James Nieves/The New York Times
James Nieves/The New York Times

Pequeno parafuso mostra por que a Apple não sai da China

Capacidade manufatureira dos EUA é menor do que a do país asiático, que também oferece habilidade, infraestrutura e baixo custo

Jack Nicas, The New York Times

09 de fevereiro de 2019 | 06h00

SAN FRANCISCO - Apesar de uma greve comercial entre Estados Unidos e China e das broncas anteriores do presidente Donald Trump, que pediu à Apple que "comece a produzir seus malditos computadores e bugigangas nesse país", é improvável que a empresa traga seu processo de manufatura para os EUA. Um pequeno parafuso deixa claro o porquê.

Em 2012, o diretor executivo da Apple, Timothy D. Cook, anunciou que a empresa passaria a produzir o computador Mac Pro nos EUA, seu primeiro produto em anos a ser fabricado por mão de obra americana. Mas, quando começou a produzir o modelo de US$ 3 mil no Texas, a Apple teve dificuldade em obter parafusos em quantidade suficiente, de acordo com três pessoas que trabalharam no projeto e comentaram o caso sob condição de anonimato.

Na China, a Apple dependia de fábricas que produzem vastas quantidades de parafusos personalizados do dia para a noite. No Texas, os testes de novas versões do computador foram adiados porque uma empresa americana de 20 funcionários só conseguia produzir até mil parafusos por dia. Quando o computador ficou pronto para a produção em série, a Apple tinha encomendado parafusos da China.

Os desafios ilustram problemas que a Apple enfrentaria se tentasse transferir uma parte significativa de sua atividade manufatureira para fora da China. A empresa descobriu que nenhum país é capaz de se equiparar à combinação de habilidades, infraestrutura, baixo custo e larga escala encontrada na China.

A Apple tentou diversificar sua cadeia de fornecimento, mas optou pela Índia e pelo Vietnã, de acordo com um executivo que pediu para não ser identificado. Cook supervisionou a guinada da Apple para a manufatura no exterior em 2004, jogada que possibilitou a redução nos custos e a produção na escala imensa necessária para trazer ao mercado alguns dos produtos tecnológicos mais vendidos da história.

A empresa terceirizou boa parte do trabalho a imensas fábricas na China, algumas delas com centenas de milhares de funcionários. Essa linha de montagem inclui peças feitas na Noruega e nas Filipinas, passando por Idaho, que são enviadas à China.

Cook reage mal quando comentam que os iPhones são feitos na China. A Apple diz que uma fábrica no Kentucky produz as telas e uma empresa no Texas produz tecnologia laser para o reconhecimento facial. Ele também se defende quando dizem que a mão de obra barata é o motivo da prolongada presença da Apple na China. 

Mas o baixo custo dos salários não afeta negativamente a empresa. A Apple disse que o salário inicial para trabalhadores da linha de montagem em Zhengzhou, China, onde fica a maior fábrica de iPhones, era de aproximadamente US$ 3,15 por hora. O Mac Pro produzido nos EUA se revelou um dos computadores mais caros da Apple. Fornecedores chineses enviavam peças para o Texas. Mas, em alguns casos, a equipe do Texas precisou de peças novas e fez mudanças no projeto, e os engenheiros recorreram às manufaturas da região.

A Flextronics, empresa escolhida para fabricar os computadores, contratou a Caldwell Manufacturing para a produção de 28 mil parafusos. O proprietário da Caldwell, Stephen Melo, considerou irônico o fato de a Apple, uma líder na manufatura de peças no exterior, procurasse sua empresa com uma encomenda de grandes proporções. "É difícil investir nesse tipo de coisa nos EUA porque é muito mais barato comprar artigos desse tipo no exterior", disse ele.

Sua empresa não era capaz de produzir os parafusos de acordo com as especificações da Apple. Outra frustração: funcionários americanos não trabalham noite adentro. Nas fábricas chinesas há turnos durante as 24 horas do dia e da noite e, se necessário, trabalhadores são tirados do sono para atingir metas de produção.

"Por se tratar de um governo autoritário, eles podem convocar 100 mil pessoas para trabalhar a noite toda e cumprir uma meta", disse Susan Helper, professora de economia da Universidade Case Western Reserve, em Cleveland. 

Susan disse que a Apple poderia fazer mais produtos nos EUA se apostasse em tecnologia robótica e engenheiros especializados em vez de grandes números de assalariados na linha de montagem. Ela afirma que o governo e a indústria teriam que melhorar o treinamento profissional e a infraestrutura da cadeia de fornecimento. Mas acrescentou que a probabilidade de isso ocorrer é baixa.

A Apple ainda monta os computadores Mac Pro no Texas, em parte por ter investido em maquinário personalizado. Mas o Mac Pro vendeu poucas unidades, e a Apple não atualiza o modelo desde 2013. Em dezembro, a Apple anunciou que contrataria mais 15 mil funcionários em Austin, Texas, a poucos quilômetros da fábrica do Mac Pro. Nenhum desses novos postos de trabalho deve ser na área manufatureira.

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