Emilio Parra Doiztua/The New York Times
Emilio Parra Doiztua/The New York Times

'Peter Grimes' navega pelas águas agitadas do Brexit e da pandemia

Uma produção da ópera de Benjamin Britten no Teatro Real em Madrid destaca difíceis novas condições para artistas britânicos trabalhando na União Europeia

Raphael Minder, The New York Times - Life/Style

14 de maio de 2021 | 05h00

MADRI – Em uma nova produção de Peter Grimes que estreou recentemente na casa de ópera Teatro Real, as pessoas de uma cidade litorânea inglesa agitam a bandeira britânica e se aglomeram em um pub em busca de abrigo contra uma chuva repentina.

Escrita em 1945, a ópera de Benjamin Britten sobre um pescador malfadado é uma das obras mais quintessencialmente inglesas do repertório de ópera, mas a recente saída do Reino Unido da União Europeia e a proibição de viagens e outras restrições desencadeadas pela pandemia do coronavírus tornaram a encenação em Madri uma viagem por águas agitadas e desconhecidas. "Ter de lidar com o Brexit e a com pandemia ao mesmo tempo foi diabólico", disse Joan Matabosch, diretora artística do Teatro Real.

O espetáculo é uma coprodução com três outros teatros, incluindo a Royal Opera House de Londres, na qual fará temporada em março do ano que vem, e 17 pessoas tiveram de viajar do Reino Unido a Madri para ensaios e apresentações. Quase todos os cantores principais da produção são britânicos, assim como a diretora, Deborah Warner.

Até primeiro de janeiro, enquanto o Reino Unido estava em um período de transição depois da saída da União Europeia, os artistas britânicos podiam trabalhar em todo o bloco sem a necessidade de visto. Desde então, têm de solicitar, país por país, visto de entrada e autorização de trabalho de curta duração. Cada Estado-membro da UE definiu os próprios requisitos, tornando o processo ainda mais complexo para os artistas que querem viajar pelo continente.

Os ensaios em Madri começaram com duas semanas de atraso devido às dificuldades para obter os vistos e à proibição de viagens que entrou em vigor depois que uma nova variante do coronavírus foi identificada na Inglaterra no ano passado. O cronograma de apresentações teve de ser encurtado em uma apresentação, com menos dias de descanso, para permitir que os membros britânicos do elenco pudessem sair da Espanha dentro do limite de 90 dias do visto. Gregorio Marañón, presidente do Teatro Real, informou ter conversado pessoalmente com três ministros espanhóis para ajudar com a papelada necessária para os visitantes britânicos.

Matabosch comentou que muitas das dificuldades da produção surgiram "porque ninguém parecia realmente saber como as novas regras do Brexit se aplicavam. Assim, algumas pessoas tiveram de fazer três tentativas para chegar a Madri, mas pelo menos finalmente todas chegaram aqui".

As produções de ópera são planejadas com bastante antecedência. O Teatro Real decidiu agendar Peter Grimes para 2021 há quatro anos, quando o Reino Unido tinha acabado de realizar um referendo para sair da União Europeia, "mas ninguém imaginava que demoraria tanto para que o Brexit realmente fosse concretizado", observou Matabosch.

As negociações entre o governo britânico e a União Europeia se arrastaram, porque Bruxelas não queria que o Reino Unido escolhesse a dedo os benefícios que se aplicam aos Estados-membros, enquanto se livrava das obrigações da adesão. Mesmo depois que um acordo geral foi concluído, as especificidades de muitas questões permaneceram sem solução, incluindo como funcionaria o visto de viagem para os artistas.

No Reino Unido, uma verificação parlamentar está em andamento, estimulada por um coro de críticas a respeito da situação pós-Brexit para os artistas, com reclamações de grandes estrelas do pop como Elton John e Dua Lipa. Em fevereiro, o ministro da Cultura do Reino Unido, Oliver Dowden, culpou Bruxelas por rejeitar uma proposta britânica de conceder aos artistas britânicos acesso facilitado às 27 nações restantes da UE. "É importante observar que apresentamos o que a indústria musical havia pedido", argumentou Dowden perante o Parlamento. Mas Michel Barnier, negociador-chefe de Bruxelas, insistiu que foi Londres que rejeitou, no ano passado, uma oferta da UE relativa a condições especiais para músicos e outros artistas em viagem.

Warner foi mordaz em relação à falta de um acordo para os artistas britânicos, dizendo que os problemas de visto da equipe de produção eram provenientes da "negligência escandalosa dos negociadores do Reino Unido que fracassaram por completo com o mundo da música".

A Espanha foi um dos países mais atingidos no início da pandemia, quando os hospitais em Madri transbordaram de pacientes com Covid-19. Mas, depois que o estado de emergência nacional foi encerrado no verão boreal passado, a casa de ópera de Madri foi reaberta, além de muitos outros teatros por toda a Espanha.

Desde então, as autoridades regionais que governam Madri mantiveram a capital da Espanha entre as cidades mais movimentadas da Europa, embora o número de casos de coronavírus tenha aumentado novamente. Enquanto o Teatro Real teve de cancelar algumas apresentações de balé e concertos, encenou várias óperas com sucesso.

A casa de ópera informou ter gastado cerca de 240 mil euros (quase US$ 290 mil) com testes regulares de funcionários e trabalhadores convidados e que cerca de 20 tiveram de se isolar em março, incluindo alguns membros do elenco de Peter Grimes.

Em entrevista na véspera da noite de estreia, Warner revelou: "Eu tinha minhas dúvidas quanto à probabilidade de montar o espetáculo e, alguns momentos antes de chegar aqui, eu me perguntava se isso era sábio." Ela disse que sentiu que "havia uma loucura" no plano do Teatro Real de encenar Peter Grimes, que é sobre uma comunidade unida e, portanto, não poderia ser montada com distanciamento social no palco.

No entanto, ao olhar para trás, ela também comentou que os principais temas da "ópera chocante" de Britten, incluindo as referências ao nacionalismo inglês, ressoaram com "o estresse desta época".

Em Madri, os cantores britânicos deram as boas-vindas à oportunidade de atuar em uma grande produção de Peter Grimes envolvendo cerca de 150 artistas, num momento em que a maior parte das casas de ópera da Europa e dos Estados Unidos está fechada, mas também pareciam estar ansiosos com o que viria em seguida.

James Gilchrist, que interpreta um padre na ópera de Britten, disse que 90 por cento de sua carreira tinha sido na União Europeia, e não no Reino Unido, o que fez com que se preocupasse não apenas com o próprio futuro, mas também com as perspectivas de artistas mais jovens: "Se você é um produtor em Frankfurt ou em algum lugar assim, não vai querer colocar um artista britânico no topo da lista, porque isso vai dar muito trabalho."

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