Laura Boushnak para The New York Times
Laura Boushnak para The New York Times

Plano para construir a Dubai dos Balcãs irrita moradores de Belgrado

Os moradores que vivem perto do projeto, que custará 3 bilhões de euros, na orla de Belgrado, dizem que foram ameaçados por se recusarem a vender suas casas

Barbara Surk, The New York Times

03 Maio 2018 | 15h00

BELGRADO, SÉRVIA - Bojan Bjelobaba, dono de um lava a jato em Belgrado, diz que foi ameaçado por se recusar a desocupar seu estabelecimento, no local há 38 anos. Seu lava a jato seria demolido para dar lugar a um parque.

O parque faz parte de um empreendimento de 3 bilhões de euros que está tomando forma na capital da Sérvia, ao longo do rio Sava. O projeto extravagante, conhecido como Orla de Belgrado, está no plano do governo da Sérvia para transformar a metrópole europeia de 2 milhões de habitantes na Dubai dos Balcãs.

O casal Ivan e Vida Timotijevic, que vive no meio da área em desenvolvimento, teve a água e a eletricidade cortadas. Se o governo conseguir o que quer, uma avenida vai passar no local onde hoje fica a casa deles. Eles estão entre os últimos dos pontos de resistência ao empreendimento.

O projeto, que prevê arranha-céus de luxo e alamedas de shopping centers, se tornou um símbolo do plano do presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, para dar à cidade “uma nova identidade”, tirando-a do passado de guerra e de isolamento que marcou o país.

Vucic – ultranacionalista nos tempos das guerras dos Bálcãs e hoje reformador pró-europeu – quer alcançar seu objetivo com dinheiro emprestado e receitas das vendas de terras estatais para compradores da Rússia, da China e dos Estados do Golfo.

Críticos dizem que o governo sérvio não está deixando pedra sobre pedra.

“Eles estão determinados a nos levar para o futuro, arrasando tudo pelo caminho, para que possamos alcançar o tipo de futuro que eles planejam para nós”, disse Dobrica Veselinovic, líder do movimento de oposição conhecido como “Não vamos deixar Belgrado se inundar”, que realizou vários protestos de rua contra o projeto.

“Queremos restaurar a antiga glória de Belgrado, fazer dela uma cidade grande e respeitável novamente, depois dos anos de vergonha que vieram com os conflitos e guerras”, disse o prefeito de Belgrado, Sinisa Mali.

Antes do começo da construção, há dois anos, 231 famílias foram realocadas por causa do projeto, mas algumas se recusaram a sair. Certa noite, cerca de 30 homens mascarados com tacos de beisebol e ferramentas pesadas apareceram no local. Ao amanhecer, vários prédios residenciais e comerciais tinham sido demolidos para permitir o início das obras.

O ataque de 2016 chocou os sérvios, que levaram sua raiva às ruas, denunciando o que afirmavam ser práticas corruptas da elite. Os protestos se transformaram nas maiores manifestações contra o governo desde que uma revolta popular derrubou o poderoso Slobodan Milosevic, em 2000.

O projeto Orla de Belgrado está sendo financiado por uma firma de investimentos de Abu Dhabi, a Eagle Hills Properties, o que suscita preocupações sobre a falta de transparência e o excesso de influência estrangeira. O investimento multibilionário é apenas uma parte da enxurrada de dinheiro dos Emirados Árabes Unidos que está inundando na Sérvia.

“Suas culturas políticas são, em muitos aspectos, compatíveis. O sultanismo dos Emirados Árabes Unidos combina com o autoritarismo dos Balcãs”, disse Tena Prelec, pesquisadora do sudeste da Europa na London School of Economics e coautora de um artigo sobre os investimentos dos Emirados na Sérvia.

Os primeiros proprietários dos prédios residenciais a serem concluídos em breve deverão pagar até 7 mil euros por metro quadrado, em um país com um salário médio mensal de 375 euros. Ao todo, 5.700 residências e oito hotéis serão construídos no empreendimento, na área entre o rio e as ferrovias.

Placas de cimento foram colocadas ao longo do rio para formar um calçadão repleto de escorregadores para crianças, um ancoradouro, um restaurante, uma ciclovia e uma fileira de cartazes gigantes que mostram os prédios a serem construídos nos próximos 30 anos. Entre estes, o maior shopping center dos Balcãs.

“Estamos tentando fazer tudo novo, sem romper os laços da cidade com o passado”, disse Mali.

Mas Bojan Kovacevic, presidente da Academia de Arquitetos da Sérvia, chamou o empreendimento de “crime contra o planejamento urbano”.

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