Nanna Heitmann para The New York Times
Nanna Heitmann para The New York Times

Indústria da pesca enfrenta desafio das águas mais quentes

As temperaturas dos oceanos estão aumentando e as águas quentes estão fazendo com que os peixes nadem por suas vidas, causando distúrbios financeiros e conflitos internacionais

Kendra Pierre-Louis, The New York Times

27 de dezembro de 2019 | 06h00

ISAFJORDUR, ISLÂNDIA - Antes de se tornar locação da série Game of Thrones e antes de hordas de turistas invadirem este pequeno país insular, os peixes já estavam lá. “Os peixes nos deixaram ricos", disse o professor Gisli Palsson, da Universidade da Islândia. O dinheiro que a Islândia ganhou com a pesca comercial ajudou a ilha a se tornar independente da Dinamarca em 1944.

Mas as águas mais quentes ligadas à mudança climática estão levando alguns peixes a buscarem águas mais frias, além do alcance dos pescadores islandeses. A temperatura do oceano em torno da Islândia aumentou entre um e dois graus Celsius nos 20 anos mais recentes. Nas duas temporadas mais recentes, os islandeses não conseguiram pescar a capelinha, peixe da família do peixe-rei que representa o segundo tipo de pescado mais importante para as exportações do país, com o número de cardumes caindo vertiginosamente.

Com as águas mais quentes, alguns peixes vão embora, provocando distúrbios financeiros, e outras ocupam seu lugar, desencadeando conflitos geopolíticos. Em todo o mundo, pesquisas mostram que os oceanos estão fervendo. Contando a partir de meados do século passado, os oceanos absorveram mais de 90% do excesso de calor aprisionado pelas emissões de gases-estufa. Para escapar do calor, os peixes estão procurando águas mais frias, perto dos dois pólos do planeta.

“Foi a primeira vez que não pudemos pescar no inverno, porque os peixes tinham se deslocado", disse Petur Birgisson, capitão de um pesqueiro. “Se não houver peixes, não poderemos viver na Islândia", disse ele. A capelinha não é a única preocupação. A maria-mole está buscando águas mais próximas da Groenlândia.

E o bacalhau, que este ano proporcionou um lucro recorde de US$ 1 bilhão, se alimenta da capelinha. Espécies diferentes de peixes evoluíram para habitar águas de temperaturas específicas, e peixes como o robalo precisam de climas temperados como o encontrado na costa atlântica dos Estados Unidos, enquanto peixes tropicais como o bodião-papagaio preferem as águas quentes do Caribe, por exemplo. 

Mas, hoje em dia, os pescadores encontram robalos e bodiões centenas de quilômetros mais ao norte. E, ao fugirem para climas melhores, os peixes deixam atrás de si regiões inteiramente vazias, como partes dos trópicos. Além disso, os peixes “precisam de mais oxigênio quando a temperatura é mais alta", disse o professor Daniel Pauly, da Universidade da Colúmbia Britânica, mas a água quente contém menos oxigênio do que a água fria.

Os peixes estão nadando para longe na tentativa de se salvar, disse a professora-assistente Jennifer Jacquet, da Universidade de Nova York. “Estão se deslocando porque precisam respirar", disse ela. Conforme os peixes atravessam fronteiras políticas, o resultado pode ser um conflito. No caso da sarda, a pesca é coadministrada pela Noruega, pelas Ilhas Faroé e pela União Europeia. A chegada de um grande número de sardas a águas islandesas em 2005 alterou essa relação.

“No caso da Islândia, a situação evoluiu para uma guerra comercial", disse ele. “Afetou negociações comerciais internacionais e parece ser parte do que levou a Islândia a não entrar para a União Europeia.” As negociações nunca produziram um consenso, em parte porque os peixes migraram para águas nas quais a Islândia tem direito de pesca exclusiva.

Muitas áreas de pesca que não eram compartilhadas no passado estão agora ultrapassando os limites das fronteiras conforme os peixes se deslocam. Pinsky descobriu que 35% das áreas de pesca vão interferir com as fronteiras atuais já em 2060 se as emissões de gases-estufa não forem contidas.

Nos trópicos, a questão é particularmente grave porque, conforme os peixes migram para o norte, não há espécies para substituí-los, criando um vácuo de alimento. Em alguns países tropicais, os peixes são responsáveis por até 70% da nutrição da população, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

“Minha mãe é de Gana, meu pai é da Nigéria, e sei que, para muitos dos habitantes do litoral, a única proteína animal disponível é a do peixe - e esses peixes estão migrando", disse Rashid Sumaila, especialista em peixes da Universidade da Colúmbia Britânica. Ele disse que mudanças na migração dos peixes também têm implicações globais, porque a ausência de uma fonte de alimento fundamental pode obrigar as pessoas a se deslocarem. Enquanto a Islândia ainda consegue explorar a pesca em águas abertas, a piscicultura parece uma alternativa atraente.

A pesca é “um trabalho perigoso - não quero meus filhos no mar", disse Saethor Atli Gislason, que vive ao norte de Isafjordur. Embora ele ainda pesque no verão, o pai já trabalha na piscicultura. “É um ótimo emprego", disse ele. O capitão Birgisson, do pesqueiro, acrescentou, “Temos que começar a investir na piscicultura porque não podemos contar com o mar". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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