“Acho que eles começaram na praia e andaram para trás”, ele disse, apontando para as 18 árvores derrubadas. “Estes idiotas - olhe, ainda dá para ver as marcas da serra”. Quando os líderes internacionais se reuniram na ONU no mês passado para discutir a mudança climática, e milhões de jovens foram às ruas para protestar, o foco estava numa ampla ação global. Mas, para grande parte do planeta, a resposta à mudança climática se parece mais com as brigas de Williamson: líderes de pequenas cidades que se esforçam para convencer um público cético a respeito de uma ciência complexa e de decisões caras.

 Em poucos lugares,  o desafio de uma adaptação à mudança climática é mais imediato do que na Austrália, onde 80% da população vive a poucas dezenas de quilômetros da orla marítima vulnerável ao aumento do nível do mar, e onde o interior árido torra sob temperaturas recordes.

O governo conservador minimizou em geral os apelos por uma ação para conter a mudança climática, e o primeiro-ministro Scott Morrison afirmou recentemente que os jovens ativistas, como Greta Thunberg, estão causando “uma ansiedade desnecessária”. Mas a ausência de liderança nacional pressiona ainda mais os prefeitos e as câmaras regionais a procurarem soluções por conta própria.

Na Austrália, alguns estão às voltas com o desmoronamento das estradas no mar, com as disputas a respeito do seguro moradia enquanto os custos sobem, e com quem pagará por medidas preventivas como barreiras mais elevadas nas marinas. Mais no interior, os governos locais  tentam especializar-se em tecnologia de monitoramento de secas, e áreas que nunca pensaram em incêndios estudam as piores perspectivas.

Em Mackay, a extensa área onde vivem 180 mil pessoas e há 32 praias sob a supervisão de Williamson, as causas e os efeitos de um planeta que está se aquecendo estão lado a lado. Durante uma visita a esta área, Williamson parou em um ponto de observação no topo de uma colina de onde se avistam os navios movidos a carvão navegando para cima e para baixo entre a Grande Barreira de Corais - que está sendo lentamente destruída pelo aquecimento das águas - e Lamberts Beach, onde a câmara de Mckay recentemente jogou areia extra e plantou árvores depois de um forte ciclone.

No interior, no ano passado, um grande incêndio queimou grande parte da floresta tropical, algo sem precedentes na opinião dos cientistas. Mas a experiência do desastre não convenceu a comunidade a rejeitar o carvão - a mineração é o motor econômico da região - mas incentivou a busca por conhecimento científico.

Nos dois últimos anos, em Queensland, um estado quase do tamanho do México, houve 11 eventos climáticos classificados como importantes, segundo o Departamento de Reconstrução de Queensland. No entanto, os prefeitos estão brigando com o eleitorado que duvida da verdade dos fatos e dos especialistas.

Antes da eleição de Williamson, em 2016, o conselho agia principalmente por conta própria. O departamento de parques e jardins limpou o mato que invadia a praia, intensificou a vegetação e instalou cercas e caminhos para controlar o tráfego de pedestres. A reação foi violenta. Como as mudas bloqueavam a visão de muitos proprietários de casas, misteriosamente as árvores foram sendo cortadas, noite após noite.

Em 2017, as autoridades registraram a derrubada de mais de 30. Mas Williamson não se deu por vencido. “Ninguém tem todas as respostas”, afirmou, “mas o que nós sabemos é que não podemos abandonar as praias e esperar que elas permaneçam onde estão”. Segundo ele, a Câmara Municipal não teve outra escolha, senão adotar uma medida que nega os benefícios a quem derruba árvores e outros que interferem com as medidas de proteção e combina educação com vergonha e ainda um apelo por solidariedade.

Nesta área, onde agora é possível desfrutar de uma vista ampla do mar, a Câmara plantará o dobro de arvores em comparação às que foram derrubadas, e colocará um grande cartaz. “A vegetação nativa proporciona uma proteção duradoura à nossa orla e às suas comunidades”, dirá o cartaz, como as que antes impediam a vista em outras áreas e sofreram a ação dos vândalos. “Ajudem-nos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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