Rosie Marks/The New York Times
Rosie Marks/The New York Times
Amanda Hess, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 05h00

Tomas Pasiecznik vive em Nova Jersey com os pais, seu cachorro e 26 outras espécies de animais, incluindo uma píton-reticulada, uma tarântula rosa chilena, uma colônia de baratas gigantes das cavernas da América Central e um ouriço pigmeu africano chamado Chloe. Esse número não inclui os bichos que Pasiecznik adquire como alimento para os outros animais. Quando conversamos via Zoom, Pasiecznik sumiu de vista por um momento e voltou com duas taturanas azuis se contorcendo na palma da mão – elas eram o jantar dos escorpiões e das tarântulas. "Essas taturanas são superlegais. Tenho dificuldade em usá-las como alimento. Prefiro só observá-las se transformando em mariposas".

Pasiecznik tem 22 anos, é magro e tem um senso estético estranhamente atraente. Costuma usar camiseta com logotipo grande e calça xadrez justa – basicamente, o que eu usava no ensino médio na década de 1990, só que eu parecia uma aberração e ele fica incrível. É o tipo de jovem que fala sinceramente de suas paixões: "Minhas duas principais paixões são os animais e a tecnologia." No Instagram e no YouTube é conhecido como Tomas Pasie, e faz parte de um nicho da internet conhecido como Pet Tube: comunidade de pessoas que filmam seus numerosos e exóticos animais.

Existem vários motivos pelos quais uma pessoa pode vir a ter muitos bichos de estimação incomuns. Por exemplo, porque ama os animais. Mas também porque o YouTube é apaixonado por animais – quanto mais, melhor. "Ter um grande número de bichos de estimação não é meu objetivo, mas, quanto mais pets, mais visualizações no YouTube", explicou Pasiecznik.

No momento, Pasiecznik tem 31 animais (é difícil calcular individualmente suas colônias de baratas e de isópodes, por isso ele conta cada colônia como um animal de estimação). Esse é um número relativamente modesto para ele. Seus vídeos mais populares incluem "Alimentando minhas 31 tarântulas (DEU ERRADO)" (3,7 milhões de visualizações), "ALIMENTANDO TODOS OS MEUS ANIMAIS (MAIS DE CEM PETS) [INSANO]" (1,6 milhão de visualizações) e a versão em espanhol do mesmo vídeo, "ALIMENTANDO A TODOS MIS ANIMALES (+ CIEN MASCOTAS) *INCREÍBLE*" (1,8 milhão de visualizações).

Pasiecznik cresceu assistindo ao YouTube, e seu conteúdo é feito sob medida para satisfazer os impulsos da plataforma: ele combina as demandas por esquisitices a instruções hiperpráticas. Em um vídeo típico, ele conversa com a câmera ao som de uma música eletrônica, exibindo competência enquanto instrui os espectadores em relação aos detalhes da criação de aranhas, da preparação de salsichas para os lagartos ou da umidificação adequada do viveiro dos camaleões.

Ele divulga os vídeos com colagens fotográficas coloridas que apresentam uma imagem centralizada de seu rosto, ao lado de um bando de animais estranhos. O título dos vídeos enfatiza a natureza "insana" de sua "coleção" de animais. Em 2018, apareceu no programa de TV Ripley's Believe It Or Not (Acredite Se Quiser, no Brasil) como um "colecionador prolífico" de "animais de estimação malucos". Mas Pasiecznik resiste a essa definição.

Ele disse que não gosta da palavra "coleção". Costumava acumular muitas latas de energéticos Monster – isso, sim, era uma coleção. Seus animais são indivíduos que ele ama e dos quais cuida. Segundo ele, foi sua mãe quem o ensinou a ter empatia com criaturas estranhas. "Ela me ensinou a realmente amar todos os animais, por menores que sejam".

Pasiecznik nasceu na Argentina – o espanhol é sua língua nativa – e, depois de se mudar para os Estados Unidos "literalmente sem nada" e de ocupar uma série de apartamentos alugados, sua família se mudou para uma casa própria nos arredores de Nova Jersey, onde ter um animal representava a liberdade absoluta. Agora, nenhum proprietário poderia impedir Pasiecznik de ter uma cobra, ou muitas cobras.

