Andrew Testa para The New York Times
Andrew Testa para The New York Times

Pescadores são iludidos pelo Brexit

Muitos moradores de Grimsby, na Inglaterra, imaginavam que o Brexit ajudaria a cidade a reviver sua indústria pesqueira

David Segal, The New York Times

13 Maio 2018 | 10h30

GRIMSBY, INGLATERRA - Não restam muitos pescadores nesta cidade no nordeste da Inglaterra que já abrigou uma das maiores frotas pesqueiras da Grã-Bretanha, com cerca de 500 traineiras. Mas a nostalgia da indústria pesqueira permeia o lugar. Então, não foi surpresa quando 70% dos moradores votaram pela saída da União Europeia. Há anos os pescadores britânicos se queixam das regulamentações impostas a todos os membros.

A surpresa só veio mais tarde, quando um grupo de empresários locais começou a fazer campanha para evitar as tarifas alfandegárias e os outros encargos decorrentes da saída da União. Logo veio o escárnio nas redes sociais. Em milhares de tuítes de todo o país, o povo de Grimsby foi ridicularizado, chamado de idiota e hipócrita. Ou eles achavam que teriam as vantagens do Brexit sem custo algum, ou só entenderam as desvantagens da saída quando já era tarde demais.

“Moradores de Grimsby são chamados de idiotas por terem votado pelo Brexit agora que a indústria de frutos do mar busca um acordo de livre comércio”, dizia a manchete de um jornal local.

O voto para sair da União Europeia ilustra o modo como as emoções podem mudar a política e afetar a economia - e como a nostalgia de uma indústria em declínio muitas vezes ofusca os interesses de empresas novas e em expansão.

“Algumas indústrias que são economicamente insignificantes têm enorme ressonância pública”, disse Bronwen Maddox, diretor do Institute for Government, um centro de pesquisas independente de Londres. “E, por causa disso, elas têm uma influência política desproporcional”.

Não são os pescadores que estão pressionando por um tipo de isenção do Brexit. É um grupo de processadores de peixe, uma indústria que está prosperando em Grimsby, onde peixes de todo o mundo são destripados, embalados e vendidos para atacadistas. Esta cidade de cerca de 88 mil habitantes é um polo de uma cadeia de suprimentos global.

“Não pescamos aqui há 25 anos”, disse Simon Dwyer, que lidera a Seafood Grimsby & Humber Group, organização que defende um acordo especial de livre comércio. “Nós nos reinventamos”.

As docas, tão movimentadas no passado, hoje estariam desertas se não fossem 70 galpões de processamento, com 5 mil funcionários, dos quais cerca de um terço são estrangeiros, principalmente poloneses e lituanos. Para se manterem competitivas, essas empresas querem a política de comércio e imigração sem restrições de que desfrutam atualmente - e que provavelmente perderão em breve, depois do Brexit.

O objetivo dos pescadores, por outro lado, é recuperar o controle das águas britânicas, para que não sejam forçados a competir com os barcos de outros países. O primeiro problema com esse sonho é a escassez de pescadores locais.

“Acho que não tem mais que 20”, disse John Hancock, que foi capitão por três décadas e é fã do Brexit. “E a maioria está se aposentando ou morrendo”.

Então, como uma indústria cada vez menor derrotou uma indústria grande e próspera na votação?

“Esta é uma nação marítima”, disse Martyn Boyers, diretor-executivo da Grimsby Fish Market. “Pense na Marinha Real, em Nelson, em Trafalgar. E toda cidade tem gente que morreu no mar. Então, quando os pescadores disseram ‘queremos sair da União Europeia’, todos quiseram apoiá-los”.

O Brexit passou por uma complexa variedade de questões em Grimsby e em outros lugares, incluindo temores quanto à imigração e à perda da soberania e de um modo de vida. Todos esses fatores tiveram um papel importante aqui e privilegiaram uma indústria moribunda em detrimento de uma que está crescendo.

“Hoje em dia, você não consegue levar os jovens para pescar”, explicou Danny Normandale, capitão com três décadas de experiência. “Se disser a eles: ‘você pode trabalhar comigo, se estiver disposto a aprender’, a próxima pergunta deles é: ‘tem Wi-Fi no barco? Tem internet?’”.

Mesmo que o problema de mão de obra fosse resolvido, outros problemas iriam continuar. As espécies das águas da Grã-Bretanha são vieiras, caranguejos, lagostas e outras iguarias que nunca foram populares neste país. Aqui, o peixe predileto é o bacalhau e a arinca, fundamentais nas vendas do tradicional peixe com batata frita. Essas espécies são encontradas mais próximas da Noruega e da Islândia.

Em outras palavras, a Grã-Bretanha exporta a maior parte do que pesca e importa a maior parte do que come. Ou o país muda de apetite ou vai ter de negociar.

Hancock, o ex-capitão, não se intimida. No corredor de seu escritório, um pôster mostra um bacalhau vestindo armadura e segurando uma bandeira do Reino Unido. Logo acima, as palavras “Pescando para Sair” [da União Europeia] e, abaixo, “Salve o peixe da Grã-Bretanha”, palavras de ordem da campanha do Brexit.

“Tivemos que dar espaço para deixar todos os outros países virem pescar nas nossas águas”, contou ele. “É como uma fatia de bolo que foi ficando cada vez mais fina. Isso destruiu comunidades inteiras, em todo o país”.

Ele acredita que, com investimento suficiente e os incentivos certos, as frotas britânicas poderiam pescar até US$ 5 bilhões por ano, cinco vezes o volume atual.

Isso não passa de fantasia, segundo Boyers, cuja empresa administra o leilão diário de peixe na cidade. Para ele, os peixes são uma mercadoria internacional, e o fim da supervisão europeia não significaria o fim das cotas. Essas cotas são estabelecidas em consultas com cientistas, para evitar o colapso dos estoques. Quebrar esses acordos iria enfurecer diversas instituições, começando pelas Nações Unidas.

“Depois do Brexit, nosso governo não estará em condições de criar mais peixes”, disse Boyers. “Somos todos engrenagens de um mesmo mecanismo. Se você não se integrar, não chegará a lugar algum”.

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