Katherine Taylor para The New York Times
Katherine Taylor para The New York Times

Pesquisadores planejam testar a recuperação mitocondrial em adultos que sofreram infartos

Técnica de transplante reanima órgãos que estão morrendo

Gina Kolata, The New York Times

17 Julho 2018 | 10h15

Quando Georgia Bowen nasceu graças a uma cesariana de emergência, no dia 18 de maio, respirou, jogou os braços para o alto, chorou duas vezes e teve uma parada cardíaca.

O bebê já tinha tido um ataque cardíaco, muito provavelmente enquanto ainda estava no ventre materno. O seu coração estava profundamente danificado; grande parte do músculo estava morta, ou quase, provocando a parada cardíaca.

Os médicos a mantiveram viva por meio de uma máquina complexa que realizava a função do seu coração e dos pulmões. Depois decidiram tentar um procedimento experimental que nunca havia sido tentado antes em um ser humano depois de um ataque cardíaco.

Retiraram um bilhão de mitocôndrias - as fábricas de energia que se encontram em cada célula - de um fragmento do músculo sadio de Georgia, e as introduziram no músculo danificado do seu coração.

As mitocôndrias são a primeira parte da célula que morre quando não recebe o sangue rico em oxigênio. Quando se perdem, a célula morre.

Entretanto, uma série de experiências mostrou que as mitocôndrias frescas podem reavivar as células enfraquecidas e permitir que elas se recuperem rapidamente.

Em estudos com animais, os transplantes mitocondriais aparentemente restauram o músculo cardíaco depois de um infarto, que entretanto continua vivo, e reavivam pulmões e rins danificados.

Nos únicos testes realizados em seres humanos, os transplantes mitocondriais aparentemente reparam o músculo cardíaco de recém-nascidos danificado durante operações para reparar defeitos congênitos do coração.

Mas no caso de Georgia, o transplante era um tiro no escuro - um ataque cardíaco é diferente de uma perda temporária de sangue durante uma operação. Há um prazo muito curto entre o início do infarto e o desenvolvimento de uma cicatriz onde anteriormente havia células vivas.

O problema era que ninguém sabia quando o infarto havia ocorrido na criança. No entanto, disse o dr. Sitaram Emani, cirurgião cardíaco pediátrico que realizou o transplante, havia  pouco risco para o bebê e havia uma chance de que algumas células ainda pudessem ser salvas.

“Eles deram à criança a possibilidade de lutar”, afirmou Kate Bowen, a mãe da menina.

A ideia dos transplantes mitocondriais nasceu do desespero, e do feliz encontro de dois pesquisadores de dois hospitais-escolas de Harvard - o dr. Emani do Boston Children’s, e James McCully, do Beth Israel Deaconess Medical Center.

O dr. Emani, um cirurgião pediátrico, e o dr. McCully,um cientista que estuda o coração de adultos, lutavam com o mesmo problema: como salvar corações que ficaram sem oxigênio durante uma cirurgia ou um ataque cardíaco.

“Se você corta o oxigênio por muito tempo, o coração mal consegue pulsar”, disse o dr. McCully. As células podem sobreviver, mas nunca mais se recuperarão completamente.

Trabalhando com porcos, o dr. McCully retirou um pedacinho do músculo abdominal e isolou as mitocôndrias. Ele as injetou nas células do coração e, para a sua surpresa, elas se dirigiram para o lugar certo nas células e começaram a fornecer energia. Os corações dos porcos se recuperaram.

Enquanto isso, o dr. Emani enfrentava as mesmas dificuldades no seu trabalho com o coração de bebês. 

Muitos dos seus pacientes são recém-nascidos que precisam de cirurgia para sanar defeitos do coração que ameaçam a sua vida. Às vezes, durante ou depois de uma destas operações, um minúsculo vaso sanguíneo dobra ou fica bloqueado.

O coração ainda funciona, mas as células que ficaram sem oxigênio batem de maneira lenta e fraca.

Ele ligou o bebê a uma máquina como a que manteve viva Georgia Bowen, para a chamada oxigenação extracorpórea por membrana, Ecmo. Entretanto, trata-se de uma medida paliativa. A metade dos bebês com problemas nas coronárias que acabam em uma máquina Ecmo morre.

Mas um dia, falaram ao dr. Emani do trabalho do dr. McCully. Os dois pesquisadores se encontraram, e agora trataram 11 bebês com as mitocôndrias. Todos, com a exceção de um, conseguiram sair da Ecmo, disse o dr. Emani. No entanto, três deles morreram posteriormente, e o dr. Emani atribui sua morte a uma demora no tratamento e a outras causas.

Em comparação, a taxa de óbitos entre um grupo semelhante de criancinhas  que não receberam os transplantes mitocondriais foi de 65%. E nenhuma das crianças que não receberam o tratamento recuperou qualquer função do seu coração.

Os pesquisadores pretendem realizar um teste para ver se os transplantes mitocondriais  podem reparar músculos cardíacos danificados durante infartos em adultos.

Para Georgia, o procedimento veio tarde demais. A porção do seu músculo cardíaco afetado pelo infarto morreu. Seus médicos implantaram um aparelho que realiza a função de bombear do coração, e esperam que o seu coração se recupere o suficiente para eles retirarem o aparelho.

“Georgia é um milagre que continua lutando diariamente e persevera apesar dos obstáculos que encontra”, disse a mãe.

“Nos nossos corações, nós sabemos que ela sairá desta e voltará para casa”.

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