Ben C. Solomon para The New York Times
Ben C. Solomon para The New York Times

Pesca ilegal dizima toda uma cadeia alimentar nas Filipinas

A biodiversidade marinha das Filipinas é ameaçada pelo uso de explosivos para pesca

Aurora Almendral, The New York Times

23 de junho de 2018 | 10h15

BOHOL, FILIPINAS - O pescador em seu barco estreito, neste grande arquipélago das Filipinas centrais, balançou e atirou uma bomba caseira no mar. Ela explodiu, sacudindo a embarcação. Os peixes subiram para a superfície, mortos ou prestes a morrer, procurando desesperadamente respirar.

Embaixo da água, os corais se despedaçaram e viraram escombros. A explosão rompeu os órgãos internos dos peixes do recife, fraturou suas espinhas ou rasgou sua carne com fragmentos de coral. Desde o plâncton microscópico até os cavalos marinhos, anêmonas e tubarões, poucos seres sobrevivem num raio de 10 a 30 metros de uma explosão.

Com 27 mil quilômetros quadrados de recifes coralinos, as Filipinas são um reservatório da biodiversidade marinha. Mas à medida que os efeitos das mudanças climáticas nos oceanos se tornam mais agudos, acabar com a dinamite e outros tipos de pesca ilegal é uma medida de extrema urgência. Segundo as primeiras revelações de uma pesquisa realizada nos recifes de corais nas Filipinas, de 2015 a 2017, já não existem corais em condições excelentes, e 90% foram classificados em situação ruim ou razoável.

“É uma coisa desalentadora”, afirmou Porfírio Alino, professor especialista em corais do Instituto das Ciências Marinhas da Universidade das Filipinas. Os efeitos das mudanças do clima - o aquecimento das águas e a acidificação que provocam a morte de alguns recifes - são difíceis de solucionar. Mas se fosse possível deter o estresse causado pela atividade humana, segundo Alino, os recifes teriam mais chances de sobreviver.

As explosões usadas para facilitar a pesca matam toda a cadeia alimentar: plâncton, peixes grandes e pequenos e filhotes que não chegam a crescer o suficiente para se reproduzir. Sem corais saudáveis, o ecossistema e os peixes que o habitam começam a morrer. Pescadores de Bohol que utilizam dinamite permitiram o acesso de jornalistas do “New York Times” com a condição de que seus nomes e os locais de pesca não fossem revelados.

Com uma mangueira de borracha entre os dentes, um dos pescadores mergulhou até dez metros de profundidade depois que a bomba explodiu. No leito do oceano, pegou peixes atordoados ou mortos entre os corais destruídos. Vinte minutos mais tarde, voltou à superfície com cinco peixes de recife de grande valor e pouco mais de cinco quilogramas de peixes gordos e sardinhas.

Pouca coisa. Os homens do barco guardaram uns punhados deles para as famílias e venderam o restante para um comerciante local. Os ganhos, cerca de US$ 10, foram divididos entre os dois.

O pescador afirma que é o único emprego que eles conhecem que permite ganhar essa quantia. Para os pescadores legais que utilizam rede, três quilos de peixe é o que conseguem em um dia bom. Com a dinamite, ele pode voltar com nove quilos de peixes, e às vezes até 20, quando consegue pegar um jack, um peixe jumbo, ou uma garoupa.

De volta à ilha, um deles cortou em pedacinhos alguns centímetros de pavio, embrulhou-o em um pedaço de alumínio e prendeu-o a um fósforo para servir de detonador. Puseram areia no fundo de uma garrafa de vidro e a encheram de explosivos. O pavio, ele explicou, dá a ele apenas quatro segundos para atirar a bomba antes que exploda. Uma bomba malfeita ou um pescador distraído pode ser fatal. Alguns nas ilhas morreram ou ficaram aleijados.

Em 2014, a União Europeia avisou as Filipinas que o país seria impedido de exportar para o bloco caso suas atividades pesqueiras não fossem regulamentadas. As Filipinas redigiram um novo código de pesca.

Gloria Ramos, vice-presidente da Oceana Philippines, um grupo não governamental que trabalha para a conservação dos oceanos, disse que a nova legislação é forte, mas não está sendo adequadamente implementada. Apesar dos sinais de que a pesca nas Filipinas está em colapso, segundo Gloria, “não há a sensação de tanta urgência”.

Em uma das ilhas de Bohol, Jaime Abenido, um pescador de 68 anos de cabelos grisalhos, disse que 30 anos atrás ele ia para o alto-mar para pescar com a linha e enchia o um barco “até quase afundar”. Hoje, há muito menos peixes, afirmou, e os que restam são pequenos. Entretanto, Abenido não acredita no perigo de o peixe acabar.

Segundo um relatório do conselho nacional de estatística das Filipinas, em 1970 a pesca diária chegava em média a produzir 20 quilos. Em 2000, esta quantidade caiu para dois quilos. Naqueles anos, o declínio dos cardumes de peixes fez um número maior de pessoas optar pela pesca ilegal.

Roberto Rosales, coordenador local do gerenciamento dos recursos costeiros da cidade de Bien Unido, em Bohol, admitiu que atualmente tem apenas quatro barcos lentos para patrulhar 525 km² quadrados de mar. “As distâncias são muito grandes”, comentou.

O pescador com que usou dinamites disse que não acredita que seja esta a razão pela qual há menos peixes. Seus pais usavam este método antes dele, e ainda há peixes. Ele afirma que se os cientistas estivessem certos e os oceanos ficassem sem peixes, os pescadores morreriam. Mas ele não acredita que isso venha a acontecer.

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