David M. Phillips/Science Source
David M. Phillips/Science Source

Placenta passa a ser vista como fundamental para a saúde do feto

Órgão ganha destaque inédito após novas pesquisas científicas

Apoorva Mandavilli, The New York Times

14 Dezembro 2018 | 06h00

A placenta é dispensada por muitos como um “subproduto do parto”, tratada como mero detalhe nos debates a respeito da gravidez. Mas o órgão começa a receber a devida atenção. Os cientistas publicaram recentemente três significativos estudos a respeito deste órgão efêmero. Um deles investigou detalhadamente os genes expressados ou convertidos em proteínas funcionais na placenta; outro experimentou com maneiras de silenciar essa expressão quando problemática. No terceiro, os pesquisadores criaram miniplacentas, conjuntos tridimensionais de células que imitam o órgão real em laboratório, podendo ser usados como modelos para o seu estudo.

Além disso, num recente encontro do Human Placenta Project, em Maryland, várias equipes de pesquisadores mostraram novas possibilidades de estudo da placenta em tempo real. Esse trabalho pode ajudar os médicos no diagnóstico de complicações na gravidez - incluindo pré-eclâmpsia (uma forma de pressão alta) e restrição ao crescimento fetal - cedo o suficiente para uma intervenção. Pode ajudar também a revelar por que os meninos são muito mais vulneráveis a distúrbios do desenvolvimento cerebral, incluindo esquizofrenia, autismo e distúrbio de déficit de atenção, ou DDA.

“O elo perdido entre as complicações na gravidez e o desenvolvimento do cérebro do feto estava escondido bem diante dos nossos olhos", disse Daniel R. Weinberger, diretor do Instituto Lieber para o Desenvolvimento Cerebral, em Baltimore, Maryland. “A resposta é a placenta.” Durante a gravidez, a placenta cresce a partir de poucas células até se tornar um órgão pesando cerca de meio quilo; 90% dela é feita de células que não vêm da mãe, e sim do feto.

Tracy Bale, diretora do Centro de Pesquisa Epigenética da Saúde e Desenvolvimento Cerebral da Criança, da Universidade de Maryland, descobriu que a placenta de um feto do sexo masculino é mais vulnerável ao estresse externo à placenta do que a placenta de um feto do sexo feminino. É possível que essa vulnerabilidade seja transferida para o embrião, disse Bale. Os fetos masculinos costumam ser maiores que os femininos, mas a incidência de abortos espontâneos, nascimentos prematuros e natimortos e distúrbios de desenvolvimento neurológico é mais alta entre eles.

Durante o primeiro trimestre, 58 genes são expressados de maneira diferente nos fetos do sexo masculino e feminino, de acordo com análise da revista Biology of Sex Differences. Em maio, a equipe do Dr. Weinberger, do Instituto Lieber, analisou genes ligados à esquizofrenia. Eles descobriram que muitos desses genes são expressados de maneira abundante na placenta fetal, sendo ativados em níveis ainda mais elevados quando há estresse na gravidez; o efeito é mais dramático nos fetos do sexo masculino do que nos do sexo feminino. “Apontamos que as placentas dos fetos de meninos parecem mais suscetíveis no nível genético”, disse Weinberger. “O mesmo será observado quando investigarmos o autismo, DDA e outros problemas comportamentais de desenvolvimento.”

Os problemas com a placenta frequentemente começam nas artérias espirais da mãe - as artérias que o feto requisita para a sua alimentação. Se estiverem bloqueadas ou demasiadamente estreitas, o feto pode não receber oxigênio e nutrientes em quantidade suficiente, e a pressão sanguínea da mãe pode saltar para níveis de pré-eclâmpsia. Isso pode começar já no primeiro trimestre, mas novas ferramentas estão surgindo para diagnósticos num estágio tão precoce.

Alguns cientistas estão apostando em exames de ressonância magnética como a maneira mais detalhada de detectar problemas. Usam um método que mede os níveis de oxigênio no sangue; com a técnica, parece possível identificar problemas já no segundo trimestre. Alfred Z. Abuhamad, especialista da Faculdade de Medicina de Eastern Virginia, disse que a ressonância magnética não é amplamente utilizada nos consultórios dos obstetras, diferentemente das máquinas de ultrassom. O ultrassom tradicional pode mostrar a estrutura e a posição da placenta, mas não diz muito a respeito do funcionamento do órgão. Avanços recentes aprimoraram o detalhamento deste exame.

A equipe de Abuhamad está usando esses avanços no ultrassom para medir a saúde da placenta, reunindo amostras de ultrassom e sangue de mulheres em oito momentos da gravidez. Outras equipes tentam identificar partículas que a placenta pode liberar na corrente sanguínea, pois isso pode ser o caminho para um simples exame de sangue capaz de detectar problemas. E um grupo de pesquisadores está desenvolvendo um dispositivo que quantifica a luz refletida pelas camadas de gordura como medida da oxigenação do sangue.

No futuro, quando exames da placenta forem capazes de identificar um problema, as mulheres poderão procurar o médico para acompanhamento já no primeiro trimestre. “Sabendo que isso começa no primeiro trimestre", disse Abuhamad, “seria possível uma intervenção já no primeiro trimestre - uma identificação precoce e tratamento precoce para evitar as complicações?”

Mais conteúdo sobre:
ObstetríciagravidezFeto

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.