Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Personagem com deficiência foi apagado de musical na Broadway

A pedido dos produtores, Meredith Willson cortou um menino em uma cadeira de rodas dos primeiros roteiros de seu musical de 1957. Um olhar para trás mostra o que foi perdido

Amanda Morris, The New York Times - Life/Style

26 de janeiro de 2022 | 07h33

Muita gente conhece o musical da Broadway The Music Man, de Meredith Willson, lançado em 1957, como uma comédia suave centrada em um trapaceiro charmoso que finge ser um músico e vende a ideia de criar uma banda de garotos para uma pequena cidade em Iowa. O musical está novamente em cartaz na Broadway, estrelando Hugh Jackman e Sutton Foster.

Contudo, cópias originais do musical, escrito entre 1954 e 57, mostram que, originalmente, a história se concentrava mais em como a cidade perseguia um menino em uma cadeira de rodas - trazendo uma mensagem muito mais séria que a do texto final. Naquela época, crianças com deficiências físicas eram frequentemente institucionalizadas sob condições terríveis e não recebiam educação formal.

Na versão que estreou em 1957, a única personagem que não se encaixa nesse esquema é Marian Paroo, mulher solteira e estudada, que tem um tímido irmão mais novo com a língua presa, chamado Winthrop. Porém, o trapaceiro, Harold Hill, usa seu charme para conquistar Marian, em parte porque é gentil com Winthrop e o inclui na banda.

A princípio, o irmão mais novo de Marian se chama Jim Paroo, jovem cadeirante que, em algumas versões do espetáculo, tem dificuldades para mover os braços e não consegue falar. Aonde Jim vai, as pessoas da cidade querem prendê-lo e, em algumas versões, isso o obriga a se esconder e viver no porão da escola, em vez de ficar em casa.

Então, Harold chega e coloca em xeque as ideias da comunidade sobre Jim, ao incluí-lo na banda, encontrando um instrumento que ele seja capaz de tocar. Um dos primeiros títulos do espetáculo, O Triângulo de Prata, destaca o instrumento escolhido por Jim e sua contribuição para a banda.

"Creio que Jim era o aspecto central da peça", comentou Dominic Broomfield-McHugh, professor de musicologia da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, que descobriu muitos dos primeiros rascunhos em 2013, na Great American Songbook Foundation, em Indiana. Essas descobertas foram publicadas no livro de Broomfield-McHugh, The Big Parade: Meredith Willson’s Musicals from 'The Music Man' to '1491'. O livro explora a jornada musical desde O Triângulo de Prata até The Music Man que conhecemos hoje - e conta com um capítulo dedicado às diversos versões originais do espetáculo.

"Quando você lê o primeiro rascunho, ele é bem fraco até chegarem as cenas com Jim, ou sobre Jim. De repente, fica muito sério e dramático. Eu ainda fico impressionado quando vejo", afirmou ele.

Boa parte das canções e cenas das versões iniciais também eram significativamente diferentes, de acordo com Broomfield-McHugh. Em uma canção que foi retirada, Jim, que não é verbal nessa versão do espetáculo, começa a cantar sozinho no palco.

"O que Willson estava tentando fazer era dizer que, mesmo que ele não fosse capaz de falar, sua cabeça estava repleta de pensamentos e ideias", comentou Broomfield-McHugh.

Embora a forma como Willson escreve sobre deficiências físicas seja exagerada, a ponto de ser considerada ofensiva, Broomfield-McHugh acredita que o dramaturgo tentava iniciar um debate sobre como as pessoas com deficiências eram tratadas na época.

Ele encontrou evidências de que o dramaturgo visitou organizações dedicadas a crianças com deficiências, mas não encontrou razões pessoais que tenham levado Willson a escrever sobre o tema.

Faltando apenas dez meses para a estreia do espetáculo, Willson engavetou Jim e o substituiu por Winthrop, a pedido dos produtores que acreditavam que não havia espaço para representações sérias de deficiências no palco.

"Porém, sinto uma frustração muito grande da parte dele, que tentou por muitos anos que o espetáculo ocorresse dessa maneira", disse Broomfield-McHugh.

