Maksim Blinov/Sputnik, via Associated Press
Maksim Blinov/Sputnik, via Associated Press
Ivan Nechepurenko e Andrew E. Kramer, The New York Times

22 de junho de 2019 | 06h00

MOSCOU - Enquanto a Rússia volta ao cenário mundial com força política, a economia do país sofre com a estagnação do crescimento e a redução da renda da população. O presidente Vladimir Putin tem um plano para mudar esta situação - um plano que envolve pianos.

O Kremlin está promovendo um novo modelo de estímulo ao longo de seis anos no valor de US$ 400 bilhões, destinado a dez setores da economia. Ele inclui as clássicas iniciativas que preveem grandes gastos públicos, como a construção de estradas e aeroportos, e também certa criatividade. A Rússia comprará 900 pianos e construirá 50 rinques de patinação no gelo. Além disso, o plano prevê que, até 2024, os cientistas políticos publicarão 200 artigos sobre genética nas principais revistas especializadas.

Os críticos consideram este conjunto de medidas um passo atrás que ampliará o papel do Estado nas decisões da área econômica, uma volta ao nível de aquisições feitas por escolas de música clássica. Eles o compararam ao Gosplan, o modelo de economia planejada da era soviética, e a sua adoção ocorre poucos meses depois de o governo recomendar aos empresários da Rússia que aumentem os investimentos de capital. 

Este é mais um esforço com a finalidade de contornar as sanções americanas e europeias. O objetivo destas novas medidas é a recuperação da confiança da sociedade russa, a redução da pobreza em 50%, e o aumento da expectativa média de vida de 73 para 78 anos.

Em uma entrevista, o ministro da Economia da Rússia, Maksim S. Oreshkin, zombou das comparações com o planejamento da era soviética. “Nós estabelecemos metas realmente ambiciosas”, ele afirmou. “O crescimento econômico é apenas uma delas. E estabelecemos muitas outras que afetarão diretamente a qualidade da vida dos cidadãos”.

É a mais recente guinada da história econômica pós-soviética da Rússia. Nos últimos dez anos, o Kremlin enfrentou inúmeras dificuldades para pôr em ordem as suas finanças com a queda dos preços do petróleo e as sanções impostas ao país pela invasão da Ucrânia, em 2014.

A Rússia fixou um superávit orçamentário como precaução contra futuras sanções, e usa suas reservas de petróleo como salvaguarda. Agora, o país dispõe de quase US$ 500 bilhões em reservas cambiais e ouro. Mas os economistas afirmam que isto levou a um crescimento econômico extremamente escasso porque retirou dinheiro da economia. Até o presente momento, este ano o Produto Interno Bruto registrou uma expansão de 0,5%, enquanto as rendas reais disponíveis caíram 2,3%.

O plano Projetos Nacionais, assim como outros adotados nos últimos seis meses, transfere a ênfase da demanda do consumidor para os investimentos do próprio Estado como fonte de crescimento. A Rússia continua preocupada em atrair também investimentos privados, disse Oreshkin. Mas é possível que ocorra um problema: as guerras comerciais dos Estados Unidos com a China e outros países poderão reduzir o ritmo da economia global, afetando também a Rússia.

Economistas independentes mostraram-se perplexos quanto à possibilidade de o plano alcançar as metas estabelecidas. Um dos objetivos é dobrar a atual taxa de crescimento de modo que a economia russa possa registrar uma expansão superior à média global. Mas muitos economistas afirmam que é quase certo que os gastos previstos pelo estímulo, individualmente, não permitirão atingir esta meta. Na opinião destes especialistas, a atividade econômica só crescerá com a reforma do sistema judiciário visando a proteção dos direitos de propriedade.

O retorno do plano econômico continua a lenta alternância pós-soviética da Rússia de privatização e reestatização. Entretanto, sem o aprimoramento das relações e o fim das sanções, restam poucas outras opções. “O governo poderia estimular o setor privado”, opinou Kiril V. Tremasov, um banqueiro de investimentos de Moscou, “mas o resultado não seria claro por causa das sanções e das tensões geopolíticas”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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