5 pessoas que podem nos ajudar a fortalecer o 'músculo' da empatia

5 pessoas que podem nos ajudar a fortalecer o 'músculo' da empatia

Nunca se perguntou quão empático você é? Reflita no conselho destas cinco pessoas que passaram a vida estudando, tentando compreender e praticando a empatia

Emma Pattee, The New York Times - Life/Style

14 de outubro de 2020 | 05h00

Já se perguntou quanto você é empático? Aqui está um teste muito simples: leia o noticiário, fale com seu chefe, ande de transporte público, procure conversar com alguém que tem posições políticas opostas, passe o tempo com seu filho ou sua esposa, fique sentado no carro esperando o trânsito se mexer ou fique apenas uns 20 minutos no Facebook.

A empatia é a capacidade de compreender as perspectivas dos outros, seus sentimentos e experiências do ponto de vista deles. E não do seu. Pesquise programas que mostram que, quando as pessoas demonstram empatia com a experiência de outra pessoa, muito provavelmente têm uma visão positiva daquela pessoa ou grupo.

É importante notar que empatia não é simpatia. É preocupar-se com os outros tentando compartilhar dos seus sentimentos e experiências; simpatia é sensibilizar-se ou preocupar-se com os problemas deles. Se você, como eu, fez este teste acima provavelmente sentiu a necessidade de intensificar sua empatia. Eu falei com cinco pessoas que dedicaram a sua vida ao estudo, à compreensão e à prática da empatia, e aqui está o seu conselho ou como é possível fortalecer o músculo da empatia.

Nedra Tawwab

Se você se esforça para sentir empatia por um amigo ou um membro da família, Nedra Tawwab quer lembrá-lo do seguinte: Isto não tem a ver com você. “As pessoas têm sua própria história e nem tudo o que elas fazem se refere a você”, disse Nedra. “Aconteceu com você, só isso; não é com você”.

Como terapeuta e a voz de uma popular conta de terapia do Instagram, ela afirma que é importante não rotular as pessoas como boas ou más, ao contrário, tente relacionar-se com a totalidade de sua experiência de vida. “As pessoas têm uma história completa, e se fizeram algo ruim ou desfavorável, provavelmente também fizeram muitas coisas boas e carinhosas ao longo de sua vida”, ela disse, acrescentando que é o que costuma acontecer principalmente quando se trata de alguém com uma visão fanática.

“Acho que é importante pensar que esta convicção pode ter sido útil ao longo de sua vida. Como seu avô que se tornou adulto em 1937, ele talvez esteja usando uma linguagem apropriada para aquela época. Será útil para ele agora? Absolutamente não. Será que você pode estabelecer limites? Sim. Você pode estabelecer limites ao redor do que se está falando? Sim”.

A empatia com pessoas que têm visões preconcebidas pode ser mais eficaz para mudar os pontos de vista delas do que discutindo com elas, disse Nedra, porque isto permite que você mostre a elas um modo de vida ou um sistema de crenças com o qual elas não estão familiarizadas.

“Nós não percebemos como é importante expor as pessoas preconceituosas a coisas com as quais talvez não estejam familiarizadas ou não se sintam confortáveis,” acrescentou. “Acho que esta exposição pode ter efeitos mais profundos em termos de mudança da maneira de pensar do que discutir ou criar discordâncias. Pense como esta exposição é uma maneira maravilhosa de influir em uma mudança”, afirmou.

Brené Brown

Uma das perguntas feitas por alunos de Brené Brown no seu curso “Shame, Empathy and Resilience”, na Universidade de Houston, é: “Como posso sentir empatia por alguém que experimentou algo que eu nunca experimentei?”. Para responder à pergunta, Brown, conhecida pesquisadora e autora do best-seller Daring Greatly, pede aos seus alunos que levantem a mão se passaram pelo luto. E então, se passaram por desespero, desesperança, amor e alegria.

No final, quase todos levantaram a mão. Ela faz este exercício para mostrar que a empatia não tem a ver com ter algo em comum, mas sim com compreender a experiência de uma emoção compartilhada. “Eu posso não saber como é estar separada da minha família na fronteira, mas conheço a impotência e a dor, a raiva e o desespero”, ela afirmou. Ao longo de 25 anos, Brown e sua equipe estudaram a pena e a empatia examinando as experiências vividas pelas pessoas.

Ela descobriu quatro grupos de habilidades: 1 - Não julgue. 2 - Procure entender a perspectiva de outra pessoa. 3 - Coloque-se no lugar dela. 4 - Externe a sua compreensão daquilo que o outro está passando. 

Brown disse que é importante que você não assuma as emoções de alguém a ponto de isto tornar-se um ônus, ou você cooptar a sua experiência. “De que serve ambos sofrermos por estar naquele lugar sombrio? Não há nenhuma ajuda lá”, ela disse.

Brown usa o exemplo de um amigo que telefona com um problema no seu casamento: “Eu preciso procurar em mim mesma um lugar para compreender este sentimento, e depois comunicar com você de uma maneira forte de modo que você não esteja sozinho sem me comprometer e interiorizar a sua dor”.

Ao praticar a sua capacidade de empatia, tenha certeza de que ocasionalmente errará o alvo. Não se preocupe, disse Brown, desde que isto ajude realmente a fortalecer os seus relacionamentos: “Voltar e limpar uma falha empática é tão poderoso, se não mais poderoso, do que acertar na primeira vez”.

