Maxime Aubert/The New York Times
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Becky Ferreira, The New York Times - Life/Style

22 de fevereiro de 2021 | 05h00

Em um vale escondido de uma ilha indonésia, há uma caverna decorada com o que pode ser a mais antiga obra de arte figurativa já vista pelos olhares modernos. 

A vívida imagem de um porco selvagem, delineada e preenchida com pigmentos de tons arroxeados, foi pintada há pelo menos 45.500 anos, de acordo com um estudo publicado na quarta feira na revista científica Science Advances. A pintura foi descoberta no fundo de uma caverna chamada Leang Tedongnge, em dezembro de 2017, durante uma pesquisa arqueológica conduzida por Basran Burhan, um estudante de graduação da Universidade Griffith e coautor da nova pesquisa. O animal retratado na pintura lembra um javali das visayas (Sus cebifrons), espécie ainda presente na ilha de Sulawesi, onde fica a caverna.

Sulawesi já foi considerada por alguns especialistas o local que abriga as mais antigas obras representativas de arte rupestre no mundo. Uma cena cativante, registrada em outro ponto da ilha, que mostra seres híbridos entre humanos e animais, foi pintada há pelo menos 43.900 anos, de acordo com uma pesquisa publicada pela mesma equipe em 2019.

Esse exemplos de arte rupestre, juntamente com outra imagem de porco descoberta em uma caverna mais ao sul, por Adhi Agus Oktavhiana, também estudante de graduação da Universidade Griffith e coautor do estudo, fornece indícios da sofisticação das culturas que viviam nas ilhas indonésias. As descobertas também abrem um debate a respeito de os artistas terem sido Homo sapiens ou de outra espécie já extinta de humanos.

O sítio arqueológico de Leang Tedongnge fica a somente 65 quilômetros de Makassar, uma fervilhante cidade de aproximadamente 1,5 milhão de habitantes. Mas a caverna permaneceu praticamente intocada, porque fica em um local de difícil acesso.

“A única maneira de chegar lá é por uma trilha difícil, um caminho acidentado pelo meio da selva, que serpenteia um terreno montanhoso e termina na boca estreita da caverna. É a única entrada para o vale”, afirmou Adam Brumm, também arqueólogo da Universidade Griffith e coautor do estudo. “Só é possível acessar o vale durante a estação seca; na estação chuvosa, o vale fica completamente alagado, e os moradores só conseguem circular em canoas”.

Brumm deu crédito a cientistas locais e outras pessoas pela descoberta da caverna ter sido possível.

Depois de descobrir a pintura do porco, a equipe usou datação radiométrica com urânio para determinar a idade mínima da obra, chegado a 45.500 anos. Mas é possível que a pintura seja milhares de anos mais antiga, porque essa técnica detecta somente a a idade do depósito mineral, o espeleotema, que se formou nas paredes da caverna.

A questão a respeito de quem fez as pinturas ainda está cercada de mistério.

Restos de esqueletos humanos de 45.500 anos ou mais nunca foram encontrados em Sulawesi, então, não está claro se os artistas eram humanos modernos anatomicamente. As ilhas que compõem atualmente a Indonésia foram habitadas por diferentes tipos de hominídeos - a família taxonômica mais ampla à qual os humanos pertencem - por longos períodos. Alguns dos restos desses hominídeos datam de “mais de 1 milhão de anos”, afirmou Rasmi Shoocongdej, arqueóloga da Universidade Silpakorn University, na Tailândia, que não está envolvida no estudo.

Brumm e seus colegas supõem que os pintores eram humanos modernos, “dada a sofisticação dessa antiga obra de arte representativa”. Além disso, as pinturas ancestrais compartilham características com arte pré-histórica feita por humanos em outras partes do mundo, incluindo a presença de mãos em negativo e o uso de “perspectiva torcida”, na qual animais são pintados ao mesmo tempo de perfil e frontalmente.

Brumm afirma acreditar que é somente uma questão de tempo até que restos humanos dessa idade sejam descobertos em escavações arqueológicas na região.

João Zilhão, arqueólogo da Universidade de Barcelona que não está envolvido no estudo, discorda da hipótese de que humanos modernos tenham feito as pinturas. Enquanto coautor de um estudo de 2018 que sugere que os neandertais fizeram arte não figurativa em paredes de cavernas da Espanha, ele acha que outra espécie humana já extinta possa ter criado as imagens em Sulawesi.

“Um humano anatomicamente moderno é uma definição da anatomia”, afirmou ele. “Isso não tem nada a ver com cognição, inteligência ou comportamento.”

Zilhão acrescentou, “Não há evidências da anatomia de quem fez isso”.

Enquanto é fácil ter foco na alegação de que essas são as imagens pré-históricas mais antigas já encontradas, Margaret Conkey, professora emérita da Universidade da Califórnia, em Berkeley,  afirmou que isso ofusca as “implicações muito mais amplas” da descoberta.

O que se destacou a respeito desse estudo, sob sua perspectiva, foi a “importante contribuição para o entendimento de como humanos puderam se conectar uns com os outros” na Sulawesi pré-histórica e “como eles criaram mundos sociais por meio de manifestações materiais e visuais”.

Enquanto o novo estudo usa o termo “mais antigo”, Brumm e seus colegas esperam encontrar imagens em Sulawesi ainda anteriores.

“Achamos que existem artes rupestres muito mais antigas e outras evidências da ocupação humana em Sulawesi e outras ilhas na região oriental da Indonésia, conhecida como arquipélago Wallacea, que é a ligação com o continente autraliano”, afirmou Brumm.

Infelizmente, há uma luta contra o tempo: a arte rupestre indonésia está se deteriorando rapidamente, o que levanta a triste hipótese de que muitas das pinturas mais antigas da Terra podem desaparecer antes de serem descobertas.

“Documentamos esse fenômeno em quase todos os sítios de arte rupestre na região, e o monitoramento de nossos colegas da agência local de patrimônio cultural sugere que o desgaste das obras ocorre em um ritmo alarmante”, afirmou Brumm. “Isso é muito preocupante e, dada a atual situação, o resultado final poderia ser uma possível destruição dessa arte indonésia da era glacial, o que talvez possa até ocorrer durante a nossa geração.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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