Durante o ensino médio, Pasiecznik foi considerado o "Rapaz Mais Diferente" no livro de recordações da escola. Na foto do anuário, sua camiseta dizia: "Sou como um réptil. Normal, mas muito mais legal." Às vezes, os amigos, de brincadeira, ameaçavam matar seus bichos. "Talvez eles não notassem que estavam sendo grosseiros quando diziam que iam pisar nos meus bichos. Eu havia cuidado daquela aranha desde que ela era deste tamaninho", observou ele, apontado para a ponta da unha do dedão.

A cena Pet Tube é curiosa. Algumas de suas maiores personalidades são Emzotic, antiga funcionária de um zoológico britânico que se tornou youtuber; Taylor Nicole Dean, entusiasta de répteis com visual gótico que voltou ao YouTube depois que pausou o canal por mais de um ano para se concentrar em sua sobriedade; Marlene Mc'Cohen, atriz e criadora de pássaros que cria pequenas personas para cada um de seus 12 papagaios; e Thmpsn, violinista clássico e influenciador que se rodeia de cobras, um coelho enorme e várias mulheres com enormes implantes de silicone.

À primeira vista, o conteúdo pode parecer enfatizar a natureza exótica da "coleção" de animais e da domesticação destes em uma casa no subúrbio. Parte de seu apelo é a curiosidade de ver um papagaio voando sobre um tapete cinza, ou um monte de cobras deslizando em um piano. Mas, de outro ponto de vista, as imagens representam um compromisso radical com o cuidado, muitas vezes dedicado a animais que a maioria das pessoas não considerou cuidar. São pessoas que amam animais, incluindo os estranhos, até mesmo enxames de bichos potencialmente nojentos.

Em seus vídeos e posts no Instagram, a evidente perícia de Pasiecznik pode esconder a profundeza emocional do cuidado com os animais de estimação. Ele se formou recentemente no Instituto de Tecnologia de Nova Jersey, e diminuiu a produção de vídeos para o YouTube enquanto se concentrava na faculdade e nos próprios animais. Quando conversamos, seu camaleão Rango, de sete anos, tinha acabado de morrer (depois de ter atingido a expectativa de vida de um camaleão doméstico).

Rango estava, no momento, no freezer de Pasiecznik, à espera de um destino adequado; ele está pensando em preservar seus animais de estimação falecidos na esperança de doá-los a algum tipo de museu. Perguntei-lhe se, quando criança, ele tomou conhecimento da morte por possuir tantos animais, e por um momento ele ficou em silêncio. "Falar desses animais mexe comigo. Estou ficando emocionado agora mesmo", comentou, sugerindo em seguida que eu assistisse a um vídeo que ele postou no YouTube sobre o assunto há alguns anos.

Naquela noite, procurei na internet até encontrar o vídeo, chamado "Ele morreu... meu primeiro lagarto de estimação (história completa)", ilustrado com uma foto de Pasiecznik bem jovem, segurando com orgulho uma criaturinha. Um grande emoji triste paira sobre a imagem.

No vídeo, Pasiecznik conversa com a câmera ao som de uma incansável melodia eletrônica. Ele explica que, aos cinco anos, comprou Seth, lagarto de cauda longa, na PetSmart. Ele queria uma cobra, mas seus pais não permitiram, de modo que comprou o lagarto que mais se parecia com uma cobra. Gostava tanto de Seth que não o tirava do colo. "Eu fiz o que ninguém deve fazer. Segurei meu lagarto e não permiti que ele se aclimatasse", contou Pasiecznik.

Na manhã seguinte, depois de ter segurado o lagarto por tanto tempo, Pasiecznik se viu diante de uma cena macabra no terrário de Seth. O animal estava morto, com a boca cheia de terra. "Foi tudo culpa minha, porque eu não parava de segurá-lo."

Essa foi uma história muito triste de um menino e seu lagarto, mas também uma prova de como o YouTube passou a fazer parte da relação entre seres humanos e animais, moldando nossas experiências emocionais mais profundas para que se encaixem em suas especificações tecnológicas. A descrição do vídeo diz: "O primeiro lagarto que ganhei morreu... UM DIA DEPOIS QUE O RECEBI! Era um lagarto de cauda longa do PetSmart! Eu só tinha cinco anos! Ter répteis como animais de estimação é incrível! Cobras, lagartos e sapos, todos são DEMAIS!"

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