Monica Jorge para The New York Times
Monica Jorge para The New York Times
John Markoff, The New York Times

24 de junho de 2019 | 06h00

PALO ALTO, CALIFÓRNIA - Faz quase vinte anos desde que o Google começou a dominar a busca na internet, assim como, uma geração antes, a Microsoft dominara o software para computadores pessoais. Agora, os cientistas da área da computação da Universidade Stanford, na Califórnia, alertam para a corrida pelo controle dos dispositivos que, acreditam, se tornarão obrigatórios para os consumidores: os assistentes virtuais como o Alexa, da Amazon, e o Google Assistente.

O que mais preocupa os pesquisadores é que os assistentes virtuais possam acabar com o que restou da privacidade online. Um assistente virtual pode ser como uma secretária particular, com acesso aos detalhes íntimos de uma pessoa. Pode tocar música ou controlar termostatos. “O seu conhecimento será maior do que a Amazon, o Facebook e o Google juntos”, disse Monica Lam, que chefia o grupo de Stanford.

O grupo está trabalhando na construção de um assistente virtual que permitiria que os usuários evitassem entregar informações pessoais e mantivessem um grau de independência das gigantes da tecnologia. O serviço, chamado Almond, descentraliza o software do assistente virtual e o conecta usando padrões de programação pelos quais os usuários escolhem onde a informação será armazenada e compartilhada. Uma primeira versão do sistema foi lançada no ano passado.

Os assistentes virtuais não provocaram uma severa fiscalização das autoridades reguladoras porque o mercado é pequeno. No entanto, algumas companhias já o dominam. “Esta é a mesma situação dos sistemas operacionais e dos browsers”, disse TimWu, professor de Direito da Columbia University em Nova York, que escreveu longamente sobre a concentração do poder econômico na era da internet. “É perigoso em termos de competição”. O Google anunciou que instalou o seu serviço de assistente virtual em cerca de um bilhão de dispositivos, e a Amazon disse que vendeu mais de 100 milhões dos seus smart speakers.

Os pesquisadores estão encorajando os fabricantes de produtos a conectar os seus dispositivos ao assistente virtual Almond, que é gratuito, por meio de um serviço no estilo da Wikipedia. Trata-se de um banco de dados compartilhado em que todo fabricante ou serviço de internet pode especificar de que maneira o seu produto ou serviço interagiria com o assistente virtual Almond.

Eles também esperam que o Almond possa superar os atuais assistentes virtuais pela capacidade de compreender uma linguagem complexa. Os assistentes virtuais estão entendendo muito melhor o que os seres humanos falam, mas fizeram poucos progressos na compreensão do que estas palavras significam. Agora, os serviços têm um desempenho melhor em determinados campos, como todas as perguntas sobre o controle da sua conta no Spotify.

No ano passado, a Amazon informou que tinha 10 mil funcionários trabalhando no seu serviço Alexa, muitos dos quais se dedicam ao aperfeiçoamento de sua compreensão de comandos complexos. O grupo de Stanford afirma que a abordagem da Alexa nunca conseguirá lidar adequadamente com a variabilidade da linguagem humana porque exige um trabalho intenso e talvez não se estenda a conversas mais complexas. Entretanto, os pesquisadores da Amazon afirmam que a possibilidade de acesso a grandes volumes de dados dos usuários lhes conferirá uma vantagem para melhorar o software.

Embora a precisão da máquina na compreensão da palavra falada seja comumente superior a 90%, a precisão na compreensão de uma linguagem natural complexa é muito menor. Um estudo recente dos pesquisadores de Stanford, que falou em um avanço significativo na compreensão de linguagem, ainda chega a uma precisão de apenas 62% sobre “inputs realistas dos usuários”, afirmações reais produzidas por sujeitos de testes humanos  na forma escrita.

O pesquisador de Inteligência Artificial, Tom Gruber, que recentemente saiu da Apple, se mostra cético quanto à possibilidade de avanços tecnológicos a curto prazo que permitam que os assistentes virtuais tenham uma compreensão semelhante à do ser humano. “Quando você tem uma pergunta e não sabe a que campo pertence, você tem um problema complexo de ambiguidade “, afirmou. Lam disse que a ameaça à privacidade não pode ser exagerada.

Por exemplo, ela notou que, no ano passado, a Wynn Resorts de Las Vegas instalou dispositivos Echo da Amazon nos quartos. “Antes, eles diziam que o que acontecia em Las Vegas não saía de lá”, ela disse. “”Agora, isto deixou de ser necessariamente verdade. Poderá acabar em Seattle”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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