Colin Delfosse / The New York Times
Colin Delfosse / The New York Times

Performance é a arte do momento, mas é difícil de vender

Performance única do artista britânico David Rickard, na peça 'Exhaust', custa dez mil euros, cerca de US$ 11 mil

Scott Reyburn, The York Times

04 de outubro de 2019 | 06h00

BRUXELAS - O homem de máscara sentado diante da janela, impassível em sua cadeira, inspirava e expirava pausadamente no balão de folha de alumínio que tinha no colo. Em seis horas, ele enchera mais de 20, que empilhava atrás dele. Assim é Exhaust, uma peça de arte performática do artista conceitual britânico David Rickard. Em 24 horas, Rickard transformou o ar de que uma pessoa precisa respirar em um dia em uma enorme escultura brilhante.

Vista pela primeira vez no Instituto Goethe, em Londres, em 2008, a obra, que exige muito do artista (ele não pode comer nem beber, e os níveis de dióxido de carbono no seu sangue precisam ser verificados), era a peça principal da segunda edição anual de A Performance Affair, feira de arte performática que visa à venda das peças.

O evento de quatro dias estava no Vanderborght Building, antiga loja de departamentos Art Déco, em que haviam sido reunidas obras de 30 artistas na esperança de chamar a atenção de colecionadores de arte contemporânea da Bélgica que gostam de arriscar.

Valor da peça

Uma apresentação única de Exhaust custa 10 mil euros, cerca de US$ 11 mil, explicou Will Lunn, que representa Rickard e é o diretor da galeria Copperfield de Londres. A performance é a forma do momento no mundo da arte. Em maio, Sun & Sea (Marina), ópera de praia ecologicamente consciente em ambiente fechado, ganhou o Leão de Ouro na Biennale de Veneza. A Tate Modern tem 17 performances em sua coleção.

Mas embora os museus aceitem a arte performática, no mundo da arte comercial como forma de investimento ela está sendo absorvida de maneira mais lenta. E a razão disto é óbvia. “É efêmera,” avaliou Will Kerr, um dos fundadores da plataforma sem fins lucrativos, A Performance Affair. “Você encontra performances em toda parte”, mas, no mercado,  ela é o “elo mais fraco”. “Os marchands só a utilizam para atrair compradores da obra de outros artistas”, prosseguiu Kerr. “Ela é considerada mero divertimento”.

Sotheby’s, Christie’s e Phillips ainda não venderam uma única obra performática viva, segundo as casas de leilões. Elas, e os potenciais compradores destas peças, se perguntam: ‘O que é que eles vendem, exatamente?’. Na tentativa de padronizar a resposta à pergunta, a feira da A.P.A., juntamente com Chantal Pontbriand, uma curadora de Montreal, redigiu um protocolo que trata de questões como a duração de uma performance e que tipo de material pode ficar com o proprietário depois que ela termina.

Sem um certificado explicando estes detalhes práticos e suas ramificações, a arte performática continuará um artigo difícil de vender, e revender. “A aquisição de uma performance real é algo novo”, disse Frédéric de Goldschmidt, colecionador de Bruxelas que é membro  a comissão de seleção da A.P.A. “Você compra algo imaterial”.

Arte performática

No caso de The Banquet, nova performance de Ariane Loze, artista de Bruxelas, um comprador adquire pelo menos um conjunto de 12 roteiros. Disponível em quatro línguas europeias, cada um deles contém as falas de um vídeo de 2016 de um jantar bastante tenso em que Ariane faz 12 papéis.

Evann Siegens, bailarina clássica de Vancouver, tem um arquivo de gestos relacionados à história da arte performática de Allan Kaprow, passando por Gilbert & George a Marina Abramovic. Por  mil euros, Evann recria um gesto fotograficamente como uma performance, que será documentada em vídeo e preservada em um pen drive em uma caixa de apresentação.

Na rua do Edifício Vanderborght, John Yee, empresário de San Francisco, ficou pasmo olhando Rickard em sua tarefa de encher os balões um dia todo. “Não sei se estou entendendo, mas é legal”, brincou Yee, e acrescentou: “Parece uma coisa muito europeia.” Como o espetáculo tinha aguçado o seu interesse, entrou na feira. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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