Arianne P. Oria via The New York Times
Arianne P. Oria via The New York Times

Ela não faz os animais chorarem, mas coleta suas lágrimas

Os cientistas esperam que a pesquisa ajude a resolver os problemas de visão humana

Katherine J. Wu, The New York Times - Life/Style

29 de agosto de 2020 | 05h00

Arianne Pontes Oriá afirma: seu trabalho não é fazer os animais chorarem. Tecnicamente, apenas os humanos conseguem chorar em resposta a um estado emocional, disse Oriá, veterinária da Universidade Federal da Bahia. Para os humanos, chorar é uma maneira manifestar fisicamente os sentimentos, os quais são difíceis de estudar e confirmar em outras criaturas.

Mas Oriá coleta as lágrimas dos animais – o líquido que mantém os olhos limpos e irrigados. Nos vertebrados, os animais que têm coluna vertebral, as lágrimas são vitais para a visão, disse Oriá. Apesar disso, esses fluidos cativantes têm recebido pouca ou nenhuma atenção, exceto em alguns poucos mamíferos.

“Não damos muita bola para a visão até que ela seja um problema”, disse Sebastian Echeverri, biólogo que estuda visão animal, mas não trabalha com a equipe de Oriá. “Só percebemos as lágrimas quando elas estão em falta”. É uma pena, disse Oriá. Porque, seja de cães, papagaios ou tartarugas, o material que sai dos olhos dos animais é simplesmente “fascinante”, disse ela.

Como ela e seus colegas relataram numa série de artigos recentes, entre eles um publicado na quinta-feira na revista Frontiers in Veterinary Science, as lágrimas podem ser grandes equalizadores: em vários ramos da árvore da vida, os vertebrados parecem se valer de um mecanismo parecido envolver seus olhos com fluido. Mas, para ajudá-los a lidar com os desafios de ambientes variados, a evolução adaptou as lágrimas das criaturas do mundo de maneiras que os cientistas estão só começando a explorar. Pesquisas como a de Oriá podem oferecer um vislumbre dos inúmeros caminhos que os olhos percorreram para maximizar a saúde e o bem-estar dos organismos que os utilizam.

Dada a frequência com que os problemas oculares podem afetar humanos e outros animais, há “muito a aprender com essas adaptações”, disse Sara Thomasy, oftalmologista veterinária da Universidade da Califórnia, em Davis, que não esteve envolvida nos estudos de Oriá.

Oriá começou sua pesquisa estudando as lágrimas dos jacarés, que têm “uma superfície ocular muito curiosa”, disse ela. Enquanto os humanos piscam cerca de quinze vezes por minuto, o que ajuda a espalhar as lágrimas recém-espremidas sobre a córnea, os jacarés podem passar cerca de duas horas sem bater as pálpebras (das quais eles têm três). Mas seus olhos não secam.

“A gente começou a pensar: ‘Que tipo de molécula dá estabilidade a essas películas lacrimais?’. É uma coisa incrível”, disse Oriá. A resposta, acrescentou ela, pode ajudar no desenvolvimento de tratamentos para olhos secos e outros problemas oftálmicos nas pessoas.

Nos anos que se seguiram, a lista de doadores de lágrimas de sua equipe se expandiu para abranger outros répteis, como cágados e tartarugas, além de águias, papagaios, corujas e outras aves. (Oriá e seus colegas também incluíram mamíferos, como humanos, cães e cavalos, para fins de comparação).

Em todos os animais, o processo de coleta é basicamente o mesmo: durante um exame veterinário de rotina, o pesquisador prende delicadamente a criatura, espera até ela relaxe e então enxuga cuidadosamente seu olho com uma tira de papel absorvente. Nem sempre é fácil. Os pesquisadores precisam tomar um cuidado redobrado para serem gentis com os animais, que nem sempre derramam tantas lágrimas quanto eles gostariam. Algumas espécies ficam mais nervosas que os humanos nos exames de vista. Ao que parece, as araras “odeiam ser presas depois do almoço”, disse Oriá.

Mas todo o processo ocorre da melhor maneira possível para os pacientes. Quaisquer que sejam as lágrimas que estejam dispostos a oferecer, Oriá disse, “nós respeitamos, mesmo que seja só uma pequena quantidade”. O problema não termina com a coleta. Um dos projetos mais recentes de seu grupo precisou transportar lágrimas de mais de cem jacarés do Brasil para o laboratório de um colaborador na Universidade da Califórnia. Perplexos com o conteúdo, os agentes da alfândega atrasaram o transporte do pacote. As amostras se degradaram à temperatura ambiente e Oriá e sua equipe tiveram de reiniciar o processo de coleta. As coisas funcionaram melhor na segunda vez, disse ela.

Ainda não está totalmente claro o que é responsável pelo poder de permanência das lágrimas do jacaré. Mas a equipe de Oriá obteve algumas pistas nos padrões de cristal que os líquidos deixam para trás depois de secar, cada um tão único quanto um floco de neve. Quando visualizados num microscópio, esses padrões diferem muito de uma espécie para outra.

“É uma das coisas mais bonitas que já vi”, disse Oriá. As lágrimas secas dos jacarés, acrescentou ela, formam treliças mais grossas do que as de alguns outros animais, o que provavelmente as torna mais estáveis.

Em geral, porém, a receita química para as lágrimas – uma pasta de água de gorduras, proteínas e minerais como o sódio – parece ser bastante semelhante em várias espécies. As poucas variações que existem parecem acompanhar o habitat, descobriram os pesquisadores. Animais que passam a maior parte do tempo em terra, por exemplo, têm mais proteínas nas lágrimas do que seus colegas da água, mas também têm menos ureia – um produto residual que também é encontrado na urina.

A equipe de Oriá também encontrou semelhanças químicas entre as lágrimas de cachorros, cavalos e humanos, todas as quais parecem fluir livremente. Talvez seja uma coisa de mamífero, disse Oriá. Mas talvez a domesticação, que gerou uma grande mudança de cenário para esses animais selvagens, também tenha mudado alguma coisa em suas lágrimas.

Que os arredores de um animal influenciam fortemente a composição das lágrimas, as quais são constantemente expostas ao mundo exterior, “faz muito sentido”, disse Echeverri. “A maioria de nossos outros líquidos são resíduos dos quais nos livramos. As lágrimas têm de lidar com o meio ambiente de momento a momento” (mas as lágrimas não são universais, observou Echeverri.

Os invertebrados, que têm planos corporais muito diferentes, tiveram de inventar métodos sem lágrimas para manter os olhos limpos. Algumas aranhas, por exemplo, usam pelos semelhantes às cerdas das pernas para limpar a poeira e os detritos). / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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