Hasan Shirvani/Mizan News Agency, via Associated Press
Hasan Shirvani/Mizan News Agency, via Associated Press

Apesar de sanções americanas, Irã mantém comércio de petróleo em segredo

Governo Trump quer reduzir para zero exportações do petróleo iraniano, negando ao regime sua principal fonte de receitas

Farnaz Fassihi, The New York Times

16 de agosto de 2019 | 06h00

Eles mudam de escritório em poucos meses. Vasculham suas empresas à procura de aparelhos de escuta escondidos. Têm consciência de que estão sendo vigiados, e imaginam que os seus itens eletrônicos  estejam sendo hackeados. São os traders de petróleo do Irã, e de repente estão sendo investigados. “Às vezes,  tenho a impressão de ser um ator de um filme de espionagem”, comparou-se Meysam Sharafi, trader de Teerã. Desde que o presidente Donald J. Trump impôs sanções às vendas de petróleo iraniano, no ano passado, as informações sobre  estas vendas tornaram-se uma valiosa arma geopolítica. E o negócio da venda do petróleo iraniano, outrora um empreendimento seguro e lucrativo para os que estão bem relacionados, se transformou em um jogo global de espionagem e contraespionagem de alto risco.

Os traders contam ter recebido todo tipo de proposta sedutora em troca de informações. Os europeus do Leste apareceram em Teerã com malas de vodka e vinho tinto, prometendo dobrar  a comissão dos intermediários. Um homem que se dizia um acadêmico americano ofereceu um adiantamento mensal de US$ 5 mil para quem o ajudasse em sua pesquisa sobre a indústria petrolífera. Prostitutas armênias disfarçadas de mulheres de negócios propuseram férias dos sonhos.

Comerciantes de petróleo contam que estrangeiros, que supostamente trabalhariam para os Estados Unidos, ofereceram cifras astronômicas, de US$ 100 mil a US$ 1 milhão, somente para os números da conta bancária do Ministério do Petróleo usados em uma venda. Em pelo menos um caso, um cliente estrangeiro despachou agentes mulheres para testar  que tipo de informação um trader poderia divulgar.

No mês passado, o Irã disse que  desmantelou uma rede de espiões e prendeu 17 iranianos que estariam trabalhando para a CIA, coligindo informações sobre as vendas de petróleo. O presidente Trump negou que os suspeitos, alguns dos quais foram condenados à morte, trabalhassem para a CIA. O ministro do Petróleo, Bijan Zanganeh, proibiu a divulgação de dados referentes à produção no ano passado, depois que Washington saiu do acordo nuclear do Irã e impôs sanções às exportações e transações com petróleo. “As informações sobre as exportações de petróleo do Irã são informações de guerra”, disse em julho.

Das dez pessoas que, em média, contatam o Ministério do Petróleo diariamente para perguntar sobre compra de petróleo, sete não são clientes de verdade. “Elas procuram saber  como funciona todo o nosso sistema”, afirmou. O governo Trump disse que o objetivo das sanções, que em maio atingiram um rigor maior ainda, é “baixar para zero as exportações do petróleo iraniano, negando ao regime sua principal fonte de receitas”.

Venda de petróleo

Embora o objetivo ainda não tenha sido alcançado, analistas calculam que as vendas de petróleo do Irã ao exterior caíram consideravelmente, de 2,5 milhões de barris diários, antes que a primeira leva de sanções entrasse em vigor em 2018, para cerca de 500 mil. Por outro lado, o Irã adotou uma série de medidas para contornar as sanções, afirmam traders e especialistas em petróleo, desligando os localizadores de GPS nos seus petroleiros, levando o produto para o alto mar, misturando o seu petróleo com o iraquiano, falsificando os manifestos de expedição para mostrar que sua origem não é iraniana. O Irã também tornou mais rigoroso o seu sistema de comércio do setor e intensificou a segurança. Três traders iranianos descreveram as medidas para o New York Times, mas exigiram que suas identidades não fossem reveladas, temendo por sua segurança.

Os milhares de corretores que concluem negócios com petróleo entre os compradores e o Ministério do Petróleo foram substituídos por um punhado de traders autorizados. Eles se reportam a quatro funcionários  do ministério, que dividiram o mercado por região: Síria, China, Índia e Europa. Cada plano de compra é customizado, dependendo de quem está comprando, quanto está comprando e para onde a carga se dirige.

Os compradores são obrigados a enviar representantes a Teerã como uma maneira de proteger as informações e a identificar os clientes legítimos. Os traders são proibidos de discutir preço, embarque ou pagamento com os clientes. “O espaço à nossa volta passou a ter como preocupação principal a segurança”, disse Sharafi, um dos traders. Para encorajar os compradores, o Irã vende o seu petróleo a cerca de US$ 4 o barril abaixo do preço de mercado. Exige ainda um adiantamento de 10% e o pagamento total antes de permitir que os barris sejam descarregados.

Novo sistema

A fase de pagamento é vigiada com rigor extremo. Contas bancárias no exterior são abertas e fechadas no prazo de poucas horas, apenas o tempo de fazer os depósitos e as transferências. Enquanto estas transações ocorrem, corretores e compradores são mantidos sob vigilância. Assim que a operação é concluída, são liberados e podem partir. Segundo os traders de petróleo, o novo sistema está funcionando.

“O nosso maior temor a respeito do colapso da economia não se materializou”, comemorou Farshad Toomaj, ex-trader que dá consultoria ao Ministério do Petróleo da Suécia. “O Irã tornou-se um país muito criativo e sofisticado na busca de maneiras de vender o petróleo”. / JULIAN BARNES CONTRIBUIU PARA A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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