The Clever Dog Lab University of Veterinary Medicine, Vienna/The New York Times
The Clever Dog Lab University of Veterinary Medicine, Vienna/The New York Times

Pesquisa indica que personalidades dos cães mudam e 'amolecem' com o tempo

As maneiras como os cães crescem e envelhecem podem oferecer similaridades potencialmente úteis com os processos humanos

James Gorman, The New York Times - Life/Style

24 de dezembro de 2020 | 05h00

Os cães vencem etapas em suas vidas do mesmo modo que as pessoas, como é óbvio para quem observa seu próprio companheiro já velho, com as pernas enrijecidas e o pelo esbranquiçado, quando se levantar para fazer um passeio. Poetas, de Homero a Pablo Neruda, observaram isto, como também cantores de música folk e escritores.

Agora é a vez da ciência, na esperança de que a pesquisa sobre como os cães crescem e ficam velhinhos possa ajudar a compreender como os humanos envelhecem. E como os poetas, os cientistas estão encontrando paralelos entre as duas espécies.

Pesquisas até agora mostram que os cães são similares a nós em aspectos importantes, como a maneira como agem durante a adolescência e a velhice, e o que ocorre no seu DNA quando ficam mais velhos. Eles seriam o que os cientistas chamam de “modelo” do envelhecimento humano, uma espécie que podemos estudar para saber mais como envelhecemos e como envelhecer melhor. Mais recentemente, pesquisadores em Viena descobriram que a personalidade do cão muda com o tempo.

E parece que ela suaviza da mesma maneira que observamos em muitos humanos. A parte mais intrigante do estudo é que, como as pessoas, alguns cães simplesmente já nascem velhos, ou seja, relativamente estáveis e maduros. Cães estudados em Viena eram Border Collies, de modo que fico surpreso ao saber que algum deles seja um cão maduro, ou seja, um cão tranquilo, disposto a inclinar a cabeça e a meditar, o que não se ajusta bem a essa raça, com seu desejo desesperado de estar constantemente caçando gansos, crianças ou frisbees.

Outro estudo recente chegou à conclusão perturbadora de que o cálculo de sete anos de um cão equivalente a um ano do ser humano não é preciso. Para calcular a idade de um cão agora temos de multiplicar o logaritmo natural da idade dele em anos humanos por 16 e depois adicionar 31.

Na verdade, não é tão difícil como parece, desde que você possua uma calculadora e acesso à internet. Por exemplo, o logaritmo natural de 6 é 1,8, que multiplicado por 16 é 29 e, somando 31, é 60. OK, não é tão fácil, mesmo com a internet. Os pesquisadores compararam um Golden Retriever velho a um Tom Hanks idoso.

Usaram um laboratório por causa do tipo de cão que estudaram. E usaram Tom Hanks porque, bem, todo mundo conhece Tom Hanks. Para muitos de nós, claro, não é prazeroso ver um cão envelhecer, mas ver uma celebridade querida sujeita à irresistível marcha do tempo é de algum modo tranquilizador. E, talvez no futuro, a fama consiga comprar a imortalidade, mas não agora.

Talvez não deva tratar de modo irreverente esses projetos de pesquisa. Constituem um trabalho inovador e têm potencial para se chegar a conclusões importantes. É o caso, por exemplo, do estudo com logaritmos naturais. Para chegar a essas conclusões os pesquisadores buscaram padrões de mudanças químicas no DNA, um processo chamado metilação, que não altera a sequência original da molécula. Testes em laboratório podem dizer o quão velho é um humano a partir do padrão de metilação.

Graças a esta pesquisa, o mesmo tem sido feito no caso dos cães. Os resultados ajudarão os pesquisadores a estudar o envelhecimento deles e transferir as descobertas para os humanos. A pesquisa foi feita com cães num laboratório. E todos os cães no estudo de comparação foram labradores da raça Golden Retriever, e os proprietários deram permissão para retirada de amostras de sangue.

Os cientistas não estão seguros quanto a se o declínio físico observado no envelhecimento de cães e humanos, na verdade em todos os mamíferos, está relacionado ao processo de desenvolvimento nos primeiros anos de vida ou se esse declínio é um processo diferente. E concluíram que o padrão de metilação sugere que os mesmos genes podem estar envolvidos nos dois processos. Bons métodos de comparação de idades de cães e humanos são importantes.

Os cães são vistos cada vez mais como bons modelos do envelhecimento humano porque sofrem com a velhice da mesma maneira que os humanos. Como o Dog Aging Project, que vem coletando informações genéticas e outras de um vasto número de pets, explica em seu website, o objetivo da pesquisa é “uma vida mais longa e mais saudável para todos os cães – e humanos”. Como um ser humano que envelhece, não vou criticar esse enfoque.

Em 2018, o codiretor do projeto, Daniel E.L. Promislow, da universide de Washington, expôs as razões pelas quais os cães constituem o animal ideal em que o estudo do envelhecimento e os resultados obtidos ajudarão as pessoas. Basicamente, eles sofrem de doenças similares, como obesidade, artrite, hipotireoidismo e diabete.

“Não é tudo, mas quando imaginamos que um cão idoso anda de modo curioso pelas mesmas razões que nós (dói a perna) não estamos sendo antropomórficos. Elinor Karlsson do Broad Institute, descreveu a pesquisa em genômica e cães. “Uma das coisas que mais nos interessa é saber, em primeiro lugar, se existem coisas no DNA dos cães que levem realmente expliquem porque alguns deles vivem um tempo surpreendentemente longo. “Essas conclusões podem ser úteis para um envelhecimento saudável e mais longo das pessoas”.

Como testar a personalidade de um cão? Os Border Collies foram submetidos a muitos testes diferentes. Em um deles, um estranho entra na sala e acaricia o cão. Em outro, os proprietários colocam uma camiseta no seu pet. Um quinto dos proprietários admitiu ter feito isto antes, por conta própria, não para fins de pesquisa. Em outro teste, os proprietários balançam uma salsicha na frente do seu cão, mas longe do alcance dele, por um minuto. Não se preocupe, o teste foi aprovado por uma comissão de ética e os cães ficaram com a salsicha quando o teste acabou.

Os pesquisadores concluíram que os cães mudam à medida que ficam mais velhos, exatamente como as pessoas. Ficam menos ativos e menos inquietos. Mas um dos autores do estudo, a pesquisadora Borbalu Turcsan, da Universidade Eötvös Loránd, em Budapeste, observou que alguns não mudam muito. “Pessoas com personalidade mais amadurecida mudam menos com a idade. E descobrimos que ocorre o mesmo com os cães”, disse ela.

O final do envelhecimento naturalmente é o mesmo para cães e humanos. Só que no caso dos cães ele é mais rápido. O que torna o cão “um bom modelo para a questão do envelhecimento e da mortalidade dos humanos”, escreveu Promislow. “Os cães envelhecem muito mais rápido do que as pessoas”, disse Karlsson do Broad Institute. “Portanto, se você estuda o envelhecimento com a ideia de ajudar as pessoas em sua vida útil, tem de estudar quem envelhece muito mais depressa do que elas. Vai aprender a respeito mais rápido do que aguardando 80 anos até uma pessoa morrer”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.