Lido Vizzutti para The New York Times
Lido Vizzutti para The New York Times

Pesquisadores analisam por que incêndios florestais se tornam devastadores

Cientistas americanos tentam desenvolver modelos que representem o comportamento do fogo

Jim Robbins, The New York Times

20 Agosto 2018 | 10h15

MISSOULA, MONTANA - Em um imenso galpão de metal, Mark Finney abre a portinhola de uma torre de vidro alta e transparente, despeja álcool sobre uma bandeja colocada no fundo da torre e a acende. Quando fecha a portinhola, um respiradouro suga o ar e, de repente, sobem espirais de chamas, uma estreita coluna de fogo com quase 4 metros de altura.

Na natureza, esses redemoinhos de fogo são imprevisíveis e perigosos. No final de julho, durante o implacável incêndio de Carr, na Califórnia, um redemoinho excepcionalmente poderoso gerou ventos de até 230 quilômetros por hora e ficou rodando por 90 minutos, lançando cinzas, detritos e chamas. Derrubou árvores, arrancou a casca de seus troncos e destruiu linhas de energia.

No Laboratório de Ciências do Fogo de Missoula, Finney e outros pesquisadores estão estudando os redemoinhos e as trilhas que as chamas descontroladas abrem no meio das florestas e pastagens do oeste dos Estados Unidos. Os cientistas estão correndo contra o tempo para alcançarem uma compreensão mais profunda dos efeitos combinados do clima mais quente com a morte das árvores que alimentam os incêndios florestais e com o desenvolvimento humano que invadiu a paisagem natural.

"A física de como os incêndios se comportam é misteriosa", disse Finney. "Neste campo, ainda estamos nos tempos que antecederam o Iluminismo".

Os grandes incêndios queimam diferentemente dos pequenos: troncos, galhos e outras fontes de combustível se comportam de maneira distinta conforme a temperatura. E os incêndios florestais geralmente apresentam um comportamento não linear, ou atuam de forma contraintuitiva. O laboratório procura criar um modelo de computador que possa representar melhor esses comportamentos e ajudar a antecipar seus padrões.

Os pesquisadores descobriram que a taxa de liberação de energia de um incêndio é variável. "À medida que ficam maiores, os incêndios vão queimando mais combustível, e isso significa que são muito menos previsíveis do que pensávamos", disse Finney.

A Califórnia está passando por uma temporada sem precedentes, com 17 incêndios nos últimos tempos.

Os pesquisadores acreditam que as centenas de milhões de árvores mortas por besouros-casca causarão incêndios ainda mais severos. "Um monte gigantesco de floresta morta é uma nova realidade", explicou Finney.

Segundo o pesquisador, as imensas pilhas de madeira queimada e a vegetação rasteira podem sugar o ar de baixo "como uma forja", rapidamente se transformando em um violento redemoinho de fogo, queimando de três a oito vezes mais rápido que as chamas comuns.

Durante um incêndio, o calor sobe em uma coluna vertical e, à medida que sobe e esfria, puxa mais ar quente da parte inferior, podendo gerar energia suficiente para começar a rodar como um redemoinho.

"As condições de combustível que estamos vendo têm implicações para o comportamento do fogo que vão além de nossos conhecimentos e modelos atuais", afirmou Finney. "Isso pode acarretar incêndios fora de qualquer tipo de controle".

Outro fator em análise é o comportamento das "manchas" produzidas pelas brasas. Quantidades crescentes de madeira morta estão causando mais manchas - a chuva de brasas que os ventos fortes arrancam das árvores em chamas e espalham na frente das chamas. A faixa típica das manchas é de dois ou três quilômetros, mas, na Austrália, detectou-se que a mancha do incêndio de algumas florestas de eucaliptos chegou a até 24 quilômetros à frente das chamas.

Pesquisadores da Universidade Estadual do Oregon estão estudando a física da geração e do transporte das brasas para prever com mais precisão quais tipos de floresta vão gerar centelhas e onde elas vão cair.

David Blunck, professor assistente da universidade, disse que compreender os riscos ajudaria nas evacuações e na construção de defesas.

Também seria necessário compreender o clima do fogo. Os incêndios extremos ocasionalmente podem provocar as chamadas nuvens pyrocumulus acima das chamas, as quais às vezes trazem fortes tempestades, com raios que, por sua vez, podem causar mais incêndios.

Antes dos assentamentos humanos se espalharem pela paisagem, o acúmulo de combustível nas florestas era reduzido por incêndios de baixa intensidade a cada uma ou duas décadas. Agora, depois de um século de eliminação de incêndios e das recentes e generalizadas mortes de árvores, há tanto combustível que os incêndios, quando ocorrem, são maiores e mais intensos - destruindo propriedades e danificando os sistemas naturais dos quais faziam parte. 

"Pegamos um ecossistema que foi sustentado pelo fogo e o transformamos em um ecossistema que é destruído pelo fogo", disse Finney.

Não há dúvida de que um mundo mais quente está mudando a natureza dos incêndios, mesmo que o aquecimento não seja o principal culpado. As altas temperaturas "pré-aquecem os combustíveis e os deixam muito mais suscetíveis à combustão", explicou Scott L. Stephens, ecologista de incêndios da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

O calor também parece estar mudando o comportamento do fogo à noite. "A floresta passa mais noites sem recuperação", disse ele.

Mesmo que as temperaturas mais altas sejam um fator importante, o pesquisador Mark Finney acredita que não devemos simplesmente desistir. "O clima está mudando, não há o que discutir”, disse ele. “Mas isso não pode virar desculpa para não fazermos nada".

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