Aurélien Mounier/CNRS-MNHN
Aurélien Mounier/CNRS-MNHN

Pesquisadores reconstroem crânio do último antepassado comum da humanidade

Estudos de DNA indicam que nossos ancestrais comuns viveram em algum lugar do continente africano entre 260 mil e 350 mil anos atrás

Carl Zimmer, The New York Times

04 de outubro de 2019 | 06h00

Um único fóssil pode transformar a maneira com que pensamos a respeito das origens do ser humano, mas descobri-lo continua a ser uma luta para os paleontólogos. “Pode demorar anos e exigir sorte para encontrar o fóssil certo”, afirmou Aurélien Mounier, paleoantropólogo do Museu Nacional de História Natural da França.

Agora, Mounier e outros pesquisadores estão utilizando computadores para reconstituir a aparência de fósseis que eles ainda não descobriram. No mês passado, Mounier e Marta Mirazón Lahr, paleoantropóloga da Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha, revelaram um crânio virtual daquele que seria o último ancestral comum de todos os seres humanos modernos.

A renderização, descrita na revista científica Nature Research, é parecida com fósseis da mesma época encontrados no leste da África e na África do Sul. A hipótese dos cientistas é que a humanidade moderna tenha surgido a partir da miscigenação entre populações dessas duas regiões.

“Estamos começando a olhar para os registros paleontológicos de outra maneira”, afirmou Mounier. “Estamos mais conscientes da diversidade e da complexidade da espécie.” A ancestralidade de todos os seres humanos pode ser rastreada até a África. Estudos de DNA indicam que nossos ancestrais comuns viveram em algum lugar do continente africano entre 260 mil e 350 mil anos atrás. Mas a maneira como os primeiros humanos evoluíram é um enigma persistente. 

Mounier e Lahr tinham o objetivo de entender como fósseis de toda a África se relacionam com os humanos modernos. Os pesquisadores desenvolveram técnicas matemáticas para comparar as estruturas dos crânios, em busca de elos evolucionários. Atualmente, as pessoas não têm formatos de crânio idênticos, havendo muitas variações de indivíduo para indivíduo. Então, Mounier e Lahr fizeram o caminho inverso, da diversidade moderna para o que eles acreditam que tenha sido o crânio do ancestral comum.

Eles digitalizaram com equipamentos de tomografia computadorizada os crânios de 260 pessoas de uma ampla variedade de populações - englobando desde habitantes de florestas tropicais africanas até povos das costas da Groenlândia. Eles também digitalizaram crânios de 100 mil anos atrás encontrados em Israel e também de uma seleção de espécies de humanos extintos.

Depois, os cientistas elaboraram uma árvore genealógica evolucionária com todos esses indivíduos, vivos e extintos. Ao criar esse esquema, eles conseguiram rastrear a evolução de crânios em cada ramo, chegando, assim, à imagem do crânio do ancestral comum de todos os humanos vivos.

“É quase o de um humano moderno”, afirmou Mounier sobre o crânio. “Mas não corresponde realmente a nenhuma população atual - é algo diferente.” Esse crânio ancestral apresenta o mesmo formato arqueado que os atuais. Mas também tem a arcada supraciliar mais pesada e uma protuberante face inferior.

Mounier e Lahr compararam seu modelo de crânio com crânios africanos reais do mesmo período. Eles encontraram várias diferenças, o que os levou a pensar que os fósseis não pertenciam a uma única população, mas a três. Um fóssil marroquino pertence a uma dessas populações.

Outro fóssil, encontrado na Tanzânia, representa uma segunda. A terceira população inclui dois fósseis encontrados em localidades separadas por milhares de quilômetros, na África do Sul e no Quênia. Os pesquisadores concluíram que essa terceira população, que possuía grandes cérebros e fabricava ferramentas sofisticadas, é a que mais se parece com o ancestral de todos os seres humanos modernos.

Os humanos antigos do leste da África e da África do Sul poderiam ter entrado em contato de tempos em tempos e se reproduzido entre si. “A ideia é que eles teriam se miscigenado e, finalmente, formado a nossa espécie”, afirmou Mounier. Dados adicionais podem alterar o crânio virtual - e talvez até as teorias a respeito das nossas origens. Mounier considera o novo estudo uma estrutura para estudar a origem do homem, não a palavra final. “Há muitas coisas que podemos fazer, mesmo sem novos fósseis”, disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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