Mary Turner/The New York Times
Mary Turner/The New York Times

Pessoas com deficiência temem ser esquecidas com reabertura dos estabelecimentos culturais

Algumas pessoas com deficiência passaram um ano assistindo programas online e desejam acesso contínuo. Alguns cinemas prometem fornecê-lo, mas os temores persistem

Alex Marshall, The New York Times/Life/Style, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 23h00

LONDRES – Antes que a pandemia atingisse o Reino Unido no ano passado, Michelle Hedley só podia frequentar teatros locais no norte da Inglaterra se o espetáculo fosse legendado. Segundo ela, que é deficiente auditiva, havia essa oportunidade cinco vezes por ano – na melhor das hipóteses.

Mas, durante a pandemia, de repente ela passou a poder assistir a musicais dia e noite se quisesse, já que os teatros fechados ao redor do mundo disponibilizaram programas on-line, muitas vezes com legendas. "Comecei a assistir a tudo e qualquer coisa simplesmente porque podia! Até assuntos que me dão tédio! Assisti a mais peças de teatro do que em toda a minha vida", escreveu Hedley, de 49 anos, em entrevista por e-mail.

Agora, ele teme que esse acesso esteja prestes a acabar. No fim de maio, teatros, museus e cinemas começaram a reabrir em toda a Inglaterra, alguns pela primeira vez desde março de 2020. O público está tão grato por estar de volta que em muitos casos aplaude depois do aviso para desligar o celular.

Para muitas pessoas com deficiência, porém, que representam 22% da população da Inglaterra e têm necessidades diversas – como acesso para cadeira de rodas, descrição em áudio ou apresentações "relaxadas", em que o público pode fazer barulho –, este momento está gerando as mais variadas reações. Algumas temem que sejam esquecidas e que os estabelecimentos, cheios de dificuldades financeiras, concentrem-se na produção de programas presenciais, abandonando os eventos on-line ou o atendimento pessoal a pessoas com deficiência.

Há poucas provas disso até agora, e alguns estabelecimentos afirmam que vão continuar incluindo as pessoas com deficiência, mas o efeito real do orçamento reduzido não se tornará claro por alguns meses. "Vou ser obrigada a voltar a ser grata por apenas cinco apresentações por ano. É muito frustrante", disse Hedley.

Outros também estão preocupados. "Tenho a sensação de estar sendo deixada para trás por conta da euforia das pessoas que podem fazer as coisas presencialmente de novo", observou a artista autista Sonia Boué.

Antes da pandemia, Boué, de 58 anos, só visitava museus se estivesse convencida de que o evento compensaria a enorme quantidade de energia gasta com a experiência. Segundo ela, pegar o trem de sua casa em Oxford para Londres pode ser algo sufocante, assim como a multidão em um museu lotado. "Já estive em situações em que só queria me jogar no chão na plataforma da estação e perder o controle."

On-line, ela podia assistir a qualquer espetáculo sempre que quisesse. No ano passado, voltou várias vezes a uma obra da pintora Tracey Emin e da fotógrafa Jo Spence, duas artistas que a influenciaram. "Toda a experiência foi tão rica e maravilhosa", disse Boué.

Os estabelecimentos culturais do Reino Unido têm enfrentado dificuldades nos últimos 12 meses, com milhares de demissões. Muitos deles só sobreviveram à pandemia graças ao financiamento de emergência do governo.

Alguns locais de destaque mencionaram que vão continuar trabalhando para incluir pessoas com deficiência assim que reabrirem. Kwame Kwei-Armah, diretor artístico do teatro Young Vic em Londres, explicou ao The Guardian, em maio, que queria transmitir ao vivo pelo menos duas apresentações de todas as peças futuras, com espectadores limitados a cerca de 500 por transmissão, imitando a capacidade do teatro. O Young Vic pretende garantir alguns desses ingressos para pessoas com deficiência, revelou uma porta-voz por e-mail. O Almeida, outro teatro londrino, explicou que filmaria e lançaria digitalmente os espetáculos da próxima temporada "sempre que possível", mas não deu mais detalhes.

No entanto, para teatros regionais que completaram um ano sem vendas de ingressos, o streaming nem sempre é possível. "É um grande gasto financeiro fazer um filme, por isso é realmente preciso pensar nisso desde o começo", explicou Amy Leach, diretora associada da Leeds Playhouse. Ela também disse esperar que o teatro faça isso com os trabalhos futuros.

Leanna Benjamin, cadeirante que tem síndrome da fadiga crônica e frequentemente sente dores, afirmou temer que os estabelecimentos abandonem o formato on-line que floresceu durante a pandemia. No ano passado, foi contratada para escrever três peças curtas – suas primeiras atribuições como dramaturga. "Obrigada, Covid! Você pode ter me deixado isolada e dificultado muito a vida, mas, por outro lado, lançou minha carreira".

Essas encomendas incluíam trabalhos para a Graeae, a principal companhia de teatro liderada por surdos e deficientes físicos, bem como The Unknown, para a Leeds Playhouse. Foi de grande ajuda a realização de reuniões e ensaios virtuais. "Minhas experiências têm sido incrivelmente inclusivas, e acho que muitos de nós estamos tendo a mesma preocupação: 'Voltaremos à velha maneira de trabalhar, com público presencial?'"

Leach, da Leeds Playhouse, afirmou que não acha que seria o caso. Seu teatro pretendia continuar usando tecnologia de vídeo para expandir o trabalho com pessoas deficientes na indústria.

Nem todas as pessoas com deficiência consideram a pandemia libertadora no que se refere ao acesso à cultura. Joanna Wood, que é cega de um olho e só consegue ver formas desfocadas com o outro, comentou que, para ela, a pandemia tem sido um desastre. Antes da pandemia, ela assistia a peças de teatro ou frequentava exposições de arte pelo menos uma vez por semana, tirando proveito do boom da audiodescrição (em uma peça, isso envolve uma pessoa explicando o que acontece no palco entre as lacunas no diálogo).

Segundo ela, no entanto, passaram-se meses até que os teatros começassem a incluir conteúdo com descrição de áudio no material on-line. Havia alguns destaques, acrescentou – o Old Vic, em Londres, garantiu que todos os programas transmitidos ao vivo tivessem descrição em áudio –, mas ela frequentemente sentia que havia voltado cinco anos atrás, quando começou a perder a visão e não conseguia consumir nada de cultura. "Eu me senti completamente incapaz", disse ela sobre as experiências do ano passado.

Boué mencionou que esperava que os teatros e museus britânicos não se esquecessem das pessoas com deficiência. Para ela, deveria ser mais fácil do que nunca se identificar com pessoas com deficiência: "Foi de cair o queixo quando se instaurou o primeiro lockdown; todos se sentiram completamente imobilizados e como se não tivessem as liberdades que sempre tinham dado como certas. Pela primeira vez, era como se a deficiência fosse realmente um problema de todos."

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.