Baranska et al., 2018
Baranska et al., 2018

Pesquisa celular revela como as tatuagens se tornam permanentes

Cientistas descobriram que um tipo de célula imunológica desempenha um papel fundamental em fazer tatuagens durarem mais ou menos

Steph Yin, The New York Times

26 Março 2018 | 10h00

Nós pensamos que as tatuagens são adornos fixos. E que a tinta usada em nossa pele ficará ali suspensa no subterrâneo do tecido conjuntivo para sempre. Mas e se, na verdade, as tatuagens forem mantidas por um processo de constante mudança - no qual os cristais de tinta são continuamente engolidos, regurgitados e devorados novamente, apenas dando essa ilusão de imobilidade?

Isso é o que cientistas franceses observaram a partir de um estudo em camundongos tatuados. Em seu modelo de persistência de tatuagem, macrófagos - células imunes que ingerem detritos estranhos ou não saudáveis no corpo - desempenham um papel: focar nessas células pode ajudar a melhorar os processos de remoção de tatuagens para as pessoas.

À medida que recebemos uma tatuagem, macrófagos descem para capturar a tinta invasora. Como os grânulos de tinta são volumosos demais para os macrófagos destruí-los, eles seguram o pigmento.

Com o tempo, esses macrófagos originais morrem e liberam os pigmentos, que são aspirados por novos macrófagos, iniciando o ciclo mais uma vez, disse Sanfrine Henri, pesquisadora do Centro de Imunologia de Marseille-Luminy, que chefia o estudo com seu colega Bernard Malissen.

Essa pesquisa “mostra que as tatuagens são, de fato, muito mais dinâmicas do que se acreditava anteriormente”, disse Johann Gudjonsson, professor da Universidade de Michigan, que não está envolvido no estudo.

Durante anos, pesquisadores suspeitaram que as tatuagens funcionassem pela permanente coloração dos fibroblastos, as células que sintetizam colágeno, sob a superfície da pele. Então, olhando biópsias de tatuagens sob o microscópio, cientistas viram macrófagos carregados de glóbulos de tinta, e a história das tatuagens tornou-se uma do sistema imunológico. Ainda assim, pensava-se que os macrófagos conectados aos pigmentos eram estáveis e de vida longa, dando às tatuagens sua permanência. O que este estudo sugere é que, ao menos em camundongos, esses macrófagos são constantemente substituídos.

Os pesquisadores estavam examinando células da pele de camundongos pretos para outro projeto quando notaram macrófagos vasculhando a melanina liberada pela morte de células produtoras de pigmento. Eles se perguntaram se o mesmo processo acontecia em tatuagens.

Tatuando listras verdes nas caudas de camundongos albinos (por meio de agulhas), os imunologistas confirmaram que os macrófagos capturaram a tinta. Quando eles mataram seletivamente os macrófagos, as tatuagens nas caudas permaneceram inalteradas; e novos macrófagos tinham se aproximado e sorvido os pigmentos liberados.

Em seguida, a equipe transplantou a pele tatuada de um camundongo para outro. Após seis semanas, a maioria dos macrófagos carregados de tinta no enxerto era do camundongo receptor, não do doador - evidência de que os macrófagos tinham passado por um ciclo de renovação.

Os autores especulam que o direcionamento em macrófagos pode aprimorar a remoção de tatuagens com laser, que pode ter até 20 sessões de duração.

Jared Jagdeo, dermatologista da Universidade da Califórnia, em Davis, também se questionou se os macrófagos impedem a remoção de tatuagens reabsorvendo partículas de tinta atingidas pelo laser. Desde 2014, ele realiza um procedimento para remoção de tatuagens que usa pomada anti-inflamatória para suprimir macrófagos.

"Isso faz a diferença", disse ele, observando que muitas vezes remove tatuagens em dez ou menos sessões.

Mas Nicholas Golda, dermatologista da faculdade de medicina da Universidade do Missouri, sugeriu outras abordagens que podem ser mais simples e mais eficazes. Outros tentaram promover pigmentos para tatuagem que são destruídas pelo laser mais facilmente, contudo, isso não pegou porque “os tatuadores não estavam interessados em facilitar o trabalho daqueles que removem suas artes”, explicou.

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