Oliver Santana/Editorial Raíces
Oliver Santana/Editorial Raíces

Pesquisa com turquesas pode solucionar mistérios sobre a cultura mesoamericana

Uma análise geoquímica questiona o suposto contato entre as culturas do sudoeste americano e mesoamericana antes da invasão espanhola no século 16

Nicholas St. Fleur, The New York Times

30 de junho de 2018 | 11h00

Em suas brilhantes tonalidades azuis e verdes, a turquesa era uma gema extremamente valorizada pelos antigos astecas e mixtecas na região que se estende do México central até a América central, território conhecido como Mesoamérica.

Os astecas usavam o mineral para criar braçadeiras e tampões para o nariz, para os cabos das facas utilizadas em sacrifícios e também em elaborados mosaicos de guerreiros que adornavam seus escudos cerimoniais, bem como em estátuas apavorantes de serpentes de duas cabeças.

Há mais de um século, arqueólogos questionam as origens destas turquesas. Como os cientistas descobriram poucas evidências de sua mineração na Mesoamérica, alguns pesquisadores usaram a presença de artefatos produzidos com o mineral como prova da existência de um intercâmbio com antigas civilizações a milhares de quilômetros de distância, no sudoeste americano, onde foram encontradas minas de turquesa.

Entretanto, uma recente análise geoquímica da turquesa asteca e mixteca sugere que ela não é originária do sudoeste americano, e sim da Mesoamérica. A descoberta, publicada na revista “Science Advances”, também questiona a ideia de que tenha havido um amplo contato entre essas culturas antes da invasão espanhola, no século 16.

Alyson Thibodeau, uma química do Dickinson College da Pensilvânia e principal autora do estudo, teve acesso a uma quantidade de peças de turquesa que foram associadas a mosaicos mesoamericanos. Muitas haviam sido escavadas com oferendas no Templo Mayor, o mais importante da antiga cidade asteca de Tenochititlán, atual Cidade do México. As peças datam principalmente do final do século 16. Algumas das amostras vieram de peças avulsas associadas a mosaicos de estilo mixteca do Smithsonian Institute, nas coleções do Museu Nacional do Indígena Americano.

Depois de limpar as bordas das peças para retirar a substância aderente, Alyson Thibodeau moeu uma de cada vez e as dissolveu em ácido. Então analisou as amostras por suas impressões digitais isotópicas, que proporcionaram uma indicação de suas origens.

“Elas não somente têm assinaturas isotópicas absolutamente coerentes com a geologia da Mesoamérica”, afirmou, “como são completamente diferentes das assinaturas isotópicas dos depósitos e dos artefatos de turquesa do sudoeste que vimos até agora”.

A especialista também disse que embora os arqueólogos não tenham encontrado remanescentes de minas de turquesa na Mesoamérica, isso não significa que elas não tenham existido nesse lugar. As turquesas raramente se formam perto da superfície como produto da erosão do cobre, causada tipicamente pela água da chuva ou pela água do solo. Na Mesoamérica há inúmeras minas de cobre, o que, segundo Alyson, sugere que é possível que depósitos de turquesa também estivessem presentes ali.

“A evidência sugere cada vez mais que não houve um contato organizado entre os mesoamericanos e os habitantes do sudoeste americano”, explicou David Killick, antropólogo da Universidade de Arizona e coautor do estudo.

Mais conteúdo sobre:
ciênciaAmérica [continente]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.