Isabelle Eshraghi/The New York Times
Isabelle Eshraghi/The New York Times

Pessoas como ela não existiam em romances franceses, até que ela escreveu um

O livro de estreia de Fatima Daas explora as identidades conflitantes da escritora como uma mulher lésbica e muçulmana de origem imigrante; Na França, foi um improvável sucesso literário

Julia Webster Ayuso, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2022 | 05h00

PARIS - Fatima Daas estava acostumada a não ler sobre pessoas como ela. Seu romance de estreia foi uma chance de remediar isso.

Baseado em sua própria vida, The Last One segue uma jovem lésbica muçulmana em um difícil subúrbio de Paris que luta para reconciliar suas identidades conflitantes.

“Cresci com a ideia, seja nos filmes ou nos livros, de que eu não existia”, disse Daas, 26, em uma recente entrevista por telefone. “Eu não existia como uma jovem lésbica, muçulmana, de origem imigrante. Portanto, a pergunta que me fiz muito é: ‘Como nos moldamos quando não temos absolutamente nenhuma representação?’ ”

Representação e identidade são tópicos tensos agora na França, um país que se orgulha de uma tradição universalista que une todos os cidadãos sob uma única identidade francesa, independentemente de sua etnia ou fé. As políticas de identidade são freqüentemente vistas como uma ameaça à coesão social.

Então, o livro de Daas foi um sucesso improvável quando lançado aqui no ano passado. Os críticos elogiaram o poderoso lirismo do romance e saudaram a autora por quebrar tabus em torno de gênero, sexualidade e religião. The Last One ganhou o Prêmio Literário Les Inrockuptibles 2020 como melhor romance de estreia, organizado pela revista cultural francesa, e desde então foi traduzido para oito idiomas. 

“Fatima Daas” é um pseudônimo, e também é o nome da protagonista do romance. A autora disse que seu livro era uma autoficção, uma forma de autobiografia ficcional, mas o que é verdade e o que é inventado fica para o leitor adivinhar.

Daas se recusou a dar seu nome verdadeiro, em parte porque não queria envolver sua família, ela disse. Mas ela acrescentou que usar um pseudônimo estava de acordo com sua exploração lúdica de múltiplas identidades: tratava-se de “criar e incorporar um personagem, de me reinventar”.

Cada capítulo do romance começa com “Meu nome é Fátima” e é seguido por uma afirmação como “Sou francesa”, “Sou argelina”, “Tenho o nome de uma figura simbólica do Islã”.

A narrativa é pontuada por flashbacks da infância e adolescência da protagonista. A mais nova de três irmãs em uma família muçulmana da Argélia e a única nascida na França, Fátima luta para se encaixar na escola e tem relacionamentos românticos com mulheres, embora considere a homossexualidade um pecado. Ela luta contra os sentimentos de vergonha, mas se recusa a desistir de qualquer parte de si mesma.

Daas disse que seu romance era mais do que uma afirmação de identidade; era “uma forma de dizer que é possível, que posso ser isso se quiser. E se eu quiser dizer que sou lésbica e muçulmana, tenho o direito, a capacidade e a liberdade de fazê-lo”.

Salima Amari, socióloga do Centro de Pesquisas Políticas e Sociológicas de Paris e autora do livro Lesbians of Immigration, disse que o romance era poderoso porque expunha contradições contra as quais muitos lutam.

“Uma mulher que se define claramente como lésbica e muçulmana, que escreve e, portanto, tem uma voz, existe”, disse Amari. “Isso traz uma voz muito rara à paisagem francesa.”

Daas disse que começou a escrever no ensino médio, onde participou de workshops com Tanguy Viel, um escritor de romances de mistério e de detetives. Demorou um pouco para encontrar outros escritores de que gostasse, ela acrescentou, mas algo se acendeu quando ela descobriu Annie Ernaux e Marguerite Duras, duas autoras francesas cujo trabalho Daas cita em The Last One.

Ela escreveu o romance em 18 meses, como parte de um mestrado em escrita criativa na Universidade Paris 8. Lá conheceu a romancista e cineasta Virginie Despentes, que veio falar sobre sua carreira como parte do curso. Quando Daas contou a Despentes sobre o livro em que estava trabalhando, Despentes a estimulou, lembrou-se Daas.

“Ela disse que muitas pessoas se identificariam com o que eu estava falando”, acrescentou Daas. “Portanto, era muito importante que eu continuasse escrevendo.”

Talvez o tabu mais significativo que Daas aborda no romance seja a questão da homofobia internalizada. O tempo todo, sua protagonista se descreve como “uma pecadora” e se sente envergonhada.

Duas semanas após a publicação do livro, em setembro de 2020, Daas apareceu como convidada na estação de rádio pública France Inter. Quando questionada se, como sua personagem, ela acreditava que ser lésbica a tornava uma pecadora, Daas disse que sim.

“Estou em busca de complexidade”, ela acrescentou.

Uma onda de críticas começou nas redes sociais, nas quais pessoas LGBT acusaram Daas de encorajar a homofobia.

Na entrevista, Daas disse que queria explicar seus conflitos internos, mas não estava interessada em atuar como porta-voz de nenhum grupo. A pergunta do entrevistador do France Inter foi “uma maneira de afastar a conversa do meu trabalho e falar sobre o Islã”.

“Existe essa obsessão com o Islã e a homossexualidade, porque são temas polêmicos”, ela acrescentou.

Faïza Guène, uma escritora que chegou à fama aos 19 anos na França com seu primeiro romance, Kiffe kiffe demain ("Mais do Mesmo Amanhã" em tradução livre), disse em uma entrevista que “muitas pessoas teriam preferido que Fatima Daas escrevesse um livro sobre desistir do Islã por ser lésbica. ”

 “Se você quer ser francês hoje, um cidadão totalmente francês, você tem que desistir de um dos fragmentos de sua identidade”, ela disse. “Mas somos cheios de paradoxos.”

Embora The Last One não ofereça soluções para o problema de identidades conflitantes, Daas disse que esperava que leitores de diferentes origens se relacionassem com a experiência de lutar para encontrar seu lugar na sociedade.

“Crescer assim não foi fácil”, ela disse.

Embora escrever a tenha ajudado a dizer coisas que ela nunca pensou que diria, acrescentou, publicar um romance de sucesso não aliviou seus sentimentos de vergonha.

“Não acho que a literatura pode salvar as pessoas, mas pode ser libertadora”, ela disse . “É o que este livro me deu.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.