Michelle V. Agins/The New York Times
Michelle V. Agins/The New York Times

Pianista de restaurante, Dom Salvador ajudou a definir o samba-soul

Há 41 anos ele toca jazz no River Café, e agora está pronto para ser o centro das atenções novamente

Matthew Kassel, The New York Times

21 de novembro de 2018 | 06h00

Uma noite de terça-feira, um homem de aparência modesta entrou no River Café, no Brooklyn, sentou-se  na frente de um piano Steinway e começou a tocar músicas conhecidas. Alguns clientes balançaram a cabeça, mas ninguém parecia se dar conta de que o homem no piano era Dom Salvador, uma das figuras mais influentes da música popular brasileira.

Nos anos 50, criança-prodígio, tocava a maior parte da noite em clubes dançantes; nos anos 60, o jovem ajudou a criar o samba-jazz nos palcos mais famosos do Rio de Janeiro; e no início dos 70, já era um dos mais importantes músicos do samba-soul, uma variante brasileira do funk e do soul americanos. Mas deixou tudo isto. 

Em 1973, mudou-se para Nova York com a intenção de se firmar como músico de jazz, e chegou a ser diretor musical de Harry Belafonte. Também abandonou tudo isto. Em 1977, foi contratado para tocar piano cinco noites por semana em um novo restaurante fino, recém-inaugurado, e continua lá, desde então. “Se ele fosse tão famoso como realmente merece ser, as pessoas invadiriam aquele local”, disse o D.J. Greg Caz, especialista em música brasileira.

Embora Salvador não se arrependa de nada, aos 80 anos, também tem plena consciência de que o tempo para deixar a sua marca no jazz de Nova York com uma banda própria está se esgotando. Salvador da Silva nasceu em 1938 em uma família de músicos em Rio Claro, no Brasil. O mais novo de 11 filhos, treinava técnicas de dedilhado em folhas de papel porque a família não tinha piano. Inicialmente, estudou música clássica, mas o rádio tocava Pixinguinha, considerado o Louis Armstrong brasileiro, junto com o swing americano.

A sua maior aspiração era ser músico de jazz. Aos 14 anos, estava tocando piano em uma orquestra de músicas dançantes muito conhecida, a Excelsior. Os shows de fim de semana começavam às 10 da noite e acabavam às 4 da manhã, mas Salvador só tocava até a meia-noite.

Em 1961, quando a bossa nova, a diáfana mescla de samba e jazz da Costa Oeste, decolava internacionalmente, Salvador deixou a sua casa e foi para São Paulo. Ali conheceu uma jovem cantora de jazz, Maria Ignes Vieira. Logo se apaixonou. Dali, Salvador foi para o Rio com Maria, e se tornou uma figura constante no Beco das Garrafas, onde nasceu a bossa nova.

Foi ali que ele conheceu o baterista Edison Machado e o baixista Sérgio Barrozo. Juntos formaram o Rio 65 Trio, e gravaram dois álbuns de samba-jazz, que fundia a energia do improviso do bebop com os ritmos brasileiros. O objetivo de Salvador era tornar o samba, já um pouco desgastado, uma força propulsora. Trabalhando como músico de estúdio por conta própria, tocou em mais de mil gravações, na maior parte sem créditos.

Em 1969, um produtor, voltando de uma viagem aos EUA, trouxe na mala uma pilha de LPs de funk e soul. A ideia era que Dom Salvador fizesse algo semelhante. “Gostei do que ouvi, mas falei para ele: ‘se for para eu copiar, não vou copiar’”, disse Salvador. “Vou fazer do meu jeito”. O resultado foram gravações originais da alma brasileira, em que Salvador interpretou o funk americano através do prisma do samba. Chamou o álbum “Dom Salvador”. O apelido ficou.

Em seguida, montou um conjunto de samba-soul chamado Dom Salvador e Abolição. Salvador e Maria casaram em 1965. Seu primeiro filho, Marcelo, nasceu no ano seguinte, e Simone em 1970. A ditadura militar começou a perseguir os artistas. Em meados de 1970, Salvador estava em Nova York, seguindo sua carreira no jazz. “Quando cheguei aqui, tive de começar tudo de novo”, contou. Um contrato de gravação com a CBS não deu certo, “e as casas noturnas não pagavam o suficiente”.

Harry Belafonte o convidou para ser o seu arranjador. Salvador tocou no álbum de Belafonte “Turn The World Around” e fez turnê pela Europa em 1977. “Na época, a minha situação financeira mudou bastante”, disse Salvador. “Já podia cuidar melhor da família”. No entanto, sentia-se culpado por ter deixado a família para trás e, por outro lado, as excursões estavam secando. Em 1977, foi embora.

Salvador não imaginava que o trabalho no River Café pudesse durar tanto tempo quanto durou, e alguns especulam que a sua carreira não decolou nos Estados Unidos porque ele nunca teve uma boa divulgação; outros acham que ele era apenas demasiado retraído. Seria fácil ver a carreira de Salvador como uma série de oportunidades perdidas, no entanto, com o dinheiro que ele ganhava fixo no River Café, conseguiu mandar os filhos para a universidade, e tem uma vida relativamente confortável.

Marcelo da Silva, seu filho de 52 anos, disse que o relacionamento com o pai foi difícil, mas que ele sempre se preocupou com a família. “Às vezes, o seu ego atrapalha um pouco”, afirmou. “Meu pai sempre se dedicou totalmente à música”.

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