Um recado pedia para que Willson mudasse o personagem, afirmando que "a única forma de ver a deficiência física de uma criança é com pena e dó. O problema é encontrar alguma outra forma de deficiência que não seja física". O recado não tem nada, nem assinatura, mas Broomfield-McHugh acredita que ele tenha sido escrito nos primeiros meses de 1957 pelo funcionário de um produtor. Ele o encontrou nos arquivos da Sociedade Histórica do Wisconsin, guardado atrás de uma cópia do roteiro que pertencia ao produtor Kermit Bloomgarden, que assumiu a produção do espetáculo em 1957.

Outra carta enviada a Willson, escrita em 1955 pelos dramaturgos Jerome Lawrence e Robert E. Lee, dizia, "A solução mais fácil é se livrar de Jim Paroo, embora fazer isso provavelmente diminuiria uma obra relevante a mero entretenimento."

Atualmente, o público pode ver com maior frequência atores com deficiências nos palcos, graças às iniciativas de companhias teatrais menores, como The Apothetae, que produz obras centradas na vivência das deficiências, e o Theater Breaking Through Barriers (Teatro rompendo barreiras, em tradução literal), organização off-Broadway que costuma escalar atores com deficiências.

Porém, na Broadway, representações autênticas de deficiências ainda são raras e distantes entre si, de acordo com Talleri A. McRae, uma das fundadoras do National Disability Theater.

Existem alguns casos de sucesso. Ali Stroker fez história em 2019 ao ser a primeira atriz cadeirante a vencer um Prêmio Tony por seu papel como a noiva provocante Ado Annie, em Oklahoma!; Madison Ferris, que tem distrofia muscular e é cadeirante, interpretou Laura em uma produção de À Margem da Vida, de 2017. Além disso, um ator com deficiência foi escalado para o papel de Tiny Tim, na montagem de Um Conto de Natal de 2019; a montagem de Spring Awakening, de 2015, feita pelo Deaf West Theater, conta com atores surdos e ouvintes lado a lado; e Martyna Majok recebeu o Prêmio Pulitzer em 2017 pela peça off-Broadway Cost of Living, sobre pessoas com deficiências.

Mesmo com esse progresso, muitos personagens com deficiências não são bem escritos e atores sem deficiências muitas vezes são escalados para interpretá-los, disse McRae.

Até onde ela saiba, a personagem Nessarose, em Wicked - que usa uma cadeira de rodas - nunca foi interpretada por uma atriz com deficiência na Broadway, e o mesmo vale para Crutchie, que usa muletas no espetáculo Newsies.

"Veja até onde chegamos, ou até onde ainda temos que ir", comentou Gregg Mozgala, ator com paralisia cerebral e fundador e diretor artístico da Apothetae.

Parte do problema é a falta de acesso a cursos de atuação, de acordo com Mozgala, que também é o diretor de inclusão do programa Teatro para Todos, do Queens Theater, que dá apoio e formação para dramaturgos e atores com deficiências. Durante o curso de artes dramáticas da Escola de Artes da Universidade de Boston, ele era a única pessoa com deficiências da sala e dizia que muitos atores com deficiências foram orientados a deixar de frequentar determinadas aulas, já que os professores não se sentiam confortáveis com deficiências.

Outra barreira é a percepção do público. Nicholas Viselli, diretor artístico do Theater Breaking Through Barriers, disse que o público ainda se sente desconfortável ao assistir atores e personagens com deficiência nos palcos. Ele conta que costuma receber doações de pessoas que acreditam que seu trabalho é importante, mas que não querem assistir às peças que ele monta.

"Quando você expõe uma deficiência, ela afasta as pessoas, que acham que não vão curtir tanto a experiência, pois sentem pena", disse Viselli.

No final, a versão de The Music Man sem Jim foi um sucesso, faturou cinco Prêmios Tony, incluindo o de melhor musical, e foi apresentada 1.375 vezes.

Desde então, The Music Man foi criticada pela leveza com que trata o comportamento predatório e problemático do trapaceiro.

O legado de The Music Man poderia ter sido diferente se a visão original de Willson tivesse chegado aos palcos da Broadway representando de maneira autêntica as pessoas com deficiências. Muitos dos estigmas e barreiras que a peça tentava confrontar ainda persistem, de acordo com Penny Pun, diretora do National Disability Theater.

"Muitas dessas obras são engavetadas antes de verem a luz do dia. Então, como saberemos se atrairiam o grande público se nunca têm chance?", disse Pun.

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