Randall Munroe
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Qual é o pior cheiro do mundo? Isso pode ser difícil de determinar

Experimentos dela revelaram que, com frequência, pessoas de diferentes perfis discordam muito a respeito de quais cheiros são considerados bons ou ruins

Randall Munroe, The New York Times

25 de fevereiro de 2020 | 06h00

Um leitor pergunta: qual é o cheiro universalmente considerado o mais nojento pelos humanos? Os odores podem ser uma característica muito subjetiva. Em 1998, a psicóloga cognitiva Pamela Dalton, do Centro de Sentidos Químicos Monell, na Filadélfia, recebeu a tarefa de desenvolver uma bomba de cheiro para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Os experimentos dela revelaram que, com frequência, pessoas de diferentes perfis e diferentes partes do mundo, que cresceram sentindo cheiros diferentes e saboreando comidas diferentes, discordam muito a respeito de quais cheiros eram considerados bons ou ruins.

O melhor candidato a cheiro universalmente repulsivo identificado por Dalton foi algo chamado “Fedor padrão do governo dos EUA”, substância desenvolvida para imitar o cheiro das latrinas de campo do exército, usada no teste de produtos de limpeza. Ela escolheu esse líquido aromático como base de sua receita de bomba de cheiro.

A fórmula resultante, que ela batizou de Sopa Fétida, pode ser o pior fedor jamais criado. A autora Mary Roach, especializada em ciência, é uma das poucas pessoas que já sentiram o cheiro da Sopa Fétida. Em, seu livro de 2016, Grunt: The Curious Science of Humans at War, ela descreveu o aroma como “o diabo sentado em um trono de cebolas podres”.

Seria a Sopa Fétida realmente o pior cheiro do mundo? É difícil dizer, em parte porque a pesquisa de fedores pode ser difícil. Os químicos contam histórias a respeito de uma substância chamada tiocetona, que em 1889 foi objeto de experiências em um laboratório na Alemanha. Uma reação envolvendo tiocetona produziu um odor tão horrível que escapou do laboratório e varreu a cidade, causando pânico generalizado e o abandono temporário das casas.

O químico industrial Derek Lowe, que escreveu a respeito da tiocetona, disse que era difícil saber exatamente quais substâncias provocaram o acidente de 1889. A tiocetona teria sido convertida em outra sustância — ele suspeita que tenha sido o gem-dimercaptan — que pode ter sofrido reações adicionais. Ninguém parece ansioso para reproduzir os experimentos e descobrir quais foram as moléculas produzidas.

“Praticamente todos os compostos produzidos a partir da tiocetona são fedidos”, disse Lowe. Mas é difícil medir o quanto fedem: “Poucos de nós já sentiram o aroma de um gem-dimercaptan. Pode ser uma experiência muito intensa.” A força dos aromas é medida por seu “limiar de detecção”, equivalente à quantidade da substância que precisa ser misturada ao ar para que uma pessoa comum possa sentir esse cheiro.

O limiar de detecção do odor da gasolina equivale a aproximadamente 100 microgramas por metro cúbico. Se três litros de gasolina evaporassem no ar a uma altitude considerável, seria produzido vapor suficiente para que o cheiro de gasolina fosse sentido a uma distância de 180 metros do centro da evaporação.

Há substâncias de cheiro mais forte que a gasolina. O etanotiol, substância adicionada ao gás natural para facilitar a detecção de vazamentos, tem um limiar de detecção de apenas 1 a 2 microgramas por metro cúbico. Se espalhadas e maneira uniforme pela atmosfera, algumas piscinas de etanotiol do tamanho do reservatório no meio do Central Park, em Nova York, poderiam fazer o planeta inteiro ficar com cheio de vazamento de gás. O metanotiol, ainda mais fedorento, conseguiria deixar o mundo inteiro fedido com apenas um reservatório cheio.

Mas nem todos os cheiros fortes são ruins. Uma das substâncias com menor limiar de detecção do odor é a vanilina, principal componente do extrato de baunilha. As estimativas variam, mas o limiar de detecção do seu odor é provavelmente algo como 0,1 ou 0,2 microgramas por metro cúbico, muito abaixo do etanotiol e do metanotiol. Isso significa que um ou dois petroleiros cheios de vanilina poderiam ser usados para deixar o mundo todo com cheiro de baunilha.

Lowe disse que o pior cheiro que já sentiu em toda a carreira veio da combinação de dimetilsulfureto (semelhante à flatulência) com um silicone que ele estava submetendo a uma reação chamada olefinação de Peterson. Nenhum dos dois cheiros seria agradável sozinho, mas, somados, produziram um fedor transcendental. “O cheiro era como o do escapamento de um disco voador”, disse ele. “Espetacularmente estranho e horrível.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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