Ryan Christopher Jones para The New York Times
Ryan Christopher Jones para The New York Times

Peregrinação religiosa no México homenageia Nossa Senhora de Guadalupe

Uma aparição divina em 1531 ainda serve como conforto nos dias de hoje

Kirk Semple, The New York Times

19 Dezembro 2018 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO - Sua mãe estava muito doente, quase morrendo. Então, Jesús Vicuña, 17 anos, fez um acordo com os céus. Prometeu um doloroso sacrifício em troca de sua recuperação. Foi assim que ele se viu andando de joelhos, sob o peso de uma mochila maciça, por uma calçada na Cidade do México.

A cada passo, ele caía, gemendo de dor. Mas, vinte e tantos quarteirões depois do início da provação - a última etapa de uma jornada de três dias -, ele cruzou de joelhos os últimos metros até a Nova Basílica de Guadalupe, o santuário mais importante do México, e desabou no chão. Vicuña tinha alcançado seu objetivo. “Foi uma promessa”, disse ele, meio delirando de emoção e fadiga.

O ordálio de Vicuña fez parte de uma peregrinação anual para homenagear a Virgem de Guadalupe. Estima-se que, no decorrer de vários dias deste mês, 9 milhões de pessoas visitaram a basílica, com cerca de 7 milhões delas se abrigando no edifício entre 11 e 12 de dezembro para celebrar o que os crentes dizem ser a aparição da Virgem Maria perante um camponês indígena chamado Juan Diego, em 1531.

A Virgem de Guadalupe é uma força que transcende as divisões sociais e demográficas do país. Sua imagem é onipresente. Está em retratos nas paredes das casas, em pequenos santuários encontrados em lojas e postos de gasolina, em objetos tão variados quanto utensílios de cozinha, joias, lâmpadas, sacolas e ímãs de geladeira.

“Ela está em todos os lugares”, disse Davíd Carrasco, professor da Escola de Religiões de Harvard. “Ela é mãe de todo mundo no México. Minha filha a chama de ‘a mãe número 1’”. Muitos latino-americanos trocaram o catolicismo pelas congregações evangélicas. Mas a profunda devoção à Virgem de Guadalupe, também conhecida como Nossa Senhora de Guadalupe, desacelerou essa tendência no México.

“A Virgem de Guadalupe é um símbolo de esperança e paz”, disse Gabriela Treviño, funcionária da basílica. “Quanto mais difícil a situação, mais forte é a devoção”. Não há maior expressão dessa devoção do que a peregrinação anual à basílica, que culmina em uma série de missas e celebrações em 12 de dezembro, data em que se diz que a Virgem fez a última das várias aparições a Juan Diego.

Para chegar à basílica, muitos vieram caminhando de todas as partes do México, alguns viajando durante muitos dias. Os peregrinos vinham trazendo objetos preciosos de suas casas - estatuetas e tapeçarias da Virgem - e os erguiam quando entravam na basílica lotada.

Dizem que uma imagem emoldurada e pendurada atrás da capela-mor é o manto de fibra de agave de Juan Diego, no qual a Virgem estampou sua imagem no encontro final. “Estamos muito agradecidos por ter chegado aqui”, disse Orlando Munive, 35 anos, em 11 de dezembro.

Ele e seus conhecidos caminharam por três dias desde que deixaram suas casas no Estado de Puebla. Trazia um retrato da Virgem amarrado à sua mochila com barbante. Quando perguntaram como ele se sentia ao finalmente entrar na basílica, começou a chorar. “É incrível”, disse ele. “Tudo acontece diante dos olhos dela”.

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