Zeb Hogan, UNR Global Water Center
Zeb Hogan, UNR Global Water Center

Pesca descontrolada e construção de barragens: gigantes da água doce estão desaparecendo

Pesquisa da revista 'Global Change Biology' revela que, entre 1970 e 2012, a megafauna de água doce sofreu um declínio de 88% em todo o mundo

Rachel Nuwer, The New York Times

27 de janeiro de 2020 | 06h00

Algumas das criaturas mais impressionantes da Terra se escondem nas profundidades de rios e lagos: bagres gigantes de mais de 270 quilogramas, arraias do tamanho de um Fusca, trutas de dois metros de comprimento capazes de engolir um camundongo inteiro.

Existem cerca de 200 espécies da chamada megafauna de água doce, mas em comparação com as suas congêneres terrestres e marinhas, estas têm sido pouco estudadas pelos cientistas e pouco conhecidas pelo público. E estão desaparecendo.

Após uma pesquisa na bacia do Rio Yangtze, em janeiro, cientistas declararam oficialmente extinto o peixe espátula chinês. Esse peixe, que foi visto vivo pela última vez em 2003, e podia crescer até alcançar sete metros de comprimento, habitou outrora muitos rios da China, mas a pesca descontrolada e a construção de inúmeras barragens eliminaram as suas populações.

O fim do peixe espátula pode ser o prenúncio do que acontecerá com outros peixes gigantes. Uma pesquisa publicada em agosto pela revista Global Change Biology revela que, entre 1970 e 2012, a megafauna de água doce sofreu um declínio de 88% em todo o mundo. “Nós queremos ir além do simples estudo do seu estado de conservação, e buscar maneiras de melhorar a situação destes animais”, disse Zeb Hogan, ecologista da Universidade de Nevada, Reno, um dos autores da pesquisa. Desde que Hogan começou a estudar peixes gigantes há 20 anos, ele testemunhou o declínio de muitas espécies.

Megafauna

Os cientistas definiram megafauna de água doce todo animal vertebrado que passa uma parte essencial de sua vida em água doce ou salobra e pode pesar mais de 30 quilogramas. Eles identificaram 207 destas espécies e vasculharam a literatura científica em busca de pelo menos duas avaliações da população de cada um, tomadas em diferentes momentos no tempo.

Eles encontraram dados que atendiam a estes critérios para apenas 126 espécies. Sua lista incluía principalmente peixes, mas também mamíferos como castores, hipopótamos e criaturas de sangue frio como crocodilos e salamandras gigantes.

Segundo constataram, os peixes foram os mais profundamente afetados, com um declínio de 94%. Os peixes da China Meridional e do Sudeste Asiático sofreram as maiores perdas globais, 99%.

O World Wildlife Fund afirma que as populações de animais de água doce em geral estão declinando ao dobro do ritmo observado em aninais terrestres e marinhos.

Muitas ameaças provocam tais declínios: pesca descontrolada, poluição, degradação do habitat, desvios de cursos de água e extração. São, entretanto, as barragens que infligem o dano mais letal aos peixes gigantes, muitos dos quais são migratórios.

Pesquisas recentes mostraram que dois terços dos maiores rios do mundo não fluem mais livremente. Centenas de barragens foram propostas ou estão em construção nas bacias de rios ricos em megafauna, como Amazonas, Congo e Mekong.

Por outro lado, existem muitas estratégias para garantir a sobrevivência destes gigantes de água doce, e algumas mudanças estão ocorrendo.

O arapaima – um peixe que vive na América do Sul com três metros de comprimento que respira ar – desapareceu de grande parte da bacia do Rio Amazonas por causa da pesca excessiva. Mas, no Brasil, algumas aldeias de pescadores que fazem um manejo sustentável destas populações notaram que o número de arapaimas decuplicou.

Às vezes, na ausência de um comprometimento do governo as intervenções populares conseguem mudanças positivas. Cidadãos do Bangladesh, Nova Zelândia e Equador garantiram recentemente os direitos sobre alguns rios, o que significa que os tribunais deverão tratar estes corpos de água como entidades vivas.

Amazônia brasileira

Projetos de barragens enormes na Amazônia brasileira foram suspensos em 2018, depois dos protestos dos cidadãos e dos apelos para que fossem feitos maiores esforços na área de energia renovável. Em 2012, os protestos no Chile contribuíram para a decisão de não represar os rios Pascua e Baker, e em lugar disto instalar fazendas para a produção de energia solar e eólica.

De fato, à medida que os preços da energia renovável caem, sol e ventos estão se tornando alternativas viáveis à energia hidrelétrica, principalmente nos países em desenvolvimento que ainda querem obstruir os seus rios com grandes barragens, disse Michele Thieme, cientista chefe da área de água doce no World Wildlife Fund.

O Camboja aprovou recentemente um parque solar de 60 megawatts, embora o país ainda estude a possibilidade de construir uma grande barragem sobre o Rio Mekong que bloquearia a migração de peixes ameaçados de extinção.

Hogan e seus colegas acreditam que, coletivamente, os esforços de conservação poderão ajudar a preservar a biodiversidade nos cursos de água doce. “Estes peixes extraordinários tornam a nossa vida e a experiência sobre a Terra mais ricas e valiosas”, afirmou o ele. “Acaso, vamos querer vive em um planeta em que nós mesmos matamos todos estes animais maravilhosos, ou em um planeta em que seja possível encontrar uma maneira de coexistir?” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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