Michelle Gustafson para The New York Times
Michelle Gustafson para The New York Times

Pesca descontrolada ameaça aves migratórias

Preservacionistas alertam que a pesca exagerada do caranguejo-ferradura, alimento de aves que seguem rumo ao Ártico, pode afetar todo o ecossistema

Jon Hurdle, The New York Times

14 de junho de 2019 | 06h00

REEDS BEACH, NOVA JERSEY - Em um dia recente de primavera, centenas de aves oceânicas agitavam suas asas sob uma rede que as prendia contra a areia. Voluntários correram para libertar as aves e colocá-las em caixas fechadas. Em uma duna próxima, equipes de cientistas e voluntários prendiam tornozeleiras metálicas, etiquetas plásticas e transmissores de rádio a aves de três espécies. Os animais foram pesados, medidos e soltos.

A operação faz parte de uma "captura" anual de aves oceânicas migratórias que chegam às praias da Baía de Delaware, um habitat de importância global para pássaros que se alimentam dos ovos de caranguejo-ferradura. A parada fortalece as aves para a migração até o Ártico canadense, onde se reproduzem, vindas de lugares tão distantes quanto o sul do Chile.

Com informações atualizadas a respeito do peso e estado de saúde das aves, os cientistas poderão avaliar se essas espécies estão se alimentando o suficiente para chegar ao seu local de reprodução, e se a sua população está estável. Uma delas, o maçarico-de-papo-vermelho, é listada entre as espécies ameaçadas. De acordo com os cientistas, o declínio decorre da pesca exagerada do caranguejo-ferradura, usado como isca na pesca comercial. O crustáceo também é procurado por seu sangue, que contém um extrato usado pela indústria biomédica para detectar bactérias.

Os preservacionistas estão renovando os apelos para que a indústria pesqueira adote outro tipo de isca, tentando também persuadir a indústria biomédica a usar um extrato sintético para reduzir a pressão sobre a população de caranguejos-ferradura.

Os defensores da proibição à pesca do caranguejo dizem que esta possibilitaria que a população desse animal se recuperasse, pois é essencial não apenas para as aves, mas também para espécies marinhas já ameaçadas que se alimentam do crustáceo.

"Não se trata apenas das aves", disse David Mizrahi, vice-presidente de pesquisa e monitoramento da New Jersey Audubon. "É algo que afeta todo o ecossistema".

Em se tratando da população de maçaricos, o maior declínio foi observado nos animais que migram longas distâncias e passam o inverno do hemisfério norte no sul do Chile. Essa população era formada por 9.840 aves em 2018, queda de 25% ao longo do ano anterior. Os cientistas dizem que essas aves são especialmente sensíveis a uma escassez de ovos de caranguejo-ferradura nas praias porque chegam exauridas da América do Sul.

Na indústria biomédica, a substituição pelo extrato sintético é comandada pela empresa farmacêutica Eli Lilly, que planeja chegar a 90% de substituição até o fim de 2020. De acordo com a empresa, a alternativa sintética tem custo e eficiência comparáveis ao extrato do sangue do caranguejo.

Os preservacionistas dizem que uma queda acentuada no número de ovos de caranguejo mostra que as cotas de pesca não serviram para restaurar a população desses animais. A densidade média de ovos observada em cinco praias de Nova Jersey em 2017 teve queda de mais de 93% desde 1991, de acordo com a New Jersey Audubon.

Mas a Comissão de Áreas de Pesca dos Estados Atlânticos afirma que suas cotas para a captura de caranguejos destinados a serem usados como isca ajudaram a estabilizar a população de aves oceânicas, e começam a resultar em um maior número de caranguejos fêmeas na baía.

O número de fêmeas maduras aumentou de 5,4 milhões em 2011 para 7,8 milhões em 2017, antes de o sistema de cotas ser implementado, segundo dados da comissão. Para as autoridades, isso indica que a cota atual está funcionando.

"Não sei ao certo o que mais a comissão poderia fazer em termos de limitar a pesca, além de proibir a pesca de fêmeas", disse Mike Schmidtke, coordenador de planejamento administrativo das áreas de pesca. A comissão estima que a população de maçaricos se mantenha entre 43 mil e 49 mil animais desde 2011, com base em um método estatístico que difere daquele usado pelos preservacionistas.

Esse número está muito abaixo dos 81.900 a partir dos quais a comissão consideraria suspender a proibição à pesca de caranguejos fêmea, mas, ao menos, está estável, segundo Schmidtke.

O biólogo independente Larry Niles, que comandou a captura anual de aves oceânicas do lado da baía localizado em Nova Jersey nos 23 anos mais recentes, descreveu como "bobagem completa" a afirmação de Schmidtke segundo a qual não haveria mais nada que a comissão pudesse fazer para aumentar o número de ovos de caranguejo nas praias. Niles também disse que a afirmação da comissão segundo a qual o número de fêmeas de caranguejo-ferradura estaria aumentando não encontra respaldo no número de ovos de caranguejo-ferradura.

"Se houvesse um aumento, isso se traduziria em uma maior densidade de ovos", explicou. / TARDUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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