Meghan Dhaliwal para The New York Times
Meghan Dhaliwal para The New York Times
Natalie Schachar, The New York Yimes

15 de outubro de 2018 | 06h00

RIO LAGARTOS, MÉXICO - Não se trata de uma criatura glamourosa. O pepino-do-mar, um parente da estrela-do-mar e do ouriço-do-mar, não é muito mais do que uma bolha que se arrasta pelo fundo do oceano sobre pés em forma de tentáculos, se alimentando de algas e plâncton. A maior curiosidade a respeito do animal pode ser o fato de algumas espécies se defenderem ejetando tecidos do sistema respiratório pelo ânus na direção daquilo que as ameaça.

Mas, aqui na Península de Yucatán, o pepino-do-mar se tornou tão cobiçado que as populações de duas espécies que locais - Isostichopus badionotus e Holothuria floridana - tiveram queda drástica. 

Nas duas semanas da temporada de pesca de abril deste ano, os pescadores de Rio Largos coletaram 14 toneladas de pepinos-do-mar - uma queda acentuada em relação às 260 toneladas recolhidas quatro anos atrás.

O declínio é em grande parte decorrência da pesca excessiva ocasionada pela alta demanda na Ásia, onde pepinos-do-mar secos são consumidos como uma iguaria, vendidos a até US$ 660 o quilo. Diz-se que os pepinos-do-mar impedem o envelhecimento dos músculos, fortalecem o sistema imunológico e servem como tratamento para fadiga e artrite.

Pelo menos 16 espécies de pepinos-do-mar em todo o mundo estão ameaçadas de extinção por causa da pesca intensa, de acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza. Outras sete estão ameaçadas, e nove, vulneráveis.

Pesquisadores afirmam que números menores de pepinos-do-mar podem levar a uma diminuição na reciclagem de nutrientes e na biodiversidade do fundo do mar - e até à interrupção da cadeia alimentar.

"Em um intervalo de dois anos, essa criatura passou de mero verme no fundo do mar, totalmente ignorado por mergulhadores, para algo que eles passaram a chamar de 'ouro negro'", afirmou Abigail Bennett, coautora de um artigo sobre o comércio de  pepinos-do-mar para a revista científica World Development. 

Ela e outros pesquisadores rastreiam a exploração dos pepinos-do-mar em Yucatán desde 2012. Com compressores de ar fabricados a partir de motores de seis cavalos de potência e barris de cerveja, os mergulhadores começaram a vasculhar o leito do oceano.

Para manter o fluxo do dinheiro, eles também assumiram riscos. Pelo menos 40 mergulhadores morreram em Yucatán após ascender à superfície rápido demais ou por permanecer muito tempo embaixo d'água.

Centenas de outros tiveram de receber tratamento para doença de descompressão - conhecida como "DD"- e outros males relacionados ao mergulho.

"Atendi a vários deles", afirmou o médico Juan Tec, que trabalha no hospital público de Tizmín. Alguns dias, segundo ele, os pacientes se esparramavam pelo chão enquanto esperavam sua vez em uma das três camas da câmara hiperbárica da unidade de saúde. Outros eram postos para dentro apressadamente, por correr risco de morte.

"Você perde a noção de tempo", afirmou o pescador Angel Gamboa, que sofreu compressão da medula após passar cerca de três horas catando pepinos-do-mar. "Isso nunca passou pela minha cabeça".

Nos últimos anos, regulamentações limitaram o período de pesca de pepinos-do-mar a 14 dias, estabelecendo cotas de 250 quilos para cada barco.

Em razão da pouca fiscalização e da baixa aplicação da lei, porém, os pepinos-do-mar não têm tempo de se reproduzir, o que ocasionou um declínio quase total nas populações.

"Podíamos perceber o que estava acontecendo por causa do comportamento da pesca, mas não podíamos impedir isso completamente", afirmou Alicia Poot-Salazar, investigadora que recomenda cotas de pesca para a Comissão Nacional de Aquacultura e Pesca do México.

Os sistemas de aplicação da lei deveriam ser melhores, segundo ela. A comissão também emitiu muito poucas autorizações de pesca, deixando pouco incentivo para que equipes de pescadores sem autorização seguissem a lei.

Em abril, Alicia afirmou que 594 barcos obtiveram permissão para pescar pepinos-do-mar - em meio a uma população de aproximadamente 10 mil pescadores em Yucatán.

Na cidade de Rio Lagartos, praticamente não havia pepinos-do-mar para pescar este ano. E, de acordo com Tec, nenhum pescador morreu.

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