Chip Somodevilla/Getty Images North America
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Pesquisadores afirmam que identidade de gênero vem do cérebro, não do corpo

Esforços da administração Donald Trump para definir gênero desafiam conhecimento médico e científico

Denise Grady, The New York Times

30 de outubro de 2018 | 06h00

O governo de Donald Trump estuda uma abordagem da questão do gênero que a defina como uma condição imutável, determinada pela genitália no nascimento. Mas esta definição baseia-se em um conceito que os médicos e os cientistas abandonaram há muito tempo por considerá-lo frequentemente sem significado do ponto de vista médico.

Entretanto, não está tão claro o que determina exatamente a identidade de gênero - a consciência íntima que a pessoa tem de quem ela é.

“Nós sabemos que há um fundamento biológico significativo, duradouro, na identidade de gênero”, afirmou Joshua D. Safer, endocrinologista do Mount Sinai Health System de Nova York. “O que não conhecemos são todos os fatores biológicos em jogo que explicam a identidade de gênero. Pelo que nós, da comunidade médico-biológica tradicional, sabemos em 2018, é programado, é biológico, não é inteiramente hormonal, e nós não identificamos os genes, de modo que não podemos dizer especificamente que ele é genético”.

Entretanto, a genética desempenha um papel. Em estudos de gêmeos, se um é transgênero, é muito mais  provável que o outro também seja transgênero, se forem idênticos.

Os pesquisadores afirmam que a identidade de gênero vem do cérebro, não do corpo. Mas as forças que atuaram no cérebro para formar aquela identidade não são conhecidas.

Ser transgênero não é uma questão de escolha, afirma Safer. É uma percepção esmagadora de que o seu gênero não é o que consta na certidão de nascimento.

A aflição em razão desta discrepância pode tornar-se particularmente intensa na época da puberdade, e o risco de suicídios aumenta consideravelmente entre os jovens que se encontram nesta situação.

Deixando de lado as questões transgênero, outras condições deixam claro que definir o masculino e o feminino não é tão simples. Por exemplo, há pessoas com os cromossomos XY -  que as tornam geneticamente homens - que parecem, agem e sentem como mulheres, porque os seus corpos não podem reagir aos hormônios masculinos.

Em outros casos, algumas mulheres com uma condição que as expôs a níveis elevados de testosterona antes de o nascimento se identificam como homens - mas com muitas outras com a mesma condição, isto não acontece.

Algumas das evidências mais convincentes de que a identidade de gênero está conectada no cérebro vêm de pessoas que nasceram nos anos 50 e 60 com defeitos de nascença que envolvem sua genitália. Os médicos acharam que a solução humana, para poupar estas crianças de serem marginalizadas era realizar uma cirurgia que as tornava de um sexo ou de outro.

Como é mais fácil para os cirurgiões fazer uma vagina do que um pênis, a maioria destas crianças recebeu o sexo feminino. Seus pais foram alertados a criá-las como meninas. Sua convicção era que a sua criação as tornaria de fato femininas.

Estavam equivocados. À medida que cresceram e se tornavam adultas, muitas tinham a clara sensação de serem homens. De acordo com um estudo realizado com 16 delas, mais da metade acabou se identificando como homem.

“Considerando o fato de que é possível fazer uma limpeza cerebral em algumas pessoas no que se refere a qualquer coisa”, afirmou o dr. Safer, “ falhar com tantas é catastrófico”.

De todas as informações sobre identidade de gênero, ele disse que, para alguns médicos especialistas, os estudos destes casos fornecem a prova mais forte de que a identidade de gênero tem profundas raízes biológicas.

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