Roman Krznaric

Roman Krznaric acredita que a empatia pode mudar o mundo. Filósofo australiano, Krznaric é o autor de The Good Ancestor: How to Think Long Term in a Short-Term World. Ele estuda a empatia há anos, e afirma que, hoje, nós precisamos mais dela do que nunca. “Atualmente, nos defrontamos com um déficit crônico de empatia”, segundo Krznaric.

Um estudo publicado na Personality and Social Psychology Review em 2011 mostrava que os níveis de empatia entre estudantes das faculdades americanas caíram quase 50% nas três décadas anteriores. Krznaric formulou várias hipóteses a respeito, como uma sociedade moderna significa que as pessoas passam menos tempo dedicadas a atividades sociais que alimentam a sensibilidade empática, e que “a cultura digital criou uma epidemia de narcisismo e exacerbou a polarização política que divide em vez de unir as pessoas.”

Para contrastar isto, Krznaric está determinado a ajudar as pessoas a compreender e praticar a empatia. Uma das maneiras que ele adotou é por meio do Museu da Empatia, uma série de projetos artísticos participativos, que ele fundou em 2015 para ajudar as pessoas a olhar o mundo através dos olhos dos outros. O seu projeto mais conhecido é “A Mile in My Shoes”, uma gigantesca caixa de sapatos que viaja pelo mundo, repleta de fileiras e mais fileiras de sapatos de outras pessoas.

Os participantes podem usar os sapatos de outro indivíduo, como os de um refugiado afegão ou de um profissional do sexo, enquanto ouvem a gravação de uma pessoa que fala de sua vida e experiências. A mostra já esteve em nove países, e deverá ser vista também na Eslovênia e na Itália.

“Em toda parte, recolhemos novas histórias e novos sapatos”, afirmou. Uma das melhores maneiras de ampliarmos a nossa empatia na vida diária, segundo Krznaric, é ampliando o nosso interesse por outras pessoas, conversando com pessoas com as quais não manteríamos contato normalmente. Ele sugere que criemos o hábito de conversar com um estrangeiro uma vez por semana.

Karamo Brown

Nunca sonhou em fazer uma transformação completa pela empatia? Karamo Brown está aqui para isto. Como membro dos Fab Five do programa “Queer Eye”, da Netflix, Brown ajuda os que se submetem às transformações no grupo a encontrar a autoconfiança e a auto-compaixão ouvindo estas pessoas.

“Eu brinco que falo o mínimo em ‘Queer Eye’ porque estou sempre ouvindo com toda a minha empatia”, disse Brown. Ouvir com empatia, afirmou, é a razão pela qual os estranhos se abrem para ele e compartilham de detalhes pessoais em apenas quatro dias e meio de filmagem.

“Eu falo com eles horas a fio”, disse Brown, “E tudo o que eu faço são pequenas perguntas e ouvi-los atentamente”. Ouvir com empatia é um conceito que Brown tenta introduzir na cultura tradicional. É a prática que consiste em limparmos a nossa mente e ouvir o que outra pessoa está dizendo sem qualquer ideia preconcebida ou tendenciosidade. “Não acredito que nós façamos o suficiente como seres humanos, como país ou como sociedade”, afirmou.

“Na maior parte do tempo, as pessoas entram em determinadas situações já querendo resolver os problemas do outro”. Brown atribui a sua capacidade de ouvir sem julgar aos mais de 11 anos trabalhando como assistente social. “Todos olhamos para as pessoas e começamos a catalogá-las”, ele disse.

“Trabalhando no serviço social, a gente aprende a se distanciar e aprende a dizer: ‘Você não é como a última criança que esteve aqui. Você tem sua própria história”’. Brown acrescentou que compreendeu o poder de ouvir quando sua avó lhe disse: “Você tem duas orelhas e uma boca, então ouça o dobro do que fala”.

Leslie Jamison

Leslie Jamison trabalhou muito para conseguir empatia. Aos 20 e poucos anos, ela era uma atriz que interpretava médicas, dando vida a personagens com problemas de saúde e depois avaliava quanta empatia os médicos alunos lhe transmitiam. Muitas vezes interpretou o papel de uma mulher que sofria de convulsões causadas pela morte traumática do irmão. Os médicos estudantes que mostraram empatia e ouviam a sua história iam logo à causa do problema.

Os que se mostravam incomodados ou faziam pressuposições ficavam chocados. A experiência foi a inspiração para o ensaio título do seu livro The Empathy Exams. Nele, Leslie afirma que até mesmo formas rotineiras de empatia podem ter efeitos profundos. “A empatia não é apenas algo que acontece com a gente – uma chuva de meteoros de sinapses que se acende no cérebro todo – é também uma escolha que fazemos: de prestar atenção, de expandir-nos.

É feita de muito esforço, aquele primo sem graça do impulso. À vezes, nos preocupamos por outra pessoa porque sabemos que deveríamos, ou porque ela nos pediu, mas isto não torna o nosso cuidado vazio”. Atualmente professora de escrita criativa na Columbia University, Leslie fala aos seus alunos a respeito de reformular a empatia abandonando muita certeza e conhecimento.

“Eu me aproximo da empatia pensando: ‘Há tantas coisas que não sei a respeito do imenso mistério das experiências de outras pessoas, mas o que são as pequenas maneiras em que posso agir a este respeito sem saber?’” Às vezes, a maior empatia, afirmou, é dizer a alguém que não compreendemos o que ela está sentindo, em vez de dizer algo tão comum como: ‘Deve ser muito difícil’ ”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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