Martin Klingsick
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Petroleiros 'desaparecem' para evitar sanções dos EUA

Com sanções de Trump aos produtos petroquímicos do Irã, frotas marítimas desafiam restrições

Michael Forsythe e Ronen Bergman, The New York Times

13 de julho de 2019 | 06h00

No final de junho, um pequeno petroleiro procedente da China se aproximava do Golfo Pérsico depois de uma viagem de 19 dias. A certa altura, o comandante transmitiu a posição do navio, curso e velocidade, e informou que estava alto na linha de flutuação, provavelmente indicando que estava vazio. Depois, a embarcação de propriedade chinesa, a Sino Energy 1, desapareceu.

Só voltou a dar notícias seis dias mais tarde, perto do local onde havia desaparecido, e somente então rumou para leste, depois do Estreito de Ormuz, nas proximidades do Irã. Outros navios que fazem viagens semelhantes também informam que viajam baixos na linha de flutuação, indicando que estão cheios. Com as sanções aplicadas pelo governo Trump ao petróleo e aos produtos petroquímicos do Irã, algumas frotas marítimas desafiam as restrições ‘desaparecendo’ quando embarcam a carga em portos iranianos, segundo as autoridades de Israel.

“Eles ocultam as suas atividades”, disse Samir Madani, um dos fundadores da TankerTrackers, uma companhia que usa imagens de satélite para identificar os petroleiros que rumam para portos iranianos. “Eles não querem divulgar que estiveram no Irã burlando as sanções”.

Um tratado marítimo supervisionado por uma agência das Nações Unidas exige que os navios que navegam em rotas internacionais tenham um sistema de identificação automática. O objetivo é evitar colisões, e também permite que os países monitorem o trânsito de embarcações.

Pelas leis internacionais não é ilegal comprar e transportar petróleo iraniano ou produtos derivados. Mas as companhias estrangeiras que têm negócios com companhias americanas correm o risco de ser punidas por fazer isto. As medidas do presidente Donald Trump para impedir as exportações de petróleo iraniano e derivados, que começaram a vigorar no final do ano passado, são a causa de crescentes tensões entre os dois países. Ele acaba de impor novas sanções, e praticamente ordenou um contra-ataque depois que o Irã derrubou um drone americano de vigilância.

O Irã tenta contornar as sanções americanas oferecendo “consideráveis reduções” do preço do seu petróleo e derivados, afirmou Gary Samore, que fez parte do governo Obama. Quando as empresas de navegação desafiam as sanções, enfraquecem sua eficácia, principalmente se elas - ou os países nos quais estão sediadas - não sofrem nenhuma consequência, dizem os analistas. Algumas destas empresas que têm relações diretas com o Irã não tentam esconder seus movimentos, como mostram dados fornecidos pelos sites de rastreamento.

Navios de grande porte, como o Salina, um petroleiro punido pelas sanções que pode transportar um milhão de barris de petróleo bruto, são facilmente detectados pelos satélites. Mas embarcações menores, como o Sino Energy 1 e seus irmãos são mais difíceis de monitorar. Até abril, os navios pertenciam a uma subsidiária da Sinochem, uma companhia chinesa que é uma das maiores do mundo no setor petroquímico, e tem fortes vínculos comerciais com os Estados Unidos.

A companhia declarou que “adota medidas rigorosas de conformidade e governança para o controle das exportações e das sanções,” embora um antigo funcionário que trabalhava  na administração de negócios no transporte marítimo tenha afirmado que, durante anos, a companhia transportou produtos petroquímicos do Irã. Os dados obtidos dos sites de rastreamento mostram também que alguns dos navios da Sinochem realizavam viagens para o Irã antes que a frota fosse vendida, e antes e depois de as sanções americanas entrarem em vigor.

Em algumas partes do mundo, inclusive no Mar da China Meridional, não é incomum os navios silenciarem, disse o analista Court Smith, acrescentando que às vezes fazem isto por causa da concorrência. Mas no Golfo Pérsico, os navios não costumam desligar o sistema, conhecido como AIS “Se o sinal de AIS se perde, quase certamente é porque foi desativado ou desligado”, disse Smith referindo-se aos navios do Golfo Pérsico. “O comandante decidiu desligar o AIS”.

O SC Mercury, outro navio da Sinochem, sumiu por cerca de nove dias, no fim de dezembro e começo de janeiro, perto de ponto em que o Sino Energy 1 desapareceu. Mas no início de abril, o curso do petroleiro no Golfo Pérsico não apresentou nenhuma interrupção do sinal. O destino eram os Emirados Árabes Unidos. / Keith Bradsher e Rich Harris contribuíram para a reportagem.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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